sábado, 9 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA! XII

Nelson de Barros, 21/06/1968, Cabo da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Aquela não foi uma sexta-feira normal na cidade maravilhosa. Havia uma tensão no ar que era palpável; quase se podia cortar em fatias. Tudo começou quando no horário de almoço um grupo exaltado de estudantes avançou da Praça Tiradentes em direção à Praça 15 de Novembro. No caminho gritavam palavras de ordem como “libertem os presos” e pichavam as paredes com dizeres como “abaixo a ditadura”. Na Avenida Rio Branco, o grupo virou na Rua Quitaúda e cercou uma Kombi (placas 85-25-08) e também a picharam. Os comerciantes sentindo a tensão no ar resolveram fechar as portas. Os bancos também encerraram as suas atividades mais cedo. A Polícia interditou a Avenida Rio Branco na altura da Avenida Presidente Vargas. As ruas transversais continuaram abertas. Um helicóptero da FAB sobrevoou as imediações.

Alguns grupos de pessoas se formaram nas esquinas. Por volta das 12hs30min um caminhão do Batalhão de Choque da PMRJ passou pela Avenida Rio Branco com a sirene ligada. Logo depois dois veículos do DOPS passaram pela mesma avenida e lançaram bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a manifestação. Um grupo de manifestantes tomou posição na esquina da Rua Sete de Setembro e transformou uma banca de revistas em barricada. Em seguida, apedrejaram um caminhão da PM que passava por ali com o motorista e oito ocupantes. Alguns policiais ficaram feridos. Reforços chegaram e houve correria. Deste momento em diante, o centro do Rio de Janeiro virou uma praça de guerra.


De algumas janelas do alto dos edifícios eram jogados objetos pesados como cinzeiros, tijolos e garrafas. E mais pedras. Os policiais foram obrigados a se proteger debaixo de marquises. Foram mais de seis horas consecutivas de terror, tiros, depredações e desordens. A Bolsa de Valores foi depredada. Barricadas foram erguidas em diversos pontos e cinco viaturas policiais foram incendiadas; vários carros de civis que passavam nas imediações e nada tinham a ver com a manifestação ou a sua repressão foram destruídos e incendiados. A polícia, acuada e sem conseguir dominar a situação com tiros de festim, abriu fogo com munição real e muitas pessoas foram feridas. Vinte e três pessoas baleadas, oito feridos com paus e pedras, quinze agredidos a socos e pontapés, seis intoxicados por gás lacrimogêneo e vinte policiais feridos era o balanço que os hospitais da cidade fizeram dos atendimentos até o princípio da noite. Quase mil pessoas foram detidas. A situação dos policiais naquele dia era tão dramática que uma ordem chegou a ser dada no sentido de se utilizar as pessoas detidas como escudo humano contra as pedradas que a polícia recebia. A ordem não chegou a ser cumprida. A legenda de uma fotografia publicada pelo Jornal do Brasil (edição 00063) informa, sem meias palavras, que antes de disparar suas armas a PM não inspirava medo.


Uma das pedras atiradas do alto de um dos edifícios atingiu a cabeça do Cabo Nelson de Barros, que morreu vítima de traumatismo craniano. Cerca de cinco mil pessoas acompanharam o seu enterro. Houve grande revolta por parte dos policiais militares com a morte do Cabo Nelson. Essa revolta gerou temor nas autoridades de vingança por parte dos policiais. Durante um período os policiais receberam ordens de não sair fardados e a tropa foi mantida nos quartéis até que os ânimos se arrefecessem. O saldo da “sexta-feira sangrenta” como ficou conhecido aquele dia, jamais foi apurado com certeza absoluta. Muitos dos feridos não foram para os hospitais, pois, já eram fichados como subversivos e tinham medo de ser responsabilizados pelas depredações ou pelos ferimentos causados nos policiais. Os jornais da época falavam de quatro a dez mortos e dezenas de feridos.



Uma fotografia tirada neste dia que passou à história mostra dois policiais de cassetetes na mão perseguindo um homem que está escorregando. Sites atuais e mesmo jornais daquela época usam essa foto como exemplo de brutalidade policial. Porém, basta olhar-se a mão direita do “manifestante” para se perceber que ele está empunhando uma pedra, e não a soltou, mesmo após seus óculos ter caído.


Nota do autor: O Diário de Noticias, edição 13.983 cita o nome de Almir Franco (policial militar) como vítima fatal. Já o Jornal do Brasil, edição 00064, cita Almir França (também policial militar) como ferido nos conflitos e internado no Hospital Souza Aguiar. Não foi possível, pela consulta aos periódicos da época, elucidar qual o nome correto (Franco ou França) e ainda se a vítima veio a óbito ou sobreviveu.
Nelson de Barros era cabo da Polícia Militar do Rio de Janeiro (número 9.397, 1ª Companhia do Batalhão Motorizado). Tinha 31 anos e era casado com Maria Felipe de Barros (que estava grávida de cinco meses). Pai de duas filhas (Nelsilene, três anos e Marilene, dois anos). Foi promovido postumamente a 3º Sargento.
Autoria: desconhecida. Na época, jornais apontavam Vladimir Palmeira como um dos incitadores da violência contra a polícia.


Fontes: Diário de Notícias, edição 13983 de 22/06/1968, 1ª seção, página 8, edição 14056, página não identificada; Jornal do Brasil, edição 00063 de 22/06/1968, matéria e capa e 1º caderno, diversas páginas e edição 00064 de 23/06/1968, 1º caderno, página 32; Correio da Manhã, edição 23068 de 23/06/1968, 1º caderno, página 7.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).

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