domingo, 10 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA. XV

Antônio Carlos Jeffery, 20/09/1968, Soldado Força Pública de São Paulo

A Força Pública de São Paulo (atual Polícia Militar) nem bem havia acabado de lamentar a morte de um de seus membros (Soldado Eduardo Custódio de Souza) e outro assassinato chocou a cidade de São Paulo. O Soldado Antônio Carlos Jeffery estava de sentinela na Escola de Bombeiros do Centro de Formação de Oficiais (Barro Branco) daquela corporação quando foi fuzilado por três elementos. Quatro tiros vararam o peito do soldado Jeffery que tombou morto. Ato contínuo, os assassinos roubaram a sua metralhadora e um carregador com trinta munições e fugiram em um Volkswagen cor bordô, sem placas. Este automóvel já fora visto rondando as imediações do Quartel.
Segundo testemunhas, na madrugada fatal, o Soldado Jeffery teria abordado o veículo e mandado que ele se afastasse. O veículo se afastou, aparentemente cumprindo a ordem dada, mas, retornou logo em seguida com seus ocupantes já abrindo fogo contra o Soldado Jeffery. A opinião corrente no seio da tropa era que o Soldado Jeffery era novato na corporação e não tinha a tarimba dos veteranos; esse fato pode ter contribuído para o seu triste fim. A polícia levantou a hipótese de que os terroristas queriam chegar ao Centro de Formação e Aperfeiçoamento onde existia uma boa quantidade de armamento. De qualquer forma, após este crime, a polícia já não tinha mais dúvidas que havia uma ligação com o crime praticado em 07/09/1968 contra outra sentinela (Eduardo Custódio de Souza) e que as duas ações foram perpetradas por terroristas.
O local onde o Soldado Jeffery estava de plantão também contribuiu para a emboscada. Seu posto de sentinela ficava em um terreno descampado, a cerca de 100 metros da Escola e a casa mais próxima estava a 150 metros de distância. A guarita ficava em uma rua sem asfalto que ligava a Avenida Mandaqui à Avenida Água Fria, onde ficava o Quartel que servia de Escola aos Bombeiros.
A morte do Soldado Jeffery, que era tido como “companheiro exemplar” por seus colegas de farda chocou toda a corporação. Seu corpo foi velado no Quartel dos Bombeiros da Baixada Santista e depois foi conduzido por uma viatura até o Cemitério da Filosofia em um cortejo integrado por dezenas de viaturas com as sirenes ligadas. O caixão estava coberto com a Bandeira do Brasil. Nem mesmo a chuva torrencial que despencava sobre Santos impediu que cerca de 1500 pessoas acompanhassem o sepultamento. O Toque do Silêncio executado pelo Sargento Benedito Ramos Cruz adicionou uma nota ainda mais dramática quando o corpo do Soldado Jeferry baixou à sepultura.
Antonio Carlos Jeffery (Jaffet, segundo alguns periódicos) tinha 20 anos e era soldado raso da Força Pública de São Paulo onde ingressara em 19/07/1968. Estava matriculado na Escola de Bombeiros e era sua intenção ser lotado em uma unidade de salva-vidas no litoral. Seu corpo foi enterrado em Santos, a pedido de sua mãe, D. Brígida, que precisou ser amparada pelo marido e diversas autoridades durante todo o velório.
Autoria: Pedro Lobo de Oliveira, Onofre Pinto, Diógenes José Carvalho de Oliveira, atualmente conhecido como “Diógenes do PT”, todos integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária.
Fontes: Correio da Manhã, edição 23145 de 21/09/1968, 1º caderno, página 10; Jornal do Brasil, edição 00141 de 21/09/1968, 1º caderno, página 12; Diário da Noite, edição 13.214 de 22/09/1968, página 2.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).

Nenhum comentário:

Postar um comentário