domingo, 17 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA! XXII & XXIII

Cecildes Moreira de Faria, 29/01/1969, policial civil; e
José Antunes Ferreira, 29/01/1969, guarda-civil

Minas Gerais também estava na rota do terror. Precisamente às 3 horas da madrugada de 29/01/1969, uma força tarefa de segurança cercou e invadiu a casa localizada na Rua 34, nº 31, no Bairro Santa Inês, em Belo Horizonte – MG. A casa estava desocupada, mas a polícia encontrou farto material subversivo. Além disso, foram apreendidos fardas da Polícia Militar, armamento, munição e quantidade considerável de dinamite. Desta casa, a polícia seguiu uma pista que a levou até a Rua Itacarumbu, 120, Bairro São Geraldo, também na capital mineira, aonde chegou uma hora e meia depois. Esta casa foi objeto de denúncias dos vizinhos, tendo em vista a grande movimentação de pessoas suspeitas que entravam e saíam dela constantemente. Um Volkswagen com placa de Brasília 3-34-25 indicou para a polícia que a casa não estava vazia. 
Querendo evitar um confronto, um policial bateu à porta e esperou para ver se alguém atendia. Um rapaz que estava no interior da casa abriu uma janela lateral e viu a polícia. Ele estava armado com uma metralhadora, mas, não a usou no primeiro momento. Optou por fugir pela porta dos fundos; mas a casa já estava cercada pela polícia. O rapaz voltou para o interior do imóvel e deixou a porta aberta, o que facilitou a entrada dos policiais. Cecildes Moreira Faria, sub-inspetor de Polícia Civil e José Antunes Ferreira foram dois dos primeiros policiais a entrarem na casa. A casa estava com as luzes apagadas e isso selou o destino dos dois policiais. O terrorista armado com a metralhadora e que estava de sentinela noturno abriu fogo sobre Cecildes e José Antunes. Ouvindo os tiros, o restante dos policiais invadiu a casa e prendeu todos os terroristas (cinco homens e uma mulher) que estavam dormindo naquele momento, além de Murilo. O policial José Reis de Oliveira foi ferido no pescoço e no braço, mas, conseguiu se recuperar. Apenas um dos guerrilheiros ficou ferido. A precisão dos tiros disparados pelo terrorista sobre Cecildes impressionou os policiais: três disparos acertaram a região do coração do policial.
O grupo preso era responsável por inúmeros assaltos a bancos, pedreiras e outros estabelecimentos em Belo Horizonte e região metropolitana. No Fusca que estava estacionado diante da casa a polícia apreendeu cinco litros de nitroglicerina. Dentro da casa, foram apreendidos um fuzil FAL calibre 7,62, cinco pistolas, três revólveres, duas metralhadoras, duas carabinas, duas granadas de mão, 702 bananas de dinamite, fardas da PM e dinheiro de assaltos.
Posteriormente foi revelado à imprensa que o terrorista que abateu com sua metralhadora tanto Cecildes quanto José Antunes era Murilo Pinto Pezzuti da Silva. Além de Murilo, sua mãe Carmela e seu irmão Ângelo também estavam envolvidos em atividades subversivas. Em 15/06/1970, Murilo, que ainda se encontrava preso foi trocado (junto com outros 39 terroristas, inclusive seu irmão Ângelo) pela vida do Embaixador alemão Von Helleben, que fora seqüestrado por um comando da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) encabeçado pelo ex-capitão Carlos Lamarca. Curiosamente, alguns jornais da época omitiram o sobrenome “Pezzuti” ao se referir a Murilo. O mesmo não aconteceu em relação à Carmela (mãe) e Ângelo (irmão).
Ficou famoso um documento idealizado por Ângelo Pezzuti e assinado por José Raimundo de Oliveira, Ervin Rezende Duarte e outros presos em meados de 1971, que ficou conhecido como “Carta de Linhares”. Todos se encontravam presos na Penitenciária de Linhares em Juiz de Fora – MG. O documento fora largamente divulgado no exterior e acusava diversos integrantes das Forças de Segurança de torturadores. Entretanto, pouco depois da divulgação, José Raimundo e Ervin, em depoimento de próprio punho, informaram que só assinaram tal documento por medo de represálias contra eles. Os dois afirmaram também que o documento era uma tentativa de difamar o Brasil e suas instituições no exterior. Curiosamente o documento, que foi desmentido em todos os seus detalhes, acusava de torturador o policial José Reis, sendo que na época em que se deu a suposta tortura de Ângelo e os outros, o policial José Reis estava convalescendo internado no hospital dos ferimentos à bala recebidos quando a polícia invadiu o aparelho da Rua Itacarumbu. Além disso, o documento também não faz menção à morte de Cecildes ou José Antunes durante a invasão do aparelho, numa clara demonstração de parcialidade.
Cecildes Moreira de Faria era policial civil; era casado e tinha oito filhos, todos menores de idade. José Antunes Ferreira era guarda civil. Os jornais da época que foram pesquisados não divulgaram maiores informações sobre os dois policiais mortos no cumprimento do dever.
Autoria: Murilo Pinto Pezzuti da Silva foi o autor dos disparos que mataram Cecildes e José Antunes. Além dele, foram presos os seguintes terroristas no aparelho da Rua Itacarumbu: Afonso Celso L. Leite, Mauricio Vieira de Castro, Nilo Sérgio Menezes Macedo, Júlio Antonio Bittencourt de Almeida, Jorge Raimundo Nahas e Maria José de Carvalho Nahas.
Fontes: Tribuna da Imprensa, edição 05719 de 30/01/1969, página 5; Diário de Notícias, edição 14169 de 31/01/1969, 1ª seção, página 3, edição 14950 de 24/07/1971, página 5; Jornal do Commercio, edição 20017 de 30/01/1969, Matéria de capa; Diário da Tarde, edição 21345 de 16/06/1970, página 2; Jornal do Brasil, 00106 de 10/08/1971, 1º caderno, página 17.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).


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