terça-feira, 26 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA. XXIV & XXV

Francisco Brito (Bento) da Silva, 15/04/1969, motorista;e
Luiz Francisco da Silva, --/04/1969, guarda de segurança
Naqueles dias carro-forte ainda não era cena comum nas cidades brasileiras. O transporte de valores era feito em veículos comuns. Às 17hs10min de 15/04/1969 uma Kombi estacionou diante da Agência do Banco Francês e Italiano, na Avenida Santo Amaro, 575, em São Paulo – SP, como era a sua rotina diária. Esse detalhe colaborou decisivamente para o assalto que ocorreria logo em seguida. Nem mesmo o assalto ocorrido há exatamente um ano atrás naquele mesmo local e nas mesmas circunstâncias serviu como alerta para os bancários alterarem a sua rotina.
Antes que os ocupantes do veículo bancário percebessem qualquer anormalidade, foram cercados por um grupo de oito homens armados com revolveres e metralhadoras, que fecharam a rua com dois automóveis (Volkswagen), um vermelho e outro bege. Alguns dos terroristas estavam vestidos de terno e outros com roupa esporte. Após uma saraivada de balas os assaltantes abriram a porta do meio da Perua e apanharam três malotes com dinheiro. Depois, jogaram um funcionário idoso no meio da rua e o espancaram com socos e pontapés. Durante a ação, o motorista da Kombi Francisco Brito da Silva foi alvejado com uma rajada de metralhadora – levou quatro tiros. Ele chegou a ser socorrido, mas, não resistiu aos ferimentos. Também foi alvejado (com oito disparos – um tiro na nuca, dois no pescoço e o restante no peito) o segurança Luiz Francisco da Silva que morreu no local. A identidade do funcionário idoso foi mantida em sigilo, pois ele forneceu várias informações sobre o bando para a polícia. Duas outras testemunhas, uma mulher e seu filho, que viram toda a ação da janela de sua casa, garantiram que os homens já se aproximaram do carro pagador disparando as suas armas, sem chance de reação por parte dos bancários.
Os funcionários do banco assistiram horrorizados a todo o assalto, sem poder fazer nada para impedi-lo ou mesmo salvar a vida de Francisco e Luiz. No total foram roubados cerca de NCr$ 20 mil.

                   DEVANIR JOSÉ DE CARVALHO, PCdoB, Ala Vermelha e MRT

Quando o crime foi elucidado, um fato chamou a atenção de todos: a presença de dois irmãos entre os terroristas Daniel José de Carvalho e Devanir José de Carvalho.
Francisco Brito (Bento) da Silva era motorista do carro-pagador do Banco Francês-Italiano. Era casado e tinha seis filhos menores. Luiz Francisco da Silva era guarda de segurança. Deixou viúva e oito filhos. Por azar, havia retornado àquela função na manhã anterior ao assalto. Sabe-se que ele ficou internado vários dias na CTI do Hospital das Clínicas. Os jornais pesquisados não informaram a data exata do seu óbito.
Autoria: integrantes da Ala Vermelha do PC do B, ligada à Carlos Marighela, que participaram do assalto: Élio Cabral de Souza, Derly José de Carvalho, Daniel José de Carvalho, Devanir José de Carvalho, James Allen Luz, Aderval Alves Coqueiro, Lúcio da Costa Fonseca, Gilberto Giovanetti, Ney Jansen Ferreira Júnior, Genésio Borges de Melo e Antônio Medeiros Neto.
Fontes: Jornal do Brasil, edição 00006 de 15/04/1969, matéria de capa e página 14, edição 00216 de 16/12/1969, 1º caderno, página 18; Tribuna da Imprensa, edição 05546 de 09/04/1968, página 7; Correio da Manhã, edição 23013 de 16/04/1969, matéria de capa.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).


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