terça-feira, 19 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA! XXVI

Manoel da Silva Dutra, 15/04/1969, açougueiro


A audácia dos grupos terroristas que continuamente assaltavam bancos e estabelecimentos comerciais nas grandes cidades do Brasil parecia não ter limites. Em 31/03/1969, pouco depois das 13 horas, um grupo de cinco pessoas, armadas com revolveres e metralhadoras, chegaram à uma agência do Banco Andrade Arnaud, na Rua Visconde da Gávea, no Rio de Janeiro. Esta agência ficava a apenas 200 metros do Ministério do Exército, a pequena distância do Ministério das Relações Exteriores, e ainda da Delegacia de Vigilância e da 2ª Delegacia. Toda a ação não durou mais que quatro minutos. Os terroristas entraram na agência, armas em punho, agrediram duas funcionárias e um contador (Ernesto Correia) do banco, que não obedeceram imediatamente às suas ordens. Prenderam quatro clientes e treze funcionários em um banheiro e ao saírem, levaram consigo mais de NCr$ 44.000,00. Nesse mesmo dia, a agência da Caixa Econômica Federal foi assaltada na Capital Mineira. Desde o primeiro momento a polícia não tinha dúvidas que os crimes foram cometidos com finalidade política, para financiar os grupos terroristas ativos no Brasil.
Ao contrário do que fizeram em vezes anteriores, não foram proferidos discursos contra o Governo Federal. Os terroristas estavam com pressa. Apenas mandaram os funcionários ficarem por vinte minutos no banheiro, pois, se saíssem antes levariam “bala na cabeça”. Saíram da agência e embarcaram em um Aero Wyllis que aguardava no cruzamento das Ruas Visconde da Gávea com São Félix.
Diversas pessoas viram o assalto e a fuga dos terroristas. Pelo menos uma delas, o açougueiro português Manoel da Silva Dutra, resolveu cooperar com a polícia, dizendo inclusive que seria capaz de reconhecer pelo menos um dos terroristas. Ele fora a única pessoa, fora do banco, a travar rápido diálogo com os terroristas. Segundo noticiou o Diário de Notícias (edição 14231) esse terrorista reconhecido por Manoel era Ivens Marchetti de Monte Lima, que participara do seqüestro do Embaixador norte-americano Chales Burcke Elbrick. Isso selou o destino de Manoel.
No dia 15/04/1969, Manoel estava sozinho no seu açougue (Talho Colonial, Rua Visconde da Gávea, 57) contando a féria da manhã, quando foi surpreendido por desconhecidos. Pouco depois ele foi encontrado pelo seu empregado, que ouviu seus gemidos. Manoel estava com a cabeça dentro do vaso sanitário e com o corpo coberto de sangue: ele levara um tiro no peito. Manoel morreu a caminho do hospital.
Em primeiro momento, a polícia chegou a suspeitar de latrocínio comum, mas, essa hipótese foi logo afastada, tendo em vista que o(s) criminoso(s) deixou para trás dinheiro que estava no bolso da vítima (NCr$ 330,00), não se importando também com o numerário que estava sobre o balcão do açougue (NCr$ 500,00) e ainda na caixa registradora (NCr$ 40,00). As investigações subseqüentes demonstraram que Manoel fora executado como exemplo, para que outras pessoas não colaborassem com a polícia.
Manoel da Silva Dutra tinha 29 anos e morava na Rua Ladeira de Faria, 64. Havia chegado ao Brasil em 1965. Era casado e tinha dois filhos, ambos contando menos de quatro anos de idade. Era tido como uma pessoa pacata que saía do trabalho e ia direto para casa e vice-versa.
Autoria: VAR-Palmares que foi uma fusão do grupo COLINA – Comando de Libertação Nacional com a VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Nesta ação participou Carlos Minc, ex-ministro da Cultura de Dilma Rousseff, que também integrava o grupo terrorista VAR-Palmares.
Fontes: Correio da Manhã, edição 23301 de 01/04/1969, matéria de capa e página 8, edição 23313 de 16/04/1969, 1º caderno, página 6 e edição 24727 de 27/11/1963, página 5; Jornal do Brasil, edição 00345 de 23/03/1978, 1º caderno, página 8 e edição 00008 de 17/04/1969, 1º caderno, página 14; Diário de Notícias, edição 14231 de 16/04/1969, 1ª seção, página 11.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).

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