quarta-feira, 20 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA XXVIII

Orlando Pinto Saraiva, 09/05/1969, Guarda Civil
                           Zequinha Barreto e Lamarca mortos.
O dia 09/05/1969 demonstrou mais uma vez que não havia limites para a ousadia das ações terroristas que espantavam São Paulo, e amedrontavam os funcionários e clientes do setor bancário. Por volta das 14hs, dois grupos assaltaram simultaneamente duas agências bancárias na Rua Piratininga, no Brás. Nem mesmo intenso movimento na rua intimidou os terroristas.
Paulo Souza, contínuo do Banco Itaú, estava no banheiro do banco quando ouviu os gritos de “assalto” no salão da agência. Conseguiu sair por uma porta dos fundos que dava na Rua Visconde de Parnaíba. Já na rua, ele viu quando um ônibus parou no ponto e dele desceu o Inspetor da Guarda Civil Orlando Pinto Saraiva, encaminhando-se para o banco. Ele não estava armado e nem de serviço. Do outro lado da rua, um dos terroristas viu o inspetor Orlando e disparou seu revólver. O tiro acertou Orlando na cabeça e ele morreu no local, provavelmente sem sequer entender o que estava acontecendo. Em outra versão divulgada por jornais da época, Orlando teria tentado interceptar o homem armado, sendo então baleado. Entretanto, todas as versões são uníssonas em informar que Orlando não fez disparos.
O homem que atirou, moreno e jovem, estava próximo de um Fusca verde placas I-70-12-46. Depois de matar Orlando, ele apanhou uma metralhadora no interior do veículo e disparou uma rajada para o alto, parando o trânsito. No total, sete terroristas participaram desta ação – três deles fugiram no Fusca e outros quatro fugiram em um automóvel Esplanada dourado placas do Paraná nº 40-57-22.
Enquanto tudo isso acontecia, um homem mulato, aparentando 18 anos, de terno, entrou na Agência do Banco Mercantil. Disse a um contínuo que estava passando mal e pediu para ir ao banheiro. O rapaz encaminhou o falso cliente a Noberto Dragonetti, gerente da agência. O gerente autorizou a ida dele ao banheiro. Porém, lá chegando, o rapaz de terno rendeu o contínuo, mostrando um revólver. Ao mesmo tempo, outros três homens armados entraram na agência e anunciaram o assalto. Os nove funcionários e os três clientes foram levados sob a mira de armas para um banheiro. Um homem, armado de metralhadora e que parecia ser o chefe ficou com o gerente e mandou-o abrir o cofre. Norberto disse que não poderia abrir a porta do cofre, pois, dependia de outra chave que estava com um funcionário que não se encontrava na agência. Os terroristas começaram a bater no gerente e ameaçá-lo de morte. Norberto implorou para não ser morto, dizendo inclusive que tinha uma filha ainda criança. Seus apelos não comoveram os terroristas e ele foi esfaqueado nas costas. Felizmente, conseguiu sobreviver.
No total os terroristas conseguiram roubar nas duas ações apenas NCr$ 770,00 tendo em vista que eles não tiveram acesso aos cofres, ficando apenas com o dinheiro que estava nos caixas.
Orlando Pinto Saraiva (da Silva, segundo alguns periódicos) era inspetor da guarda civil. Os jornais da época que foram pesquisados não forneceram maiores informações sobre Orlando.
Autoria: Ex-capitão Carlos Lamarca, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) foi apontado como o autor do disparo fatal contra Orlando.

 Fontes: Jornal do Brasil, edição 00028 de 10/05/1969, 1º caderno, página 16; Jornal do Commercio, edição 20094 de 11/05/1969, página 4; Revista O Cruzeiro, edição 0039 de 29/09/1971, página 22.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).

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