sábado, 23 de julho de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA. XXX

Boaventura Rodrigues da Silva, 04/06/1969, soldado da Força Pública de São Paulo
Boanerges de Souza Massa. medico, assassino, assaltante e terrorista. MORTO!
O Soldado da Força Pública de São Paulo Boaventura Rodrigues da Silva estava atento a tudo ao seu redor enquanto estava de segurança no setor bancário da Rua Penha de França, São Paulo, Capital. Estava de serviço desde as primeiras horas da manhã e já respirava aliviado, pois faltavam poucos minutos para o meio dia, quando acabaria o seu turno. Ele havia voltado de férias há poucos dias e sabia que ser soldado era profissão de alto risco naqueles dias. E ele era cuidadoso: não gostava de ficar postado bem diante de uma agência bancária. Conforme ele mesmo dizia aos seus companheiros de farda, o melhor era ficar um pouco afastado para evitar um ataque de surpresa. Ele também dizia que era uma questão de honra proteger as pessoas e o patrimônio que fossem colocados sob sua guarda. Sua intenção seria colocada à prova naquele dia e ele não vacilaria.
Precisamente às 11hs45min viu na altura do Banco Tozan (Rua Penha de França, 635) um grupo de cinco homens suspeitos descerem de um Aero Willys. Tudo aconteceu muito rápido. Uma testemunha chamada Ivo Zonta contou tudo que viu à Polícia. Dois homens, um japonês de cavanhaque e outro gordo, tentaram imobilizar Boaventura. O Soldado reagiu e foi baleado por um dos terroristas. Eles lhe tiraram a metralhadora INA e correram para o Aero Willys. Mesmo baleado, Boaventura sacou seu revolver e atirou contra os terroristas atingindo um deles na cabeça. Dois ocupantes do Aero Willys desceram do veículo para recolher o companheiro ferido; Boaventura fez mais três disparos, porém sem êxito. Entretanto, de dentro do Aero Willys, alguém disparou uma rajada fatal de metralhadora contra o Soldado Boaventura que morreu na hora.
O terrorista baleado na cabeça não morreu. No dia seguinte ele foi operado no Hospital Boa Esperança, em Itapecerica da Serra – SP pelo médico Boanerges de Souza Massa (integrante da ALN – Aliança Libertadora Nacional) – que, como se soube depois, também participou da ação. O Dr. Boanerges, por volta das 18 horas, ligou para o Hospital e pediu para prepararem a sala de operações para que ele fizesse uma cirurgia de emergência em um amigo que fora atropelado. Disse que seu nome era Davi Soares. Boanerges chegou com o paciente por volta das 22 horas, acompanhando de dois homens que carregavam o ferido. A sala de cirurgia já estava preparada, mas tão logo começou a operação os outros profissionais ali presentes verificaram que não se tratava de atropelamento, mas, de dois ferimentos a bala: um na cabeça e outro no abdômen. Quando perceberam isso, os outros médicos combinaram que após a cirurgia chamariam a polícia. Boanerges concordou em um primeiro momento. Quando o Diretor do Hospital tentou ligar para a polícia, foi impedido por Boanerges e os outros dois homens, que também eram terroristas. Roubaram uma ambulância e diversos medicamentos e foram embora levando o terrorista ferido. A Polícia não teve dúvidas que o terrorista operado era o mesmo que fora baleado pelo Soldado Boaventura, antes de ser metralhado. Segundo o Jornal “Diário da Noite” (edição 13763) o verdadeiro nome do terrorista ferido era Francisco Gomes da Silva.
Boanerges Boaventura da Silva era Soldado do 2º Batalhão da Força Pública de São Paulo (atual Polícia Militar). Tinha 28 anos, era casado e pai de três filhos menores de idade. Mais de três mil pessoas acompanharam o seu velório e sepultamento no Cemitério da Saudade em São Miguel Paulista. Seus companheiros de farda comentaram durante o velório que provavelmente Boaventura não tenha usado a sua metralhadora contra os terroristas devido ao grande número de pessoas no local, inclusive muitas crianças.
Autoria: Aliança Libertadora Nacional (ALN). Terroristas que participaram da ação: Francisco Gomes da Silva (o ferido), Boanerges de Souza Massa (o médico que operou Francisco), Paulo de Tarso Venceslau, Celso Antunes Horta, Manoel Cirilo de Oliveira Neto, Carlos Henrique Knap, Eliane Toscano Zamilkhowski, Virgilio Gomes da Silva, Anton Fon Filho e Joaquim Câmara Ferreira.
Fontes: Jornal do Brasil, edição 00050 de 05/06/1969, matéria de capa e página 15; edição 00051 de 06/06/1969, 1º caderno, página 12; Diário da Noite, edição 13639 de 06/06/1969, matéria de capa, edição 13763 de 29/10/1969, matéria de capa e edição 13796 de 05/12/1969, 1º caderno, página 2.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).


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