quarta-feira, 17 de agosto de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA LIII

João Batista de Souza, 02/05/1970, Guarda de Segurança
Fundador e dirigente do Movimento Revolucionário Tiradentes, morto em 5 de abril de 1971

A Companhia de Cigarros Souza Cruz mantinha uma agência de venda na Avenida Lins de Vasconcelos, 3329, Vila Mariana em São Paulo – Capital. Todos os sábados pela manhã, funcionários do Banco Nacional de Minas Gerais para lá se dirigiam com a finalidade de contar a féria da semana e preparar um malote que era recolhido após o almoço por um carro-forte. No final da manhã de 02/05/1970 os bancários já haviam realizado o seu serviço e apenas aguardavam a chegada do carro-forte. Por volta das 11hs30 minutos três veículos Volkswagen (um vermelho, placas 12-07-16, outro cor verde placa final 58 e o último cor azul cuja placa não foi anotada) se aproximaram da empresa. O fusca vermelho parou bem diante da porta do estabelecimento e os outros dois fecharam a rua não permitindo o trânsito de outros veículos. Em cada veículo permaneceu o motorista e um homem armado com metralhadora dando cobertura. Cinco homens armados entraram na agência da Souza Cruz e anunciaram o assalto. No local havia cinquenta pessoas: vinte funcionários e trinta clientes. Entre os funcionários estavam dois seguranças armados: João Batista de Souza e Manoel Mates. Em outra versão divulgada pela imprensa, os cinco terroristas entraram na agência com as armas escondidas e fazendo-se passar por clientes, e só anunciaram o assalto quando os carros fecharam o trânsito na rua.
A invasão provocou pânico nos funcionários e clientes que se atiraram ao chão. Os terroristas começaram a recolher o dinheiro colocando-o em uma bolsa de couro. No total levaram NCr$ 101.130,00 e vários cheques. Ao perceberem a ação dos terroristas João Batista e Manoel sacaram suar armas e houve troca de tiros. Um dos terroristas foi ferido na perna e João Batista foi atingido por uma rajada de metralhadora em pleno peito morrendo na hora.
Antônio Biudis, que trabalhava em uma oficina mecânica do outro lado da rua ouviu os disparos e saiu para ver do que se tratava. Um terrorista encostou a metralhadora no seu peito e mandou que ele retornasse dizendo simplesmente que estava tudo bem.
Ao fugirem do local, os ocupantes dos três veículos lançaram panfletos ao ar onde se lia entre outras frases: “se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria”. Não havia dúvidas que aquele não fora um assalto comum, mas uma ação terrorista.
João Batista de Souza era Cabo da Força Pública de São Paulo (atual Policia Militar) e nas horas de folga trabalhava como segurança patrimonial para complementar seu orçamento. Tinha 26 anos e estava casado há vinte dias.
Autoria: Devanir José de Carvalho, Antonio André Camargo Guerra, Plínio Petersen Pereira, Waldemar Abreu e José Rodrigues Ângelo, pelo Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), e Eduardo Leite, pela Resistência Democrática (REDE) participaram da ação terrorista. Eduardo Leite foi identificado como autor dos disparos que matou João Batista de Souza.
Fontes: Correio da Manhã, edição 23633 de 03 e 04/05/1970, 1º caderno, página 7; Diário do Paraná, edição 04438 de 03/05/1970, matéria de capa; Diário da Noite, edição 13623 de 04/05/1970, matéria de capa.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).

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