sexta-feira, 19 de agosto de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA LV

Irlando de Souza Regis, 11/06/1970, Agente da Polícia Federal

A noite de 11/06/1970 ficaria marcada para sempre na memória do Embaixador Alemão no Brasil, Ehrendfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben. Isso não é pouco se considerar-se que Von Holleben era veterano da Segunda Guerra Mundial, tendo sido ferido em combate. Naquela noite, por volta das 19hs45min o Embaixador Alemão deixou o prédio da Embaixada nas Laranjeiras (Bairro do Rio de Janeiro – GB) para se dirigir para a sua casa (Rua Candido Mendes, 784) na sua Mercedes Bens. Dirigindo o automóvel estava o motorista Marinho Hutter, a seu lado, o agente federal Irlando de Souza Regis. Logo atrás, o veículo era seguido por uma Variant com mais dois agentes federais: Luiz Antônio Sampaio e José Pinheiro da Silva. Na altura da Ladeira do Fialho, Marinho foi obrigado a frear seu carro, pois uma Pick-up (cor verde, placas 35-50-87) fechou o carro oficial, chegando a bater nele. O que se seguiu foi uma ação rápida, violenta e muito bem planejada. Uma saraivada de balas de metralhadoras e revolveres foi disparada. O motorista só teve tempo de levar as mãos à cabeça em um gesto instintivo de proteção. Percebeu a sua porta ser aberta e um terrorista mandou que ele ficasse quieto. Viu o Embaixador Helleben ser arrastado do carro. 
Um dos terroristas deu uma rajada de metralhadora contra a Variant de escolta, ferindo gravemente o Agente Federal Luiz Antônio e levemente o seu colega José Pinheiro. Irlando não teve a mesma sorte. Um dos terroristas atirou pelo vidro entreaberto da Mercedes acertando o tórax do agente federal que morreu na hora.
Testemunhas completaram o quadro do que aconteceu para a Polícia. Por volta das 18 horas, dois homens e uma mulher sentaram-se na escadaria da Ladeira do Fialho que ligava a Rua Cândido Mendes com a Rua Benjamin Constant, na Glória. Pelos menos outras seis pessoas participaram do seqüestro. O sinal para a ação veio quando um dos terroristas atirou contra um poste de luz, deixando a rua na penumbra. A fuga foi realizada com o auxílio de dois veículos: um Opala bege e um Volkswagen grená.
Antes de fugir do local, os terroristas espalharam panfletos pela rua e imediações onde declaravam sua intenção de continuar perpetrando seqüestros contra autoridades de qualquer país que estivesse em serviço no Brasil.
O Embaixador alemão foi libertado no dia 16/06/1970 após o governo brasileiro despachar para a Argélia, 40 terroristas conforme exigências dos seqüestradores.
Irlando de Souza Regis (nas listas que circulam na Internet, o nome é grafado equivocadamente como Irlando de Moura Regis) era carioca e tinha 54 anos de idade. Havia ingressado na Polícia em 14/02/1941. Desde abril de 1970 estava lotado na SOPS, quando fora encarregado da segurança do Embaixador Alemão. Vivia com D. Florentina D. Rocha e havia adotado a filha da sua companheira, a jovem Guilhermina Maria da Rocha de 17 anos. O Presidente da República Emilio Garrastazu Médici compareceu ao funeral que foi acompanhado por cerca de cinco mil pessoas. O corpo de Irlando foi enterrado no Mausoléu do Policial, no Cemitério São Francisco Xavier, no Cajú.
Autoria: Comando Juarez Guimarães de Brito. Foram identificados os seguintes terroristas: Jesus Paredes Soto, José Maurício Gradel, Sônia Eliane Lafóz, José Milton Barbosa, Eduardo Coleen Leite (autor dos disparos que mataram Irlando), Herbert Eustáquio de Carvalho, José Roberto Gonçalves de Rezende, Alex Polari e Roberto Chagas da Silva.

 Fontes: Jornal do Brasil, edição 00056 de 12/06/1970, 1º caderno, página 3; edição 00057 de 13/06/1970, 1º caderno, página 2 e página 7; edição 00060 de 17/06/1970, 1º caderno, página 3; Correio da Manhã, edição 23668 de 13/06/1970, matéria de capa e 1º caderno, página 3.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).

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