segunda-feira, 22 de agosto de 2016

OS MORTOS QUE O BRASIL NÃO CHORA LVIII

José Armando Rodrigues, 29/08/1970, comerciante
São Benedito é uma pequena cidade localizada a oeste do Estado do Ceará. Aquele sábado, 29/08/1970, estava fadado a não ser uma noite de final de semana como outra qualquer. Um grupo de seis terroristas armados com metralhadoras e revolveres, usando uniformes e com cartucheiras de munição cruzadas no peito invadiu a cidade e sob os olhares horrorizados de dezenas de pessoas seqüestraram José Armando Rodrigues, um dos homens mais ricos da região e o obrigaram a abrir o seu armazém.
Dois homens entraram no armazém com José Armando, enquanto outros quatro ficaram de fora, vigiando e ameaçando cerca de 50 populares que assistiam ao crime sem nada poder fazer. José Armando foi obrigado a abrir o cofre e entregar cerca de NCr$ 30 mil aos terroristas. Não satisfeitos, eles levaram o comerciante consigo, fugindo do local em um automóvel DKW placas 7-08-26. A 53 quilômetros de São Benedito, os terroristas executaram a sangue frio José Armando, com quatro tiros. Seu corpo foi encontrado amarrado, com sinais de tortura, no fundo de um precipício de 30 metros.
A polícia de toda a região foi acionada e começou imediatamente a caçada aos terroristas. Quase mil homens das forças de segurança participaram das operações. O grupo foi localizado na cidade de São Luiz do Curu, onde havia uma barreira da polícia no Posto Fiscal. Os terroristas abandonaram o carro e se abrigaram em uma casa na margem da estrada. Houve troca de tiros, mas, os bandidos conseguiram fugir. Entretanto, poucas horas depois foram novamente localizados e dois dos integrantes do grupo que foram presos.
                                                                  Marighella, líder da ALN
Valdemar Rodrigues de Menezes, um dos terroristas presos, era ex-seminarista e contou em seu depoimento que o crime fora planejado minuciosamente em Fortaleza – CE, durante várias reuniões. A idéia deles era iniciar um foco de luta armada no Ceará. O grupo sequer tinha nome, mas, Valdemar contou que provavelmente se chamaria Movimento Revolucionário 1848, mas, as investigações posteriores confirmaram que o grupo tinha ligações com a organização ALN – Aliança Libertadora Nacional. O outro preso era Francisco Ulann que contou à polícia que o crime em São Benedito era o primeiro de uma série para angariar fundos para a luta armada.
José Armando Rodrigues era comerciante em São Benedito – CE. Os jornais pesquisados não trouxeram maiores informações sobre esta vítima.
Autoria: Ex-seminaristas Antônio Espiridião Neto e Valdemar Rodrigues Menezes (autor dos disparos), José Sales de Oliveira, Carlos de Montenegro Medeiros, Gilberto Telmo Sidney Marques, Timochenko Soares de Sales (ex-policial) e Francisco William.


Fontes: Jornal do Brasil, edição 00126 de 01/09/1970, 1º caderno, página 15; edição 00128 de 03/09/1970, 1º caderno, página 14; Diário de Pernambuco, edição 00205 de 01/09/1970, matéria de capa; Tribuna da Imprensa, edição 06245 de 04/11/1970, página 2.
Esclarecimento do autor: este artigo integra uma série intitulada “Os Mortos Que o Brasil Não Chora” e é resultado de minuciosa pesquisa em jornais, revistas e periódicos publicados na época em que os fatos aconteceram. São aproximadamente 120 vítimas. Alguns eram integrantes de Forças de Segurança, outros civis – alguns sem qualquer conexão com um ou outro lado – e os demais eram membros da esquerda que foram “justiçados” (executados) por seus próprios companheiros. A cada publicação contarei a história de um episódio ou de uma vítima. Procurei obedecer a ordem cronológica dos acontecimentos. Todos os artigos já publicados estão disponíveis no site do grupo Ternuma (www.ternuma.com.br) e na página pessoal do autor no Facebook (https://www.facebook.com/robson.meroladecampos).

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