sábado, 6 de agosto de 2016

Paradoxos olímpicos


Fazia tempo que não pegava minha bicicleta. Desde que o médico foi assassinado na Lagoa, não me aventurei mais a atravessar o túnel do Rio Sul e alcançar a praia. Mas fiz isso de novo, há alguns dias. Fui com uma confiança meio desgraçada, pois sabia que as ruas estariam supervigiadas, por conta dos Jogos. Dito e feito, e até mais que isso, vi postes sendo cuidados com novas lâmpadas, trabalhadores uniformizados fazendo pequenos serviços e vários grupos de três soldados, cada um com sua espingarda, digo, metralhadora, digo, arma comprida em punho. Não vi os mendigos que habitam aquele tipo de praça entre a saída do túnel e a orla… Viraram voluntários? Voluntariamente? O fato é que, ao chegar na ciclovia propriamente dita, a estranha presença do exército se fez, e comecei a me perguntar como seria se acontecesse algo e eles tivessem mesmo que atirar. Se nós, pagadores de impostos e promessas, achamos que a presença deles nos protege de fato, precisamos lembrar também que essa sensação deve acabar se eles tiverem que entrar em ação, ou pelo menos não podemos nos enganar, porque depois do dia 21 a carruagem vira abóbora, e é melhor pensar duas vezes antes de achar que aconteceu alguma mágica e estamos seguros. Afinal, a fada madrinha do Rio de Janeiro não ocupa nenhum cargo público e anda bem sumida! Parece que a varinha foi surrupiada, sei não.
Hoje fui correr no Aterro, sempre vou falar desse lugar. O Aterro é um desperdício. Um parque lindo e largado, onde, a partir de umas 17hs, você se sente num set de “Walking dead”. Na pista, já na praia de Botafogo, um aglomerado, carro de bombeiro, mergulhador e uma galera em volta. Parei, perguntei a um ciclista o que estava acontecendo. Tenho sempre esperança que estejam limpando, cuidando, ajudando. Quando estiquei o pescoço vi um táxi amassado, dentro d’água. Um taxista estava descansando num pequeno estacionamento, vieram assaltá-lo, ele se assustou, acelerou, foi parar dentro do mar. Não sei a versão oficial, sei a do povo. Depois de tanto lixo encontrado no caminho dos atletas aquáticos, esbarrar com um carro inteiro é quase familiar.
Os paradoxos não param. A cidade se enchendo, as ruas se fechando, um monte de gente preocupada, reclamando dos excessos de aglomeração, e de repente entro na Urca, perto do fim do dia. Um monte de gente sentada ao largo da mureta, numa quantidade que nunca vi. Até a curva onde a vista se perde. Logo ali atrás o Corcovado, a baía desdentada e sorridente de braços abertos, os barcos pequenos, outros nem tanto. Gente jovem reunida, tomando cerveja, dando risada entre uma selfie e outra. Tudo vivo. Estamos longe de ver o Brasil no prumo, e muito menos essa Olimpíada, em termos de seriedade, pode ser considerada uma vitória até agora. Mas seria um bálsamo saber que as pessoas estão mesmo em comunhão por aqui e que os atletas, as estrelas do evento, serão bem recebidos e terão condições de mostrar a que vieram e por que motivo dão o sangue, enquanto se preparam. Esbarro com meu adorável vizinho e colega de escritos, Janot, que conhece bem esse Rio que encanta e convida. Falamos sobre o prazer de ver as pessoas no bairro e que elas saibam preservar o que é de todos.
Há algum tempo vi uma reportagem sobre o lindo estádio grego que abrigou o vôlei de praia na ocasião dos Jogos. Levaram, se não me engano, Ricardo e Emanuel, vencedores daquele ano, para a visita. O que se viu foi um lugar fantasma e destruído. Legado de coisa nenhuma. É assustador, sim. Já aqui, a despoluição da baía e o metrô, coisas que realmente significariam um ganho, ficam em segundo plano. Quanto ao metrô, os 16 km inaugurados nesta semana sofreram atrasos por conta de verbas, e, é bom que se saiba, atrasos também de décadas, pois desde os anos 1960 existe um estudo feito — se tivessem realizado, a linha estaria bem perto da Vila Olímpica, vejam só. Seriam 100 km de metrô e alívio. No caso da baía, é triste constatar, a cada mandato, que nenhum governante foi capaz de olhar para esse tema com a importância que ele merece. Por que será? A questão ambiental vem sendo negligenciada em tantos aspectos que, se o tal táxi aparecer grudado no casco do supercampeão brasileiro Robert Scheidt, vai parecer normal para a Secretaria do Meio Ambiente.
Só sei que, em meio a toda crise e angústia, hoje eu não vou até o Maracanã, embora ache uma pena não estar ali de corpo presente. Mas ninguém tira minha alma da frente da TV. Vou ver meus heróis passarem emocionados, coloridos, prontos pra mostrar ao mundo como seria perfeito, se fosse sempre assim!

Zélia Duncan




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