quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Atenção!

Mesmo se não detectar sinais de que seu telefone está grampeado, acostume-se a falar em código, combinando com interlocutores o significado real das palavras.


No Brasil da Lava-Jato, tornou-se muito importante saber se suas conversas telefônicas estão sendo gravadas. Atenção. Desconfie se:
— antes de começar a falar, você ouve uma voz dizendo “Silêncio no estúdio!”;
— antes de começar a falar, você ouve uma voz dizendo “Fale pausadamente, enuncie bem as palavras e tente ser conciso”;
— antes de começar a falar, você ouve a instrução “Evite ironias, como, no fim da ligação, dizer: ‘É com você, Bonner’”;
Mesmo se não detectar sinais de que seu telefone está grampeado, acostume-se a falar em código, tendo o cuidado de combinar com seus interlocutores o significado real das palavras mais usadas em suas conversas. Por exemplo:
— Tia Helga: conta na Suíça;
— Tia Matilda: Ilhas Cayman;
— Milho verde: milhões de dólares;
— Pamonhas: milhões de reais;
— Canjica: milhões de euros.
Como em “Mandei duas canjicas para a tia Helga” ou “Recebi uns milhos verdes da tia Matilda”, ou “Estou pensando em transformar os milhos verdes da tia Matilda em pamonhas para a mamãe, que está ótima (tradução: ‘para aplicar na Bolsa, que está em alta’), e canjica para comer com o seu Maurício no fim do ano(‘para gastar na temporada em Saint Moritz’)”.
Nunca se refira ao seu iate ou ao seu condomínio em Palm Beach.
Diga “o meu caíque” e “a minha chácara”. Nunca cite nomes reais, mesmo que eles não tenham nada a ver com o que a Polícia Federal (código: “Os mosquitos”) pode estar investigando a seu respeito. Use pseudônimos.
Nunca fale em “propina” (prefira “motivação”), nunca se gabe dos congressistas que tem no bolso (melhor comentar que apoia o pluralismo democrático) e em hipótese alguma encomende vinhos, enlatados e um novo home theater pelo telefone sem explicar que é para o cachorro.
É claro que também é preciso se precaver contra o risco das coisas mais inocentes parecerem código, e você ser incriminado pelo mal-entendido.
— Mas eu tenho uma tia chamada Helga, delegado.
— Claro, claro. E manda canjicas para ela todos os meses.
— Mando mesmo. Para Camaquã.
— Rá! Um óbvio código para Cayman.
— Não, não, delegado. É uma cidade no interior do...
— E este trecho da gravação em que se planeja a participação do seu grupo financeiro na venda do Brasil para um consórcio espanhol?
— O quê? Isso era eu lembrando à minha mulher que nós estamos devendo pro espanhol da feira!

— Tá. Conta outra.
Luis Fernando Veríssimo - O GLOBO

Um comentário: