quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Crivella é um "âncora" do PT

O cantor gospel que já fez um curso de engenharia. Era tão habilitado para cuidar da pasta quanto Ideli Salvatti e Luiz Sérgio, os dois que o antecederam.


O Ministério da Pesca poderia ser considerado um símbolo da eficiência petista. Segundo o IBGE, quando a pasta foi criada, em 2003, o superávit do setor pesqueiro era de US$ 222.804.451. No ano seguinte, esse saldo positivo já havia caído para US$ 175.330.847. Depois foi para US$ 103.576.102… Em 2006, começou o déficit, que foi crescendo, até chegar ao resultado negativo de US$ 757.169.796 em 2010. Viram? O PT não brinca em serviço. Se quiserem detalhes sobre essa involução, cliquem aqui.  Se vocês lerem o texto a que remete o link, verão que o crescimento da pesca extrativa foi ridículo e que houve QUEDA na produção de organismos marinhos cultivados. Ministério pra quê? Ora, para abrigar aliados. NOTA À MARGEM: o Ministério da Pesca é aquele onde a então ministra Dilma Rousseff empregou a mulher do terrorista Olivério Medina — e em Brasília! Agora que as Farc decidiram pôr um fim a seqüestro de civis (ao menos prometem), o jeito é seqüestrar tubarão no Lago Paranoá.


Ao anunciar a nomeação, o porta-voz da Presidência lembrou que o PRB é o partido do “inesquecível” José Alencar, ex-vice-presidente da República. Ô!!! “Nem me digue!”, como afirmava um antigo vizinho… O PRB tem apenas 10 deputados e um senador, justamente Crivella.  Então vamos ver.
Dilma já tem a fidelidade dessa turma. Não precisa dar um ministério para o grupo, que é pequeno. Crivella pra quê? Nos bastidores do Planalto, ninguém disfarça: trata-se de uma tentativa de atrair a bancada evangélica — e também os eleitores. Duas questões recentes criaram atrito entre o governo e essa fatia do Congresso.
Na palestra que fez no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, o ministro Gilberto Carvalho, hoje a pessoa mais influente no PT depois de Lula, anunciou a disposição do seu partido de disputar com os evangélicos a chamada “classe C”. Ele defendeu que o governo invista bastante em mídia estatal para que se possa fazer o confronto de valores. Já escrevi bastante a respeito. Explico aqui por que o partido fará um dia, fatalmente, esse confronto.
O segundo episódio que indispôs os evangélicos com o governo foi a nomeação de Eleonora Menicucci para o Ministério das Mulheres. Nem havia tomado posse, saiu em defesa do aborto. Como revelou este blog, numa entrevista concedida em 2004, contou ter aprendido em clínicas clandestinas da Colômbia a fazer abortos, como aborteira mesmo, metendo a mão na massa… de sangue. Crivella, que tem bom trânsito na bancada evangélica, vem para tentar pacificar a área. Mas será o caso?


Ele já se manifestou contra o aborto. Certo! Mas o que pensa Edir Macedo, seu tio, guia espiritual, grande mestre da Igreja? Macedo é o principal responsável pela projeção que o agora ministro teve como pastor, o que catapultou a sua carreira política. O dono da Igreja Universal e da Rede Record é um abortista fanático, talvez o mais fanático de todos, já que faz o que até hoje não vi ninguém fazer: recorrer à Bíblia para justificar a prática.
Numa entrevista concedida à Folha em 13 de outubro de 2007, Macedo dizia por que é favorável ao aborto. Leiam:
“Sou favorável à descriminalização do aborto por muitas razões. Porém, aí vão algumas das mais importantes:

1) Muitas mulheres têm perdido a vida em clínicas de fundo de quintal. Se o aborto fosse legalizado, elas não correriam risco de morte;
2) O que é menos doloroso: aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades, sem infância, sem saúde, sem escola, sem alimentação e sem qualquer perspectiva de um futuro melhor? E o que dizer das comissionadas pelos traficantes de drogas?
3) A quem interessa uma multidão de crianças sem pais, sem amor e sem ninguém?
4) O que os que são contra o aborto têm feito pelas crianças abandonadas?
5) Por que a resistência ao planejamento familiar? Acredito, sim, que o aborto diminuiria em muito a violência no Brasil, haja vista não haver uma política séria voltada para a criançada.”
Atenção! Respondeu por e-mail. Ele teve tempo de refletir. Na mesma entrevista, outra pergunta e outra resposta chamam a atenção. Leiam:
FOLHA – Alguns políticos então da base da Igreja Universal, como o bispo Rodrigues, foram atingidos em cheio pelos escândalos do primeiro mandato de Lula. A corrupção não é um pecado imperdoável?

MACEDO – Jesus ensina que o único pecado imperdoável é a blasfêmia contra o Espírito Santo. Para os demais, há perdão se houver arrependimento.
Agora juntem a resposta sobre o aborto com esta. É inescapável concluir que o Deus de Macedo perdoa os corruptos, mas é implacável com os fetos inocentes, não é?, que ainda não roubaram ninguém. Ele defende essa posição em livro. O dono da Record recorre a este trecho do Eclesiastes — Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele”  para inferir que a Bíblia admite o aborto. Falso como nota de R$ 3. Na passagem, o aborto é visto como o extremo da fealdade, só superado pela infidelidade a Deus.


É a expertise de Crivella com o setor pesqueiro que o levou para o ministério. Ninguém esconde no governo que é a questão, vamos dizer, “religiosa”. Se é, cumpro aqui a minha obrigação ao tratar do assunto em sua devida extensão. Crivella é expressão de um partido, de uma igreja e de uma emissora que têm dono. E esse dono tem um pensamento. E esse pensamento não hesita nem mesmo em atribuir à Bíblia o que lá não está e em fazer uma leitura muito particular de um desastre ocorrido no Estado de origem do ministro agora nomeado.

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