segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Pátria ou morte na Venezuela e PSOL

A primeira tarefa que espera um governo de transição no país será a reconstrução das bases da convivência social.


Por Rodrigo Botero Montoya
A trajetória da Venezuela desde que Hugo Chávez ingressou na política em 1992, por meio de um golpe de Estado sangrento, fornece material para as crônicas do subdesenvolvimento. O processo mediante o qual, à base de carisma, um personagem ignorante consegue dominar um país, é parte da experiência venezuelana recente, cujas facetas se prestam à abordagem literária.
O romance histórico “Pátria o Muerte” (“Pátria ou morte”), do escritor venezuelano Alberto Barrera Tyszka, descreve a forma como transcorreram os últimos anos de Hugo Chávez, desde o momento em que se detectou o câncer que viria a pôr fim à sua vida. É o relato da agonia, em um centro médico cubano, do líder que aspira a se converter na reencarnação de Simón Bolívar. Ao mesmo tempo, é a descrição seca de uma nação na qual a vida cotidiana se degradou de forma dramática.
O protagonista do romance, Miguel Sanabria, é um médico aposentado que tenta se alienar da realidade e manter uma postura equidistante entre o antichavismo de sua mulher e o fervor bolivariano de seu irmão comunista, Antonio. A realidade irrompe em sua vida quando um sobrinho, que faz parte do regime, lhe pede que esconda o telefone celular por meio do qual um guarda pessoal de Chávez havia gravado seu chefe antes da operação. Além disso, sua posição como presidente do conselho do condomínio obriga Sanabria a se ocupar do caso de um jornalista desempregado que se recusa a entregar à proprietária o apartamento que aluga.
“Justamente o que tanto tratara de evitar, enfim, estava chegando: o país. Sanabria havia passado mais de dez anos tratando de viver às margens da realidade, esquivando-se dos conflitos, tentando que isso que chamam de a Revolução não o tocasse.” (...) “O país sempre estava a ponto de explodir, mas nunca explodia. O pior: vivia explodindo lentamente, pouco a pouco, sem que ninguém se desse muita conta.”
Sanabria considera que, para a geração de Antonio, “o governo começou a propor uma espécie de parque temático dos anos 70. Às vezes, o país parecia um espaço onde ocorriam as nostalgias”. Nas discussões com seu irmão, Sanabria desabafava: “Voltamos ao passado. Voltamos aos caudilhos. Aos quartéis. Essa é nossa história. O melhor investimento econômico que se pode fazer na Venezuela é dar um golpe de Estado.”
A narrativa descreve a cessão de soberania do governo a Cuba; a forma como o medo e a suspeita permearam a sociedade; e os extremos aos quais chegaram o culto à personalidade e o endeusamento de Chávez.
O regime parece se aproximar de uma etapa terminal. O que se depreende do livro de Barrera é a enormidade da tarefa que espera um eventual governo de transição. Além de reconstruir as instituições e a economia, será necessário começar por restabelecer as bases da convivência social.
Rodrigo Botero Montoya é economista e foi ministro da Fazenda da Colômbia

O GLOBO

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