sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Por que nem os próprios socialistas levam o socialismo a sério

Há uma constante em minhas conversas e debates com socialistas e comunistas: sempre que debatemos as consequências práticas (e trágicas) do comunismo e do socialismo implantados em outros países, a resposta uniforme é a de que "aquilo não representa o comunismo/socialismo verdadeiro".


Stálin não era um comunista de verdade. Nem Mao.  Pol-Pot, muito menos.  Castro até tentou, mas se desviou.  Tito?  Nem sei quem é.  Chávez — até três anos atrás, ídolo de onze em cada dez socialistas —, então, tornou-se um pária.   O grego Alexis Tsipras nem sequer pode ser rotulado de socialista.  
Todos esses deturparam Marx, o comunismo e o socialismo.
Frases como essa, bem como suas variáveis, podem ser ouvidas amiúdes, tanto nas mídias sociais quanto nos debates públicos.  Algumas pessoas, inclusive, vão mais além e dizem que o próprio Marx era um "falso comunista" — no entanto, considerando-se que Marx, ao final da sua vida, quando via o que as pessoas faziam em seu nome, já não se dizia marxista, esta última afirmação tem até um quê de verdade.
O problema é que, se levarmos a sério essas frases, jamais saberemos o que realmente é o comunismo e o socialismo.  Quando faço essa pergunta direta, obtenho respostas tão esclarecedoras e úteis quanto um fósforo usado.
"Socialismo de verdade é ser a favor do povo".
"Socialismo verdadeiro é ser contra a opressão".
"Socialismo genuíno é ser a favor da igualdade".  
"Socialismo verídico é ser contra o capitalismo". (Esta última é a mais precisa).
Em algumas raras ocasiões, há menções a medidas mais concretas, como aumento dos gastos com assistencialismo, aumento de impostos sobre os ricos (sem se definir exatamente o que seja um "rico"), aumento do salário mínimo, e até mesmo a estatização dos meios de produção, principalmente dos bancos (o que mostra ignorância acerca do fato de que o governo não apenas já controla os bancos por meio do Banco Central, como também é responsável por metade do crédito da economia, e com consequências trágicas).
No entanto, o que é realmente indelével é o fato de que os comunistas e socialistas vivem em uma contradição insanável.  Se, de um lado, eles se dizem a favor de eliminar a exploração, a opressão e a desigualdade, de outro, eles propõem que a maneira de se fazer isso é concedendo poderes absolutos ao estado.   
Ou seja, a maneira de acabar com a opressão, a exploração e a desigualdade é atribuindo ainda mais poderes exatamente à instituição que exploraoprime e gera todas as desigualdade observáveis.
Essa contradição é tanto mais inexplicável quando se observa que os primeiros movimentos comunistas e socialistas construíram-se frequentemente em oposição ao estado.  O estado era visto como o instrumento da burguesia. Era o estado quem mantinha a exploração viva, quem impedia aos proletários de serem autônomos com as suas cooperativas e arranjos de ajuda mútua.
[N. do E.: Marx defendia o fim do estado e profetizou que o estado desapareceria sob o comunismo.  Mas ele nunca explicou como ou por que isso iria acontecer.  Sua teoria era bizarra.  Ele dizia que, para abolir o estado, era necessário antes maximizá-lo.  A ideia era que, quando tudo fosse do estado, não haveria mais um estado como entidade distinta da sociedade; se tudo se tornasse propriedade do estado, então não haveria mais um estado propriamente dito, pois sociedade e estado teriam virado a mesma coisa, uma só entidade — e, assim, todos estariam livres do estado.
O raciocínio é totalmente sem sentido.  Por essa lógica, se o estado dominar completamente tudo o que pertence aos indivíduos, dominando inclusive seu corpo e seus pensamentos, então os indivíduos estarão completamente livres, pois não mais terão qualquer noção de liberdade — afinal, é exatamente a ausência de qualquer noção de liberdade que o fará se sentir livre.]
Dado que os comunistas e socialistas de hoje defendem o estado máximo, em oposição aos comunistas e socialistas de antigamente que defendiam sua abolição, isso significa que eles viraram estatistas.  Eles são, no fundo, os novos privilegiados.  São defensores supremos da ordem estabelecida.  Traíram os seus valores.
Socialista coerente é um paradoxo
Por mais incrível que pareça, a única forma de fazer uma defesa minimamente coerente do comunismo e do socialismo é recorrendo a pressupostos liberais. 
Por exemplo, como querem incentivar a partilha de bens se defendem impostos que roubam metade da renda?  
Como querem combater os "grandes capitalistas" se eles próprios defendem todos os tipos de protecionismossubsídios e reservas de mercado às grandes empresas?
Como querem acabar com a desigualdade de renda se defendem a existência de um Banco Central que protege e sustenta a expansão do crédito feita pelos grandes bancos, a qual é a principal causa da desigualdade de renda?
Como querem libertar os pobres da opressão se criam todos os tipos de dificuldades e empecilhos para que eles arrumem emprego e tenham aumentos salariais
Como querem que os pobres enriqueçam se eles não podem empreender livremente, sem se submeter a regulamentações onerosas e a burocracias estatais que só fomentam a corrupção e engordam o caixa dos ratos?
Como irão convencer os trabalhadores a se libertarem da "opressão do trabalho assalariado" e a criarem cooperativas e esquemas de auxílio mútuo sem defender a livre iniciativa?  Sem defender a liberdade de associação?  Como querem que isso aconteça se não existe a liberdade para eles se organizarem como entenderem, sem amarras burocráticas, tributárias, regulatórias e sindicais?  
Como querem convencê-los a embarcar nesses projetos por meio da força?  
Impossível fazer tal defesa sem recorrer a idéias liberais.
O real problema é este: os socialistas e comunistas viraram estatistas. Se eles estivessem verdadeiramente preocupados com os pobres e com o fim da penúria, estariam recorrendo a idéias intrinsecamente liberais.
Mas não.  Como agora eles fazem parte da casta privilegiada que vive incrustada no aparato estatal, preferem apenas proferir palavras socialmente sensíveis, sem no entanto oferecer qualquer solução prática.  Tal atitude não só é contraditória como também fere todo o suposto espírito socialista.
E qual seria esse suposto espírito socialista?  Seria uma maneira conciliar a vida com as idéias defendidas.  Dado que o socialismo supostamente defende a partilha, o altruísmo e a igualdade material, então os socialistas têm de viver segundo esses princípios.
Mas o que eles fazem?
Os políticos membros de partidos comunistas e socialistas doam parte do seu salário para o partido e ficam com o resto.  Os pobres não são contemplados com nada.  (Mas pagam, por meio de impostos indiretos, os salários dessa gente).
Há manifestações contra "tudo que está aí" e a favor de nada concreto ou específico, o que significa que, em vez de estimularem a instrução do povo, preferem distraí-lo e incitá-lo ao conflito.
Todos os partidos comunistas, socialistas e trabalhistas, bem como seus membros, possuem um patrimônio imobiliário invejável.  No entanto, nunca se ouviu histórias de mendigos dormindo lá dentro ou sendo ali acolhidos para usufruírem refeições quentes.
Há militantes e sindicalistas que jamais puseram os pés em um chão de fábrica, jamais tiveram de trabalhar pesado e jamais carregaram um instrumento de trabalho mais pesado que um lápis.
Há sindicalistas que se mobilizam para manifestações em favor de mais estado e de mais impostos, totalmente ignorantes em relação às consequências negativas dessas demandas sobre a empresa privada, que é quem pode gerar empregos para os pobres e permitir sua ascensão social.
Há militantes que insultam abertamente em vez de promover o debate, a compaixão e a compreensão.
Há militantes agarrados a idéias arcaicas e comprovadamente falidas em vez de abraçarem a modernidade e toda a possibilidade de enriquecimento que esta oferece aos mais pobres.
Há militantes e sindicalistas que se comportam gananciosamente e enriquecem na política e no sindicalismo, tudo com o dinheiro oriundo dos pobres e sem jamais repassar nada a eles em troca.
Conclusão
O grande desafio hoje é encontrarmos um socialista coerente, que viva de acordo com aquilo que diz defender.  Talvez tal impossibilidade decorra do fato de que não existem mais socialistas; existem apenas interesseiros e demagogos.


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