terça-feira, 25 de outubro de 2016

O culpado é o eleitor

Existe quase um consenso sobre o culpado pela corrupção, pela ineficiência da administração pública, pelos déficits, pelos maus serviços públicos, pela violência. O culpado é o governo. Qualquer que seja. São os políticos. Alguns podem até ser. Mas apenas eles?
Afinal, quem os coloca lá são os eleitores. Quem os escolhe são os eleitores. São representantes dos eleitores. Podem os eleitores lavar as mãos?
Muitos acreditam que sim. Votam em branco, nulo, não comparecem ou justificam a ausência. São as opções de não participação que a lei permite.
Mas o voto tem uma característica muito especial. Tem duas faces. Uma positiva, outra negativa. Uma que afirma, outra que nega. Vejam essa disputa entre Freixo e Crivella.
O voto é ao mesmo tempo uma escolha e uma não escolha. Quem escolhe Freixo, não escolhe Crivella. E vice-versa. Simples assim.
Quem não participa, pode ter o sentimento de que está sendo neutro. “Estou fora dessa”. “Não vou apoiar o que está aí”. “É mais do mesmo”. Esta sensação é matematicamente ilusória.
Quem não participa aceita, contribui, resigna-se com o resultado provável. Está aceitando que quem vai ganhar, deve ganhar. E quem vai perder, deve perder. No fundo vota em quem vai ganhar.
O candidato eleito poderá dizer: “ganhei com o voto de Manuel, e também com o não voto de João. Ambos me elegeram”.
Donde é impossível o eleitor lavar as mãos.
Este é o maior problema da democracia de hoje. O eleitor é responsável por quem escolhe e por quem não escolhe. Pode parecer um paradoxo, mas é assim.
Por isso é que se diz que a democracia representativa está em crise. A Constituição, as leis eleitorais, os partidos são filtros que previamente selecionam quem os eleitores podem escolher. E não estão selecionando bem.
Vejam nos Estados Unidos. Os partidos tanto fizeram que os eleitores vão ter que escolher entre quem não querem escolher: Trump ou Hillary.
O problema, então, está claro. No atual sistema de partidos, o próprio partido é um filtro. Um selecionador. Esses filtros em vez de estimularem o voto, estão desestimulando. Hoje, cerca de 40% dos eleitores do Rio já não participam. Sentem-se desiludidos.
Até o Tribunal Superior Eleitoral está contribuindo para esta desilusão. Depois de um imenso esforço dos eleitores e do Congresso, o TSE está facilitando a volta dos fichas-sujas. Está, devagarzinho, nos escaninhos das pressões, permitindo que voltem candidatos condenados por improbidade administrativa.
A vida de um número crescente de eleitores não tem sido fácil. Mesmo não participando das eleições — anulando, votando em branco, não comparecendo — eles são os responsáveis. Quer dizer, culpados pelo resultado. Na democracia atual é assim. Mas, votar em quem?
Entretanto, votar é inevitável. Comparecendo ou não.
Tivemos 1.866.621 abstenções, brancos e nulos; 33% a mais do que a soma de votos de Crivella e Freixo. Grande parte deste desperdício eleitoral se deu por eleitores de direita que, embora queiram mudanças, preferem eleger a nulidade como forma de manifestação política. O que estaria decidido em primeiro turno se perdeu com a minoria. Portanto, tornar seu voto nulo aumenta as chances da esquerda vencer, já que eles votam em peso em seus candidatos, aprenderam isso muito bem.




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