sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Carta aberta ao Batalhão de Choque

Senhores militares integrantes do Batalhão de Choque da PMERJ:
Diante das atrocidades que cometeram contra manifestantes no Centro do Rio de Janeiro, sinto-me na obrigação de publicar a presente carta. Espero que uma boa parcela da tropa leia — embora acredite que será em vão, mas não custa tentar. Se pelo menos um dos senhores entender o que foi escrito, já fico satisfeito.


Respondendo à indagação "o que é a liberdade de pensamento?", um filósofo disse que ou o pensamento é livre ou não é pensamento. 

Continuando, mostrou o seguinte exemplo: veja os militares. Eles não pensam. O militarismo é baseado na hierarquia e na disciplina. Logo, não se admite que um soldado questione as ordens de um cabo, seu superior imediato. Por sua vez, um cabo não pode discutir as ordens de um sargento, e este de um tenente, o qual não ousará discutir as ordens de um capitão. E assim por diante. Não fosse desta forma, como determinar que um ser humano arriscasse sua vida sem questionar nada, por exemplo, "por qual motivo estou fazendo isto"? Finaliza o filósofo com o exemplo de Esparta e de Atenas. Esparta era o quartel, o treino diário para a guerra. Atenas era o pensamento, o questionamento das grandes dúvidas da vida. Esparta entrou para história apenas como um registro. Atenas foi a base de todo conhecimento do Ocidente. Vejam, senhores, a base de todo o conhecimento do Ocidente possui sua origem em Atenas. Filosofia, Arte, Matemática, Ciências, tudo nasceu em Atenas. Esparta nada legou à humanidade.

Dito isto, o que é uma verdade, não posso condenar as atitudes dos senhores. É fato. Os senhores não pensam, obedecem. Servem a senhores sem ao menos questionar os propósitos. Seriam justos, legais? Não, os senhores não podem pensar, pois, se assim o fizessem, não iriam invadir um templo sagrado para, de suas torres, dispararem contra manifestantes.

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Senhores, o poder que nega direitos sobrevive através de sua força, e nada, nada mesmo retribui por isso. Por uma simples razão: os senhores não pensam, e por não pensar, até mesmo os seus direitos ignoram. Recebi um vídeo onde se mostra a comida que lhes foi oferecida durante sua estada em defesa do prédio da Assembléia Legislativa. Uma porção de arroz e um pequeno pedaço de frango. Há uma diferença entre guerreiros pagos e militares sem raciocínio, que agem sem pensar, em defesa de senhores preocupados com suas benesses. Aqueles são profissionais, estes são capachos.

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Algum dos senhores poderia perguntar: "Não é nossa obrigação manter a ordem social"? Sim, respondo. Certamente, com toda certeza. Mas a ordem social tem origem na ética, na responsabilidade com o trato da coisa pública. Exigir e impor sacrifícios para os que não participaram das falcatruas, dos roubos, não é moral nem ético. Pena que os senhores não raciocinem, pois, se o fizessem, diriam: não contem com nosso apoio.

Aurílio Nascimento, Comissário de Polícia

Um comentário:

  1. Sei não...só o soldado pra entender que sua vigília é uma entrega total ao próximo, um sacerdócio mesmo, numa sociedade "mimimi", onde precisaremos hora dessas de reserva de cotas que obriguem o acolhimento de deveres vitais para a vida como sociedade (que não sejam mais cívicos mas que sejam pelo menos mais pacificadores), e, paradoxalmente, cada dia nos tornamos mais beligerante, nos agredimos, tentamos discriminar um ou outro pelo simples fato de ser um morador mais humilde, um professor, um vendedor, um militar, enfim, somos uma droga que acorda vomitando veneno...e "matando"...o resto é próprio umbigo...e um pouco de frustração por lá no fundo saber que nem sempre falamos a verdade.

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