terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Os homens públicos nos hospitais particulares


Nem os homens públicos brasileiros acreditam nos hospitais públicos. O exemplo é triste para a população do país, que hoje tem menos 4 milhões de clientes em planos de saúde por causa do desemprego. Tudo isso mostra que o serviço público realmente não foi feito para quem tem privilégios.
Os hospitais públicos só servem para os ricos ganharem dinheiro, e não para se tratarem. Levantamento feito pelo Estado de S. Paulo mostra que 70% dos esquemas de corrupção com verbas federais em cidades do país desviaram recursos destinados para a saúde, e também para a educação. 
A Operação Voadores, no Maranhão, revelou que parte da verba destinada para a saúde enviada pela União pagou R$ 600 mil em vinhos e restaurantes de luxo na capital São Luís. 
Um dos maiores escândalos de corrupção no setor de saúde no Brasil foi a chamada máfia dos sanguessugas, que fraudava a compra de ambulâncias em municípios e teria desviado mais de R$ 110 milhões. 
Descoberto pela Polícia Federal em 2004, o esquema dos vampiros da saúde operava envolvendo empresas, funcionários do Ministério da Saúde e deputados federais ao menos desde 1990. O esquema principal do grupo consistia em fraudes de licitações, gerando sobrepreços na compra de remédios e hemoderivados. Segundo estimou a PF, o esquema teria causado um prejuízo de R$ 2 bilhões, o que corrigido pela inflação, equivale hoje a R$ 4,08 bilhões.
Em 2012, outro escândalo veio à tona, desta vez no Hospital Federal Infantil do Rio de Janeiro. Um esquema de fraudes envolvia contratos e licitações, pagamentos de propinas, pagamentos sem serviços prestados ou sem cobertura contratual. O prejuízo aos cofres públicos foi de R$ 22 milhões.
Uma investigação feita pela auditoria do Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo Ministério Público Federal (MPF) constatou um suposto desvio de R$ 4 bilhões na saúde pública do Tocantins - valor referente aos danos aos cofres públicos e a multas pelas irregularidades. O esquema envolveu gestores públicos e 13 empresas entre 2012 e 2014. Medicamentos e produtos hospitalares eram adquiridos sem licitação, superfaturados e muitas vezes não eram sequer entregues.
Em 2015, a operação Ilha Fiscal desbaratou uma quadrilha acusada de fraudar mais de R$ 48 milhões em recursos públicos por meio de contratos com a Prefeitura do Rio de Janeiro. Organizações Sociais de Saúde - as chamadas OS - foram acusadas de desviar recursos que a Prefeitura encaminhava para a manutenção de hospitais. Na operação foram apreendidos carros importados - sendo duas Ferraris -, e cerca de R$ 500 mil em espécie na casa de dois dos acusados, além de dólares e joias na casa dos envolvidos.
Estes são apenas alguns dos casos que vieram à tona nos últimos anos, e que mostram como foi construído o caminho que deixou à míngua o serviço público de saúde. Enquanto isso, a população que não pode pagar atendimento privado - que cresce cada vez mais com o nível de desemprego - é obrigada a buscar socorro num sistema falido e em colapso. Restam a dor e o sofrimento em corredores, à espera de remédios e atendimento que quase nunca chegam.
Ironicamente, nos modernos, caros e sofisticados hospitais privados do país, os homens públicos são clientes assíduos. Recentemente, o ministro das Relações Exteriores, José Serra - que inclusive foi ministro da Saúde no governo FHC - passou por uma cirurgia no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, referência nacional. 
Já o governador Geraldo Alckmin não pestanejou ao recorrer ao mesmo Sírio-Libanês, em 2010, após ter uma crise de soluço. Recebeu alta 24 horas depois.
Também em 2010, o então governador Sérgio Cabral se internou no Copa D'Or, em Copacabana, ao torcer o joelho quando saía do carro.
No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes correu para o Hospital Samaritano, neste ano, após constatar, no Hospital Miguel Couto, que seu caso era mais complexo e seria preciso uma intervenção. Trocou o público pelo privado quando se viu precisando de cuidados especiais, devido a um cálculo renal.
Se os homens públicos tivessem que usar hospitais públicos, será que a realidade mudaria?

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