terça-feira, 7 de março de 2017

Eleja seus heróis, não seus criminosos


Cresci aprendendo que a polícia é uma coisa ruim. No meu currículo social ninguém era policial. Polícia era para ser temida, delegacia eram lugares tenebrosos. O nome “camburão” inspirava imagens de regime militar e autoritarismo.

Na época nunca me explicaram a função da polícia, como ela se organizava ou que benefícios ela gerava. Em absolutamente todos os livros, filmes, gibis, programas de televisão, peças de teatro ou musicas que eu consumia, polícia significava opressão, violação de direitos, extorsão ou tortura.

Nos mitos e lendas urbanas de minha adolescência, nos anos 70, os heróis eram foras da lei, marginais ou guerrilheiros, santificados por uma suposta rebeldia contra o “sistema”. O “sistema” era, principalmente, a polícia. Era bonito enganar “os homi”, era bonito ser bandido. Uma das obras de Hélio Oiticica, mostrava o bandido Cara-de-Cavalo, famoso nos anos 60, estendido no chão; título da obra: “Seja Marginal, Seja Herói”.

Não me esqueço quando o pai de uma antigas namorada me contou, com orgulho, como tinha resolvido um problema de um sobrinho bêbado, que tinha causado um acidente envolvendo vários carros; “Conversei com o delegado” dizia ele, sem deixar  duvidas sobre que tipo de conversa tinha sido aquela.

No final de minha adolescência, Brizola chegou ao governo do Rio, e a mídia formou um bloco sólido dedicado a denunciar, sem tréguas, a violência, e a corrupção da polícia. Os relatos de pessoas mortas por policiais, presas sem razão ou torturadas enchiam os jornais. Nossos heróis eram os que enfrentavam, desmascaravam e derrotavam a polícia: os militantes de esquerda, os sociólogos, os jornalistas, os donos de ONGs e a Anistia Internacional.

Nunca, jamais em tempo algum, da minha infância até os meus 27 anos, eu vi alguém defendendo ou elogiando a polícia. Nunca ouvi alguém explicando que a polícia era necessária e que, na maior parte dos casos, cada sociedade tem a polícia que deseja. Tive que mudar de país para ver isso, fui morar nos Estados Unidos e descobri que a polícia é um dos fundamentos de uma sociedade livre. Nenhuma polícia, nem a dos Estados Unidos, é formada por “santos”.

Basta lembrar da história de Serpico*, ou entender como as delegacias americanas na virada do século XIX para o XX eram centros de corrupção e uso político da força*. Corrupção e abuso existem em todas as instituições, a polícia reflete a sociedade que a criou.

Nos Estados Unidos a polícia mora ao seu lado. No Brasil, em geral, ele mora num subúrbio longínquo, ou em uma “comunidade carente” (eufemismo para favela), ao lado de criminosos. Os policiais do Rio de Janeiro escondem a identidade funcional fora de serviço, temendo a morte certa se abordados por bandidos.

A transformação da polícia dos Estados Unidos em força em defesa da cidadania começou quando os salários se tornaram decentes, no Brasil a vasta maioria dos policiais tem um segundo emprego, o “bico”, sem o qual é impossível se sustentar.

Voltei para o Brasil entendendo pra que serve a polícia, e cheio de perguntas. A polícia dos Estados Unidos é essencialmente municipal. Por que no Brasil é apenas estadual e federal? A lei penal dos Estados Unidos também é estadual. Por que no Brasil é federal? O trabalho policial no Brasil é dividido entre duas forças. Uma patrulha as ruas – a Polícia Militar – a outra investiga os crimes – a polícia Civil. Por quê? Nunca me explicaram isso na escola, na faculdade ou em outro lugar qualquer. Tive que estudar para entender como funciona - ou não funciona – nossa polícia, a justiça criminal e o sistema penitenciário. O que vi me deixou horrorizado.
Não vou repetir aqui as estatísticas que todos deviam conhecer, o que eu quero saber é: Por que a sociedade brasileira tem ojeriza aos policiais se eles são  nossa ultima defesa contra a barbárie?

Todos viram na TV as decapitações e os churrascos humanos das rebeliões dos presídios. Essa turma faz isso preso, imagine o que farão soltos nas ruas? Quem vai enfrentar esse tipo de “gente”? Vocês viram os saques no Espirito Santo, o mesmo aconteceu nos Estados Unidos depois do furacão “Katrina”, é da natureza humana. Quem vai às ruas arriscar sua vida para controlar uma situação como essa?

Como podemos ter um dia uma polícia decente, se a opinião unânime da mídia, da academia e dos intelectuais é que polícia é uma coisa ruim e os criminosos são pobres vitimas da sociedade? Porque tanta gente sensata se mobiliza com o “drama” dos criminosos presos mas é insensível ao drama de uma sociedade onde todos já foram assaltados e vivem com medo? Porque achamos que alguém ser assaltado, agredido e roubado de sua propriedade ou até morto é “justo” e compreensível à luz da “justiça social”? Que perversão moral e intelectual é essa?

Todos odeiam a Polícia Militar, mas todos querem um PM por perto. O efetivo do Estado do Rio de Janeiro é de aproximadamente 50 mil policiais, mas apenas uma pequena parte está nas ruas combatendo o crime, há os inúmeros policiais em serviço administrativo, tocando nas bandas de músicos da PM, cedidos à Secretaria de Segurança, soa Tribunais, ao Ministério Público, aos palácios e aos municípios. Todos odeiam a PM, mas todos querem um PM para chamar de seu.


Não escrevo um tratado de sociologia de botequim, esse campo já foi ocupado por “especialistas” como D. Julita “Acaju” Lemgruber, Inácio “Entrei- pelo-cano” e toda turma do Fórum Internacional Esquerdista de Segurança Pública. A única questão que pretendo colocar é essa: Se a polícia é um dos fundamentos da sociedade, porque a desprezamos tanto? Se tratamos a polícia como lixo, quem vai nos proteger?

Há muitos anos os Titãs, uma das melhores bandas de rock, compôs a musica Polícia, cujo refrão era “polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia”. Alguns anos depois a namorada do guitarrista Charles Galvin foi sequestrada e levada para um cativeiro na favela do Vidigal. Adivinhe quem a libertou?
Não foi o Batman, não foi Che Guevara, não foi a Julita Lengruber!
Ela foi libertada por agentes da Divisão Anti Sequestro!

Ela foi libertada, imaginem vocês, PELA POLÍCIA!

A única garantia de liberdade e de vida é a força das armas nas mãos das pessoas corretas, o resto é veneno ideológico de quem ganha a vida explorando a ignorância e a compaixão de inocentes.


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