sábado, 26 de agosto de 2017

As crises no coração do Brasil


A criação de Brasília, em 1960, a renúncia de Jânio Quadros, a derrubada de João Goulart, o (contra) golpe de 1964, a morte de Tancredo Neves, o governo Sarney com sua hiperinflação, as denúncias contra Fernando Collor, o impeachment de Dilma Rousseff... A história comprova que a crise permeia o coração político do Brasil.
Coração que mudou de lugar depois que o Rio de Janeiro deixou de ser capital. Desde então, fica numa região que, no passado, abrangia o que hoje está dividido entre Goiás, Tocantins e Brasília.
Esta região tem a mesma população - que aumentou apenas na progressão natural que acontece em todo o país. Contudo, multiplicou sua representatividade no Congresso após a criação do Tocantins e de Brasília. Goiás tem três senadores, assim como Tocantins e o Distrito Federal. Na Câmara, Goiás tem 17 deputados federais, Distrito Federal tem oito e Tocantins também. 
Se fizermos um paralelo entre a região de Goiás antes da divisão e a Goiás atual, do ponto de vista da representatividade esta região ganhou muito mais projeção no Congresso do que os demais estados.
Ao mesmo tempo, as crises que no país explodem têm nos políticos desta região, com algumas exceções, um forte protagonismo. 
Histórico


Demóstenes Torres teve seu mandato de senador por Goiás cassado após escândalo de envolvimento com o contraventor Carlinhos Cachoeira.
No âmbito da Lava jato, sete políticos do mesmo estado foram citados por executivos e ex-dirigentes da Odebrecht que fecharam acordo de delação premiada: Daniel Vilela (PMDB), seu pai Maguito Vilela (PMDB), o governador de Goiás, Marconi Perillo (PMDB), o prefeito de Goiânia, Iris Rezende (PMDB), o ex-prefeito de Trindade Ricardo Fortunato e o ex-deputado federal Sandro Mabel, além do próprio Demóstenes.
A empresa que hoje está no epicentro dos escândalos políticos envolvendo a cúpula da política nacional - a JBS - nasceu justamente em Goiás, junto com Brasília. 
Tocantins

Siqueira Campos

Com relação a Tocantins, o histórico não é diferente. Seu primeiro governador, Siqueira Campos (que depois se reelegeu mais três vezes), já viu seu nome envolvido em investigações sobre fraude em licitações de terraplanagem. Ele e seu filho, o deputado estadual Eduardo Siqueira Campos (DEM), também aparecem nas delações da Odebrecht.
Marcelo Miranda

Outro ex-governador do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), foi alvo de operação da Polícia Federal em 2016 que também apurava fraudes em licitações públicas. O ex-governador do mesmo estado Carlos Gaguim foi outro que já se viu envolvido com a Justiça. Ele e Marcelo Miranda foram condenados por improbidade administrativa em caso sobre construção de uma unidade de medida socioeducativa.
Sandoval Cardoso

Como se não bastasse, outro ex-governador do Tocantins, Sandoval Cardoso (SD), foi preso no âmbito da Operação Ápia, em abril de 2017, que investigava desvio de recursos públicos na construção e manutenção de estradas. Não por acaso, esta operação também teve como alvo o mesmo deputado Eduardo Siqueira Campos que aparece na lista da Odebrecht. 
Brasília

Joaquim Roriz

No governo de Brasília, a história parece não ser diferente. O ex-governador do Distrito federal Joaquim Roriz foi denunciado em 2011 em esquema de corrupção no Banco de Brasília. Contudo, com a demora no trâmite do processo, a acusação acabou prescrevendo. Outro ex-governador, José Roberto Arruda, foi alvo de três escândalos. Em 2010 ele foi preso por tentar obstruir as investigações da Operação Caixa de Pandora, que desbaratou um esquema de corrupção no seu governo. Arruda ainda foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal a prisão em regime semiaberto pelo crime de falsidade ideológica de forma continuada, no caso dos recibos falsos na compra de panetone para justificar o recebimento de R$ 50 mil de Durval Barbosa.
José Roberto Arruda

Em 2001, Arruda já havia se envolvido em outro escândalo, desta vez no caso da violação do painel de votação do Senado. Ele foi acusado de obter a lista de votação dos senadores no julgamento que cassou o mandato de Luiz Estevão (DF) e repassá-la ao então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães. Arruda acabou admitindo a irregularidade, e renunciou ao mandato de senador para escapar da cassação. O ex-governador também é um dos que aparece nas planilhas da Odebrecht, identificado como "Parreira".
José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz

O nome de Arruda ainda aparece, ao lado do também ex-governador Agnelo Queiroz, em investigação sobre esquema que superfaturou o valor das obras do estádio Mané Garrincha em mais de R$ 900 milhões.
O longo e robusto histórico de escândalos que abrange políticos da região de Goiás, Tocantins e Brasília comprova que a crise encontra no coração do Brasil um terreno fértil. Mas certamente esta região também é motivo de orgulho para o país, com sua fantástica beleza natural, parques e cachoeiras conhecidos internacionalmente. Seu bravo povo merece políticos de linhagem mais nobre, que façam jus à sua história.

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