PT e PSDB são os irmãos Karamazov da política nacional. Nas últimas
décadas, ambos os partidos travaram duelos apaixonados e transformaram o
debate público brasileiro num imenso caldeirão, um Fla-Flu. De um lado os
azuis, do outro os vermelhos. De um lado o tucano, do outro a estrela. De um
lado o professor, do outro o operário.
O que poucas pessoas sabem é que há mais coisas em comum entre o Partido
dos Trabalhadores e o Partido da Social Democracia
Brasileira do que julga nossa vã filosofia. PT e PSDB nasceram no mesmo lugar, no
coração da esquerda paulistana, com concepções políticas e econômicas muito
parecidas, e com duas figuras históricas – Lula e Fernando Henrique Cardoso –
que não teriam ascendido sem o outro. E tudo isso nunca
foi negado por seus criadores. Pelo contrário.
“Nós
estamos que nem dois jogadores de futebol, somos amigos, somos até irmãos e
estamos jogando em times diferentes”, já disse Lula sobre a relação entre
os partidos.
“Nossas
diferenças com o PT são muito mais em relação à disputa de poder do que sobre
ideologia”, já assumiu Fernando Henrique Cardoso.
De fato, é muito difícil desassociar a história de ambos. O sociólogo
francês Alain Touraine, de esquerda, ex-professor e amigo pessoal de Fernando
Henrique, chegou a afirmar que o futuro do Brasil seria a união dos partidos.
Em 2004, Touraine disse que os governos de FHC e Lula faziam parte de um mesmo projeto. E tal cenário é assumido por seu
pupilo. Para FHC, há uma massa política atrasada no país e a polarização
entre PT e PSDB serve para tirá-lo desse atraso.
“Os dois
partidos que têm capacidade de liderança para mudar isso são o PT e o PSDB. Em
aliança com outros partidos. No fundo, nós disputamos quem é que comanda o
atraso”, disse.
1) LULA JÁ GARANTIU ELEIÇÃO PARA FERNANDO HENRIQUE CARDOSO. E LOGO NA
ESTREIA DOS DOIS NA POLÍTICA PARTIDÁRIA.
Foi
em 1978.
Fernando Henrique Cardoso era
o príncipe
dos sociólogos, um membro ativo da comunidade acadêmica paulistana
que havia deixado a universidade para abraçar a vida pública. Era sua estreia
de gala, o candidato de esquerda na corrida ao Senado pelo maior estado do
país, a nova aposta do MDB.
Lula era o sapo
dos operários, um líder do movimento sindical que tinha
“ojeriza” à política partidária. Convencido por alguns amigos, abriu uma
exceção para a candidatura do sociólogo do Morumbi. Pediu em troca
sua adesão às bandeiras econômicas dos sindicatos, prontamente atendidas.
Tal qual FH, era sua primeira vez nas corridas eleitorais. E a meta era
clara: somar o máximo de votos possíveis para Fernando Henrique Cardoso.
Como conta o próprio Lula:
“Acontece que em
78, primeiro ano das greves do ABC, o MDB estava lançando sua chapa de
senadores. Algumas pessoas, alguns jornalistas cujos nomes não vou dizer,
queriam que a gente apoiasse Cláudio Lembo, da Arena. Fui apresentado a
Fernando Henrique Cardoso. Aí fomos para a campanha. Fui representar Fernando
Henrique Cardoso em vários comícios.”
Lula levou FHC às portas de fábrica e rodou com ele pelo interior do
estado. Era o príncipe e o sapo unidos em torno da criação do mesmo reino
– a maior figura daquilo que viria a ser o PSDB com a maior figura daquilo
que viria a ser o PT. Num palanque do MDB, com artistas e figuras ilustres da
esquerda paulistana, o líder operário irritou-se com a festividade.
Virou-se para Ulysses Guimarães e esbravejou:
“O trato é que
iria pedir votos só para o Fernando Henrique Cardoso. Todo mundo sabe que sou o
principal cabo eleitoral do Fernando Henrique Cardoso. Agora querem que eu peça
votos também pro Montoro. Eu não vou pedir. Se não me deixarem fazer o que eu
quero, eu desço e levo o palanque todo comigo, e vamos fazer o comício em outro
lugar.”
Era o início de tudo. Fernando Henrique acabaria eleito primeiro
suplente do senador Franco Montoro e, quatro anos depois, quando Montoro virou
governador, assumiu a vaga, dando princípio à carreira política que o
levaria ao cume do poder nacional. Sem o apoio de Lula em seus
primeiros passos, nada disso seria possível.
2) EDUARDO SUPLICY, LULA E FHC JÁ DIVIDIRAM UMA CASA DE PRAIA EM UBATUBA
Na década de setenta, Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa de praia
em Picinguaba, Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Em 1976, entre as
indas e vindas de sua vida acadêmica dentro e fora do país, deixou o
imóvel nas mãos de um amigo de longa data que conhecia desde os tempos de
garoto – um sujeito chamado Eduardo Matarazzo Suplicy.
“Em 1976,
aluguei uma casa em Paraty e fui conhecer Picinguaba. O Fernando Henrique
Cardoso tinha uma casa lá, que acabou me emprestando por seis meses quando ele
foi para a França. O filho da caseira me mostrou um terreno, onde acabei
construindo minha casa, dois anos depois”, conta Suplicy.
Um ano depois, o fundador do PSDB abriria as portas para o fundador do PT e sua esposa – Lula e Marisa –
passarem um final de semana no imóvel. Lula ficou extasiado com a
paisagem. Só reclamou dos mosquitos.
3) LULA E FERNANDO HENRIQUE CARDOSO QUASE CRIARAM UM PARTIDO POLÍTICO
No final da década de 1970, Fernando Henrique e Lula participaram de uma
reunião no ABC paulista, com intelectuais e dirigentes sindicais, para discutir
o que fazer diante da iminente redemocratização no país. Nesse espaço,
discutiram a criação de um
partido socialista. Mas a ideia não
foi pra frente. Como conta o sociólogo Francisco Weffort, fundador do PT e
posteriormente ministro do governo FHC:
“Apesar das muitas
afinidades, prevaleceu a divergência. Daquele grupo, uns saíram para criar o PT
e outros, anos depois, o PSDB.”
Segundo Eduardo Suplicy, que reuniu Lula e Fernando Henrique diversas
vezes em sua casa para discutir o futuro do país e a possível criação de uma
nova legenda, ela só não nasceu pelo conflito de liderança entre os dois:
“Cada um
avaliava que seria o líder maior da organização que se formasse. Tinham
dificuldade de aceitar a liderança um do outro, e ficava muito difícil para
ambos ficar no mesmo partido”, conta.
Por muito pouco, PT e
PSDB não se tornaram um único partido.
4) OS POLÍTICOS DE PT E PSDB SE CONFUNDEM COM A HISTÓRIA DA ESQUERDA BRASILEIRA
A
história dos principais caciques tucanos se confunde com a história dos
principais caciques petistas. Juntos, ajudaram a construir a esquerda
brasileira.
Fernando Henrique
Cardoso sempre foi um estudioso do marxismo, por influência de
Florestan Fernandes. Na década de 50, auxiliava a edição da revista
“Fundamentos”, do Partido Comunista Brasileiro. Também integrava um grupo
de estudos dedicado à leitura e discussão da obra O Capital, de Marx. Em
1981, ao lado de Eduardo Suplicy, ingressou
numa lista da Polícia Federal. Era tratado como
comunista pela ditadura.
O economista José Serra foi
uma das principais lideranças estudantis de seu tempo, presidente da UNE e um
dos fundadores da Ação Popular, grupo de esquerda que revelaria os petistas
Plínio de Arruda Sampaio e Cristovam Buarque. Serra é amigo pessoal e conviveu
por anos no exílio com a economista petista Maria da Conceição Tavares,
uma das principais influências intelectuais do Partido dos Trabalhadores e
referência particular de Dilma.
O tucano Aloysio Nunes,
vice de Aécio Neves na última eleição, foi membro da Ação Libertadora
Nacional (ALN), organização guerrilheira liderada por Carlos Marighella – era
seu motorista e guarda-costa. Aloysio realizou inúmeros assaltos à mão armada
em nome da revolução socialista.
Alberto Goldman,
ex-governador tucano de São Paulo, teve uma educação marxista. Foi membro do
clandestino PCB durante a ditadura.
José Aníbal,
uma das figuras mais proeminentes do PSDB paulista, foi amigo de adolescência
de Dilma Rousseff, com quem estudava matemática depois das aulas, e seu
parceiro na Organização Revolucionária Marxista Política Operária, também
conhecida como POLOP. Aníbal foi um dos fundadores do PT, antes de ser
presidente do PSDB.
Juntos, eles fundariam os
dois partidos políticos mais relevantes do país.
5) NAS
ELEIÇÕES DE 1989, O PSDB APOIOU LULA CONTRA COLLOR
O recém formado PSDB, criado por dissidentes de esquerda do MDB, lançou
o senador Mario Covas candidato à presidência em 1989. Covas alcançou pouco
mais de 7 milhões de votos no primeiro turno e terminou a corrida na
quarta colocação. O que pouca gente se lembra é que o PSDB apoiou Lula no
segundo turno – o PMDB, de Ulysses Guimarães, tentou seguir o mesmo caminho,
mas acabou rejeitado pelo Partido dos Trabalhadores. Os tucanos, por outro lado,
foram acolhidos. Em almoço com o prefeito de Belo Horizonte eleito pelo PSDB,
Pimenta da Veiga, Lula ouviu do tucano:
“Eu tenho também a
alegria de saber que, pela primeira vez, aqui se reúnem representantes de todas
as forças progressistas do país, nesta tarde, neste almoço. Eu estou certo que
isso terá desdobramentos. E acho que deve ser assim, porque o Brasil deseja mudanças
em profundidade. E só essas forças progressistas podem fazer essas mudanças.”
Lula perderia a eleição
para Collor em poucas semanas.
6) “LULA, VENHA CONHECER A CASA ONDE VOCÊ UM DIA VAI MORAR”
Em 1993, o Brasil passou por um plebiscito sobre a forma e o
sistema de governo do país. De um lado, o PT articulava a formação de uma
Frente Presidencialista. De outro, o PSDB defendia a implementação do
parlamentarismo. Numa conversa
informal, Lula e FHC
chegaram a conversar sobre um plano em que o operário se tornaria
presidente e o sociólogo primeiro-ministro.
Em 1998, como revela numa
conversa com o
ex-senador petista Cristovam Buarque, FHC recebeu Lula no Palácio do Alvorada e
arriscou uma nova previsão.
“Cristovam
Buarque: Em novembro de 1998, acompanhei o Lula para visitá-lo. Quando o senhor
abriu a porta do apartamento residencial no Alvorada, disse: “Lula, venha
conhecer a casa onde você um dia vai morar”. Foi generosidade ou previsão?
Fernando
Henrique Cardoso: Não creio que tenha sido uma previsão, mas sempre achei uma
possibilidade. E também um gesto de simpatia. Eu disse ao Lula naquele dia:
“Temos uma relação de amizade há tantos anos, não tem cabimento que o chefe do
governo não possa falar com o chefe da oposição”. Era uma época muito difícil
para o Brasil. Eu disse lá, não sei se você se lembra: “Algum dia nós podemos
ter de estar juntos”. Eu pensava numa crise. E disse ao Lula: “Não quero nada
de você. Só conversar. É para você ter realmente essa noção de que num país,
você não pode alienar uma força”. Lula conversou comigo no dia da posse. E foi
bonita aquela posse… Na hora de ir embora, o Lula levou a mim e a Ruth até o
elevador. E aí ele grudou o rosto em mim, chorando. E disse: “Você deixa aqui
um amigo”. Foi sincero, não é?”
Em 1999, Fernando Henrique relatou o quanto respeitava Lula. Numa conversa com Eduardo Suplicy, revelou que quando
Lula aparecia na televisão falando mal dele, simplesmente desligava o aparelho.
“Fico triste,
perco até o humor. Para vocês terem uma ideia do quanto eu gosto e admiro
o Lula. Você sabe, Eduardo, o que eu fiz com Lula quando ele esteve comigo
no Alvorada, mostrei a ele o meu quarto e disse: “Um dia isso aqui vai ser os
seus aposentos”. A gente faz isso com adversário, nem com todos os amigos a
gente faz isso. Pois eu mostrei a Lula as dependências da residência oficial em
que moro. Mostrei o meu quarto.”
Em três anos, Lula
viraria presidente. A profecia tucana se cumpriu.
7)
FERNANDO HENRIQUE FEZ CAMPANHA SECRETA PARA LULA EM 2002
Nas
eleições de 2002, FHC retaliou José Serra, candidato pelo PSDB à sucessão
presidencial, por ataques feitos a Lula durante a campanha. Fernando
Henrique disse também, em conversas reservadas,
que foi um erro o ataque direto ao presidente do PT, o então deputado federal
José Dirceu. Dirceu era o petista mais próximo de seu governo e a ordem era que
se suspendesse imediatamente as críticas a ele. Seu puxão de orelha foi transmitido
ao comando do marketing da campanha de Serra.
Com Lula eleito, FHC iniciou
uma campanha secreta em sua defesa. A história é narrada no livro ”18 Dias — Quando Lula e FHC se
uniram para conquistar o apoio de Bush”, escrito por Matias
Spektor, doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford e
colunista da Folha de São Paulo. Como conta Spektor:
“Lula despachou
José Dirceu [que viria a ser o chefe de sua Casa Civil] para os Estados Unidos
e acionou grupos de mídia e banqueiros brasileiros que tinham negócios com a
família Bush. Disciplinou as mensagens de sua tropa e abriu um canal reservado
com a embaixada americana em Brasília. Lula não fez isso sozinho. Operando
junto a ele estava o presidente brasileiro em função – Fernando Henrique
Cardoso. FHC enviou seu ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, em missão
à Casa Branca para avalizar o futuro governo petista. O presidente também
instruiu seu ministro da Fazenda, Pedro Malan, a construir uma mensagem comum
junto ao homem forte de Lula, Antonio Palocci.
Eles fizeram uma
dobradinha para dialogar com o Tesouro dos Estados Unidos, o Fundo Monetário
Internacional e Wall Street. Fernando Henrique ainda orientou Rubens Barbosa,
seu embaixador nos Estados Unidos, a prestar todo o apoio a Lula.”
Sem esse apoio, Lula certamente não conseguira a estabilidade
internacional que teve. Não fosse FHC, sua história teria tomado outros
rumos. E a do Brasil também.
8) O HOMEM FORTE DA ECONOMIA DO GOVERNO LULA ERA… UM TUCANO!
No
início dos anos 2000, Henrique Meirelles deixou de lado uma vida bem sucedida
como executivo do setor financeiro para candidatar-se a deputado federal
por Goiás. Recebeu 183 mil votos e se tornou o deputado mais votado
do estado. Seu partido era o PSDB. Com o sucesso eleitoral e o respeito
do mercado financeiro, foi convidado por Lula para ser o primeiro
presidente do Banco Central de seu governo, cargo que ocuparia por longos
7 anos. Meirelles ainda receberia as bençãos de FHC, antes de se desfiliar
do PSDB e deixar o cargo que havia sido eleito. Lula telefonou para
Fernando Henrique para avisar a escolha.
Em 2003, Marcos
Lisboa, outro homem forte da economia do primeiro governo Lula, declarou que a equipe
econômica do governo Fernando Henrique Cardoso merecia uma “estátua em praça
pública” por ter promovido os acordos com os governos estaduais e municipais na
negociação da dívida e também por ter criado a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Anos mais tarde, Fernando
Henrique revelou comemorar as conquistas do governo Lula.
“Eu também
comemoro a melhoria na distribuição de renda. A política dele é a minha”, disse.
9) FERNANDO HENRIQUE CARDOSO EVITOU OIMPEACHMENT DE LULA EM 2005
Durante
todo governo Lula, duas figuras construíram uma ponte entre o presidente
operário e o ex-presidente sociólogo: os então ministros Antonio Palocci,
da Fazenda, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. Os encontros foram confirmados por ambos – Palocci confirmou que esteve
pessoalmente com FHC “pelo menos cinco vezes”; Bastos disse ter conversado
pessoalmente com o ex-presidente apenas uma vez, em junho de 2005, mas
confirmou que os contatos por telefone eram muito frequentes. Lula sempre soube
das conversas e, mais de uma vez, em momentos difíceis, sugeria a Palocci:
“Vai conversar com Fernando Henrique”.
Em 2005, no auge do escândalo
do Mensalão e com a pressão por impeachment, Lula orientou seus
dois homens fortes para pedirem a FHC que aplacasse os ânimos da oposição.
O tucano aceitou de prontidão. Na conversa com Thomaz Bastos,
FHC concordou que um impeachment de
Lula, à época uma ameaça real, “tornaria o país ingovernável”. Fernando
Henrique dizia que não queria criar “uma cisão no Brasil”. Os tucanos acataram
a ordem e a história do impeachment perdeu
força.
10) NAS ÚLTIMAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS, PT E PSDB ESTAVAM COLIGADOS EM 999 DISPUTAS DE PREFEITURAs
PT e
PSDB são tratados como antagonista no cenário político nacional, mas a verdade
é que em pelo menos 999 cidades (o correspondente a 18% das 5.569 cidades
brasileiras), os partidos fizeram parte da mesma coligação nas últimas eleições
municipais. Só no estado de São Paulo, esse número foi de 54 municípios.
Em Schroeder, Santa
Catarina, por exemplo, o prefeito eleito foi o tucano Osvaldo
Jurck; seu vice foi o
petista Moacir Zamboni. Em 149 casos, segundo dados do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), as chapas que contaram com o PT foram encabeçadas por
candidatos a prefeito pelo PSDB.
Tudo como se fossem feitos um
para o outro.











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