Em meio a tantos problemas,
brasileiros nunca deixaram de festejar carnaval. E isso não é alienação.
Há
um samba-enredo antigo que, não tendo-se tornado clássico, sem ser tocado em
festas e em carnavais posteriores, desconhecido das novas gerações, escanteou a
beleza de sua letra. “O carnaval é a maior cariocatura/Na folia o povo esquece
a amargura.” A escola de samba que o cantou foi o Salgueiro em 1983, no
enredo “Traços e troças”, um jogo de palavras que homenageava a caricatura e os
cartunistas. Os carnavalescos foram o cartunista Lan e o importante diretor de
tevê, Augusto César Vannucci. Viam-se, no Brasil, as frestas da
redemocratização, que aconteceria dois anos depois, e um trecho da letra faz
referência à censura: “Será/Que a política não vai me censurar/Já sei, eu já
sei, certos momentos não se pode criticar!” Foi o último carnaval antes da posse
de Leonel Brizola como governador do Rio, eleito nas eleições de 1982, a
primeira a realizar-se desde 1965 e indicativa de que o ciclo de
generais-presidentes estava chegando ao fim. A ausência de restrição a assuntos
que poderia ser tratado com humor, presente em um verso, hoje está em xeque
pela ascensão do politicamente correto e das patrulhas ideológicas: “A minha
pena não tem pena nem perdoa/Mexe com qualquer pessoa/Ela quer se divertir.” A
beleza poética atinge o ápice no refrão principal: “O carnaval é maior
caricatura/Na folia o povo esquece a amargura”.
O
refrão é rico pelo que nele há de ambíguo – mesmo que não tenha sido esta a
intenção dos compositores – e pelo que revela de um de nossos dilemas. O povo
perde a amargura na folia porque é passivo e folgazão, interessando-se somente
pelo que lhe é lúdico e hedonista, o momento mais perfeito de nossa alienação,
a caricatura do brasileiro? Ou o carnaval é uma caricatura porque, exatamente
nessa data, o povo pode libertar-se das amarras, das tensões e das
angústias cotidianas, fazendo da festa uma válvula de escape que lhe é vedada o
restante do ano?
Enquanto
milhares saem às ruas ou desfilam em escolas de samba em grandes, o sentimento
– na verdade, acusação – de que o brasileiro é alienado viceja com a
força das redes sociais nestes dias em que crise política, institucional e
econômica misturam-se no noticiário. A energia que nos mobiliza para brincar
poderia ser canalizada para revoltar-se contra as mazelas do país – e
transformá-lo. O carnaval seria, portanto, a versão Pau-Brasil do panem et
circenses. Nesse duelo, um dos argumentos mais utilizados por quem defende o
carnaval escora-se em discurso econômico. Empregos diretos e indiretos são
gerados, cifras bilionárias são movimentadas nessa indústria do entretenimento.
Não é um discurso desprezível; mas, se for o principal ou mesmo o único,
oferece de bandeja aos interlocutores um contra-argumento: como muitas
atividades econômicas são paralisadas durante a folia, a arrecadação do Imposto
Sobre Serviços (ISS) diminuiu, como acontece na cidade do Rio de Janeiro. Ou
podem basear-se nos dados do IBGE e da Fiesp segundo os quais, quando o
carnaval cai em março – como mais recentemente em 2011 e 2014 - ocorre uma
queda na produção industrial. Os números da indústria do carnaval não compensam
as perdas.
O
raciocínio econômico nem de longe responde ao dilema, posto que se baseia na
apropriação da festa pela indústria cultural, um processo que se consolidou, a
ponto de gerar números tão grandiosos, nas últimas três décadas. Muito antes
disso, já éramos o “país do carnaval.” Sendo a economia uma seara pouco
consistente para pavimentar a polêmica, coube às ciências humanas essa tarefa,
cumprida, em muitos casos, sem cair na simplificação de que “todo povo tem sua
festa, seu ritual” - um clichê que congela qualquer esforço interpretativo mais
denso.
O
trabalho mais famoso e polêmico, que traz “dilema no subtíulo” no subtítulo, é
do antropólogo Roberto DaMatta. Carnavais, malandros e heróis – Para uma
sociologia do dilema brasileiro foi lançado no início de 1979, e é um dos
livros mais utilizados em dissertações e teses. DaMatta inspira-se na obra de
Mikhail Bakhtin, autor de A cultura popular na Idade Média e no Renascimento –
O contexto de François Rabelais, um clássico do estudo da cultura popular. Nela
o linguista e crítico literário russo defende a ideia de que, na Europa
do início da Idade Moderna, a “carnavalização” - eventos com uma estética de
riso, chacota, pilhéria, zombaria aos poderosos e à cultura oficial da Igreja e
do Estado, excessos no comer, beber e no comportar-se – promoveu a inversão
social dentro de uma moratória do cotidiano, uma subversão da ordem vigente. A
estética carnavalizada está presente em autores clássicos da literatura: além
de Rabelais, Boccaccio, Cervantes e Shakespeare. (Há um livro que pode ser lido
como um complemento e, em vários trechos, como contestação às teses de Bakhtin.
Chama-se A cultura popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800, do historiador
britânico Peter Burke)
Adaptando-a
à realidade brasileira, DaMatta, que curiosamente não chega a citar Bakhtin,
chega à conclusão de que o autoritarismo e as rígidas hierarquias sociais,
características de nossa sociedade, são transgredidos durante três ou quatro
dias, quando se manifesta claramente uma espécie de “consciência coletiva” de
nossas mazelas. Uma empregada doméstica, ao fantasiar-se de rainha, e um homem
de classe média ou alta, ao vestir-se como um sem-terra, um sem-teto ou um
gari, (sim, isso já aconteceu), mais do que invertem seus papeis sociais –
mostram que há uma linha divisória que sabem reconhecer, donde se conclui ser
inapropriado falar em alienação, pois se trata exatamente do contrário: os
indivíduos sabem seu papel social; e, aos que desempenham o ano inteiro o papel
de oprimidos, é-lhes dada a chance de mostrar que gostariam de gozar de uma
realidade bem diferente. Dois outros conceitos são importantes para Roberto
DaMatta: a “casa” e a “rua”, o privado e o público como espaços de sociabilidade.
A casa é o ambiente seguro em que o indívíduo é protegido dos perigos da rua.
Mas a segurança tem a restrição das regras e dos limites da vida familiar. No
carnaval, rua e casa subvertem seus papeis. Ocupando as ruas, o povo faz delas
sua casa, sem os códigos de conduta da vida privada e sem temer-lhes o perigo.
É quando a moça inibida e reprimida sexualmente fantasia-se de forma sensual,
ou desfila seminua no alto de uma alegoria de escola de samba. Ou quando o
homossexual “enrustido” encontra uma válvula de escape para vestir-se como
mulher. Com isso, o carnaval brasileiro infunde, na sociedade, valores
igualitários e democráticos, inexistentes ao longo do ano.
A
teoria de Roberto DaMatta é tão aceita quanto rejeitada. Parafraseando a
crítica que a esquerda costuma fazer a Gilberto Freyre, atribuindo a ele a tal
da democracia racial, acusa-se o autor de Carnavais, malandros e heróis
de valorizar uma espécie de “democracia carnavalesca”, em que os conflitos
sociais desaparecem como que por mágica, em uma irmanação festiva das classes
sociais. A antropóloga Maria Isaura Pereira de Queiroz, no livro Carnaval
Brasileiro - O vivido e o mito, foi uma das primeira a contestar a visão
bakhtiniana (e “damatiana”) do carnaval. Para ela, o carnaval real é aquele que
reflete, e não subverte, a ordem social vigente. Assim como ela, estudiosos
apontaram uma confusão entre inversão e sua representação. Um pobre vestido de
rico não o faz rico. Um rico fantasiado de pobre não o leva a vivenciar as
mazelas da pobreza. O carnaval é um grande palco em que os atores representam
personagens, mas não os são concretamente. Logo, não há que se falar em
inversão, pois esta nunca existiu em realidade – somente como ficção.
A
distinção entre as esferas pública guarda elementos ilusórios. A “segurança” da
casa pode camuflar um espaço de violência, opressão e, como nas obras de Nelson
Rodrigues, de transgressão de comportamento familiar. E a “subversão” das
ruas no carnaval pode ser o momento de tornar mais explícito os
conflitos sociais do Brasil. Este é o leitmotiv da historiadora Maria
Clementina Pereira Cunha no livro Ecos da folia – Uma história social do
carnaval carioca entre 1880 e 1920, uma análise marxista das manifestações
carnavalescas que antecederam as escolas de samba. Ela mostra que, no entrudo,
nos blocos, nos ranchos e nas grandes sociedades, conforme as camadas sociais
em que surgiram e deles participavam, a luta de classes se exibia
simbolicamente em praça pública quando a cidade já era conhecida pela
excelência e pela variedade de seu carnaval.
Roberto
DaMatta detém-se longamente no fenômeno das escolas de samba do Rio de Janeiro,
que à época ocupavam com mais força posição de centralidade simbólica do
carnaval como sinônimo de brasilidade. Encaixar as escolas de samba dentro do
conceito de carnavalização de Bakhtin apresenta inúmeros problemas. Mais
próximos do escárnio e da pilhéria, com crítica social e política, estão na
verdade os blocos de rua, e isso se explica pela natureza diferente de ambos
como agente ativo da ocupação das ruas. Desde a sua origem, na década de 1920,
entre as camadas mais desfavorecidas do Rio, as escolas sempre mantiveram um
caráter competitivo entre elas, apolíneo, com regras, regulamentos escrito e
fiscalizados por elementos externos (os jornais cariocas, incluindo o “Jornal
do Brasil”, exerceram esse papel no início, como extensão ao que já
faziam os ranchos). Não era brincadeira descompromissada, espontânea, mas
competição, o que exigia dose de disciplina. Por essas características, evoluiu
lentamente para o entretenimento, para o espetáculo, para o show business. É um
evento para ser visto. (Peter Burke situa esse fenômeno no carnaval
europeu entre os séculos XVI e XVIII) Daí o surgimento das lideranças que
tinham de negociar com o poder público e controlar seus integrantes. Quem
conhece por dentro os bastidores das escolas de samba sabe que nelas existe
forte hierarquia social. Seu universo sempre foi pouco democrático, sem
que a maioria de seus integrantes tenham voz ativa nas decisões tomadas. De
figuras que se tornaram mais conhecidas desde os tempos românticos, como Natal
da Portela e Osmar Valença no Salgueiro, até os contemporâneos contraventores
do carnaval carioca, passando por policiais, milicianos e traficantes que
passaram a disputar o naco de poder da folia – segundo inúmeras denúncias nas
últimas décadas - pouco se pode falar de igualitarismo e democracia.
A
estrutura apolínea das escolas, baseada na ordem e na disciplina e na
dependência de recursos do poder público, levou-as a abordar, até os anos 1960,
enredos pouco afeitos a qualquer coisa que soasse subversiva. Com o tempo,
abriram-se brechas para enredos que retratassem outra realidade brasileira, o
que incluía crítica política, e aí aumentou contradição entre a mensagem que
elas transmitiam e sua realidade. De grande exemplo é a Beija-Flor de
Nilópolis. Comandada há décadas pelo contraventor Anísio Abraão David – que já
prepara a sucessão para o filho de vinte e poucos anos -, nos anos 1970 teceu
loas ao regime militar. Décadas depois, no primeiro carnaval da Era Lula, uma
gigante escultura do presidente encerrava o desfile. Em 2018 desfilará com
enredo com críticas à desigualdade.
Além
da temática, a estética das escolas de samba difere muito dos festejos que
serviram de mote para a construção teórica de Bakhtin. As escolas são
tributárias, historicamente, de dois modelos: a estrutura dos ranchos – também
apolínea, organizada, competitiva - e o visual das grandes sociedades. Estas,
inspiradas no carnaval europeu a partir do Renascimento, eram luxuosas e
desfilavam com grandes alegorias. Já a estética da carnavalização é a do
grotesco, que tem por objetivo provocar riso pela distorção, pela assimetria,
pelo ridículo, pelo que está fora dos padrões de beleza. Nada mais distante do
encantamento e da exuberância do estilo barroco que desfila na Marquês de
Sapucaí.
É
evidente que há brechas para que se introduza algo parecido com o grotesco.
Ninguém entendeu melhor isso do que o carnavalesco Joãosinho Trinta em 1989, na
mesma Beija-Flor que elogiava o Mobral, PIS, PASEP e o Funrural como feitos do
regime militar, ao vestir uma ala enorme de mendigos e a tentar fazer o mesmo
com a imagem do Cristo Redentor. Proibido pela justiça a pedido da Igreja Católica,
o Cristo desfilou coberto com plástico preto e com a faixa que trazia a
inscrição: “Mesmo proibido, olhai por nós.” É uma das imagens mais icônicas do
carnaval, e esse desfile é considerado por muitos pesquisadores o maior da
história. Hoje o grotesco, no carnaval, é mais fácil de encontrar nas fantasias
de indivíduos que saem nos blocos que lotam as ruas de Rio, São Paulo e outras
cidades.
“O
carnaval é a maior caricatura/Na folia o povo esquece a amargura.” A construção
ideológica de uma brasilidade homogênea e totalizadora só encontra um simulacro
nos blocos e nas festas de rua em que não há espaço para delimitação de público
– cujo crescimento é uma das marcas deste século. Mas isso pode estar ameaçado.
No Rio, alguns não quiseram divulgar horário e local do desfile para não atrair
muita gente. (Isso já aconteceu faz uns dez anos; mas diante das críticas,
abriram-se ao povo. Agora, a prática retorna) Em São Paulo, formou-se o
“Porão do Dops”, bloco formado por indivíduos que defendem a ditadura militar
no Brasil e homenageiam torturadores da ditadura anterior. Foi impedido pela
Justiça de desfilar.
Bruno Filippo é jornalista e
sociólogo. Autor do livro “Por quem as rosas falam – E outros ensaios sobre
samba e carnaval”

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