A história
inspiradora de como um povo se rebelou e impediu os comunistas de tomarem conta
de seu país.
Raramente uma grande nação esteve mais perto do desastre
e se recuperou do que o Brasil em seu triunfo sobre a subversão vermelha. Os
elementos da campanha comunista para a dominação – propaganda, infiltração,
terror – estavam em plena ação.
A rendição total parecia iminente.... e então o povo
disse: NÃO!!!
O palco estava
completamente armado e determinado o cronograma para a primeira fase da tomada
de posse pelos comunistas. Nos calendários dos chefes vermelhos no Brasil –
assim como nos de Moscou, Havana e Pequim – as etapas para a conquista do poder
estavam marcadas com um circulo vermelho: primeiro, o caos; depois, guerra
civil; por fim domínio comunista total.
Havia anos que os vermelhos olhavam com água na boca o grande
país, maior que a parte continental dos EUA e que então continha 80 milhões de
habitantes, aproximadamente metade da população da América do Sul. Além de
imensamente rico em recursos ainda não aproveitados, o Brasil se limita com 10
países – toda a América do Sul, exceto Chile e Equador – seu domínio direto ou
indireto pelos comunistas ofereceria excelentes oportunidades para subverter um
vizinho após o outro. A captura deste fabuloso potencial mudaria
desastrosamente o equilíbrio de forças contra o Ocidente. Comparada com isso, a
comunização de Cuba era insignificante.
Por fim estava tudo preparado. A inflação piorava dia a dia; a
corrupção campeava; havia inquietação por toda a parte – condições perfeitas
para os objetivos comunistas. O governo do presidente João Goulart estava
crivado de radicais; o Congresso, cheio de instrumentos dos comunistas.
Habilmente, anos a fio, os extremistas de esquerda tinham semeado a idéia de
que a revolução era inevitável no Brasil. Dezenas de volumes eruditos foram
escritos acerca da espiral descendente do Brasil para o caos econômico e
social; a maioria concordava em que a explosão que viria seria sangrenta,
comandada pela esquerda e com um elenco acentuadamente castrista. Os
brasileiros em geral olhavam o futuro com a fascinação paralisada de quem assiste
impotente à aproximação de um ciclone. Uma expressão brasileira corrente era:
“A questão não é mais de saber se a revolução virá, mas de quando virá.”
O país estava realmente maduro para a colheita. Os vermelhos
tinham introduzido toneladas de munições por contrabando, havia guerrilheiros
bem adestrados, os escalões inferiores das Forças Armadas estavam infiltrados,
planos pormenorizados estavam prontos para a apropriação do poder, feitas as
“listas de liquidação” dos anticomunistas mais destacados. Luiz Carlos Prestes,
chefe do Partido Comunista Brasileiro, tecnicamente ilegal, mas agressivamente
ativo, vangloriava-se publicamente: “Já temos o Poder, basta-nos apenas tomar o
Governo!”
A luta armada
Amadores contra Profissionais
E então, de repente – e arrasadoramente para os planos vermelhos
– algo aconteceu. No último instante, uma contra-revolução antecipou-se à
iniciativa deles. A sofrida classe média brasileira, sublevando-se em força bem
organizada e poder completamente inesperado, fez sua própria revolução – e
salvou o Brasil.
Sem precedentes nos anais dos levantes políticos sul-americanos,
a revolução foi levada a efeito não por extremistas, mas por grupos normalmente
moderados e respeitadores da lei. Conquanto sua fase culminante fosse levada a
cabo por uma ação militar, a liderança atrás dos bastidores foi fornecida e
continua a ser compartilhada por civis. Sua ação foi rápida (cerca de 48 horas
do início ao término), sem derramamento de sangue e popular além de todas as
expectativas.
Uma vitória colossal para o próprio Brasil, ela foi ainda maior
para todo o mundo livre. Pois, como comentou um categorizado funcionário do
Governo em Brasília: “Ela marca a mudança da maré, quando todas as vitórias
pareciam vermelhas, e destrói completamente a afirmação comunista de que a
“história está de nosso lado”.
Como foi, exatamente, que os brasileiros conseguiram esta
vitória magnífica? A história secreta desta legítima revolução do povo –
planejada e executada por amadores mobilizados para a luta contra calejados
revolucionários vermelhos – é um modelo para toda nação analogamente ameaçada,
uma prova animadora de que o comunismo pode ser detido de vez, quando
enfrentado com energia por um povo suficientemente provocado e decidido.
Deriva para o Caos
A história começa pouco depois da renúncia do presidente Jânio
Quadros, em agosto de 1961. Seu sucessor, o Vice-Presidente Goulart, de
tendências esquerdistas, mal chegado de uma visita à Rússia e à China Vermelha,
apenas assumiu o poder deixou transparecer claramente em que direção ia
conduzir o País.
Sem ser comunista, Jango procedia como se o fosse. Sedento de
poder, Goulart julgava estar tornando os camaradas instrumento de suas
ambições; em vez disso, eram eles que faziam dele seu instrumento. As portas,
há anos entreabertas à infiltração vermelha, foram escancaradas. A inflação,
estimulada por enchentes de papel-moeda emitido em administrações anteriores e
agora acelerada por Jango, subia em espiral, enquanto o valor do cruzeiro caía
dia a dia. O capital, vitalmente necessário para desenvolver o País, fugia para
o estrangeiro; os investimentos alienígenas secavam rapidamente sob o peso das
restrições e das constantes ameaças de desapropriação.
A Hora é Agora
Alarmados com a perigosa deriva para o caos, alguns homens de
negócio e profissionais liberais reuniram-se no Rio em fins de 1961, dizendo:
“Nós, homens de negócio, não mais podemos deixar a direção do País apenas aos
políticos.” Convocando outras reuniões no Rio e em São Paulo, declararam: “A
hora de afastar o desastre é agora, não quando os vermelhos já tiverem o
controle completo de nosso Governo!”
Dessas reuniões nasceu o Instituto de Pesquisas Econômicas e
Sociais (IPES), destinado a descobrir exatamente o que ocorria por trás do
cenário político e o que se poderia fazer a respeito. Outras associações já
existentes, como o CONCLAP (Conselho Superior das Classes Produtoras), formado
pelos chefes de organizações industriais, tanto grandes como pequenas; o GAP
(Grupo de Ação Política); o Centro Industrial e a Associação Comercial, também
se empenharam em atividades de resistência democrática.
Essas organizações ramificaram-se rapidamente através do País.
Embora agindo independentemente, esses grupos conjugavam suas descobertas,
coordenavam planos de ação. Produziam cartas circulares apreciando a situação
política, faziam levantamentos da opinião pública e redigiam centenas de
artigos para a imprensa respondendo às fanfarronadas comunistas.
Para descobrir como funcionava no Brasil o aparelho subterrâneo
treinado por Moscou, o IPES formou seu próprio serviço de informações, uma
força-tarefa de investigadores (vários dentro do próprio governo) para reunir,
classificar e correlacionar informes sobre a extensão da infiltração vermelha
no Brasil.
Guarnecidos de Vermelhos
Os investigadores não tardaram a descobrir um cavalo-de-tróia
vermelho, de dimensões bem mais assustadoras do que alguém imaginava. Muitos
comunistas disfarçados, “plantados” em ministérios e órgãos governamentais anos
antes, tinham conseguido alçar-se a postos-chave na administração federal. A
maioria dos ministérios e repartições públicas estavam guarnecidos por
comunistas e simpatizantes a serviço das metas de Moscou. O chefe comunista
Prestes apregoava em público: “Dezessete dos nossos estão no Congresso” – todos
eleitos em chapas de outros partidos. Além disso, dezenas de deputados
simpatizantes faziam acordos com os comunistas, apoiando-os em muitas questões,
sempre atacando o imperialismo dos EUA” – mas jamais criticando a Rússia
Soviética.
Comunistas não eram os ministros, mas os consultores de alto
nível, e às vezes apenas os subordinados do Ministro, ou os redatores de
relatórios em que se baseavam altas decisões. Alguns alardeavam abertamente:
“Não nos interessa quem faça os discursos, desde que sejamos nós quem os
escrevamos”. O Ministério das Minas e Energia era dominado completamente por um
grupo assim. O Diretor-Geral dos Correios e Telégrafos, Dagoberto Rodrigues,
oficial do Exército, conhecido como esquerdista, liberou certa vez grande
quantidade de material de propaganda cubana e soviética apreendida pelo Governo
Federal com a explicação vaga: “Examinei este material e conclui que não é
subversivo”.
Nos próprios sindicatos o controle comunista era esmagador.
Repetidamente o Governo intervinha em eleições sindicais a fim de garantir a
escolha de candidatos comunistas, especialmente em indústrias que podiam
prontamente paralisar o País.
A "revolução" cubana como referencial
Atenção Especial a Educação
O mais sabidamente infiltrado era o Ministério da Educação. Um
dos mais íntimos conselheiros de Goulart era Darcy Ribeiro, que, como Ministro
da Educação serviu-se de cartilhas para ensinar a milhões de analfabetos o ódio
de classes marxistas.
Especialmente mimada pelo Ministério da Educação era a UNE
(União Nacional dos Estudantes), cuja diretoria era completamente dominada por
vermelhos e cujos 100.000 sócios constituem a maior organização estudantil
nacional da América Latina. Durante anos um subsídio anual do Governo, de cerca
de 150 milhões de cruzeiros (valores de 64) era entregue aos diretores da UNE –
sem que tivessem de prestar contas. Assim garantidos, eles se dedicavam
integralmente à agitação política entre os estudantes. Parte desse subsídio era
usado para financiar excursões à Cuba Vermelha e visitas a grupos de irmãos de
estudantes comunistas em outros países da América Latina.
Fortalecida ainda mais por substanciais fundos de guerra
oriundos de Moscou, a UNE publicava panfletos inflamados e um jornal semanal
marxista. Fingindo-se empenhado em combater o analfabetismo, um grupo da UNE
passou dois meses distribuindo material de leitura, no qual se incluía o manual
de guerrilhas do castrista Che Guevara – impresso em português por comunistas
brasileiros da linha vermelha chinesa. Líderes da UNE especializavam-se em
fomentar greves escolares estudantis, demonstrações públicas e distúrbios de
rua.
Engenheiros do Caos
A infiltração, constataram os investigadores, fora-se tornando
maior e cada vez menos oculta a cada mês que passava. Suficientes para fazerem
soar campainhas de alarma foram as nomeações de certos homens feitas logo no
início do governo Goulart, como Evandro Lins e Silva, eminente advogado, há
muito defensor de causas comunistas, para Procurador-Geral da República; e o
professor Hermes Lima, um admirador de Fidel Castro, para Primeiro-Ministro.
(Ambos foram posteriormente nomeados para o Superior Tribunal Federal). O
principal entre os mais veementes defensores de medidas esquerdizantes era
Abelardo Jurema, Ministro da Justiça de Goulart. E o secretário de Imprensa do
Presidente era Raul Ryff, de ligações notórias com o Partido Comunista havia
mais de 30 anos.
O principal porta-voz do regime Goulart era Leonel Brizola,
cunhado de Jango, Governador do Rio Grande do Sul e depois deputado pelo estado
da Guanabara. Ultranacionalista, odiando os Estados Unidos, Brizola era
classificado como “um homem temerariamente mais radical do que o próprio chefe
vermelho, Luiz Carlos Prestes”.
Por toda a parte havia “técnicos de conflito”, comunistas do
caos. Adestrados em escola de subversão atrás da Cortina de Ferro, eram peritos
em criar o caos, para depois promover agitações em prol das “reformas”, levar o
Governo a fazer grandes promessas que nunca poderia cumprir e, em seguida,
aproveitar o desespero resultante para gritar: “Revolução”. O número desses
técnicos não era grande – não havia mais de 800, tendo uns 2000 adeptos em
órgãos do Governo. Diz o Dr Glycon de Paiva, do Conselho Nacional de Economia:
“É tática comunista clássica darem a impressão de que são muitos. Na verdade,
só uns poucos devotados são necessários para levar a efeito a derrubada de um país.
Os povos livres cometem o erro de não darem importância a qualquer força sem
efetivos consideráveis. Nós aprendemos pelo processo difícil.”
Quase diariamente vinham à luz as mais espantosas provas de que
uma revolução vermelha estava em processo. No empobrecido nordeste, onde se
justificava a preocupação pelas flagrantes injustiças praticadas por abastados
proprietários rurais contra camponeses famintos, “barbudos” de Castro
perambulavam pelo campo suscitando a revolta. O transporte para instrutores cubanos
em guerra de guerrilhas, assim como para centenas de jovens brasileiros que iam
a Cuba fazer cursos especiais de subversão de 20 dias, era assegurado por
aviões diplomáticos em vôos regulares de ida e volta para Havana. Irradiações
da China Vermelha, em português, ficavam no ar quase 8 horas por dia,
conclamando os camponeses a se sublevarem contra os proprietários das terras.
Típico da eficiência dos investigadores democráticos foi a
descoberta que fizeram, em setembro de 1963, de um grande carregamento de armas
que se encontrava a caminho do Brasil, procedente da Europa Oriental. Alertado,
o Exército Brasileiro enviou uma tropa ao navio e conseguiu confiscar toneladas
de armas portáteis, munições, metralhadoras, equipamentos de comunicações de
campanha e montões de propaganda vermelha em português.
O Método “Enriqueça depressa”
As continuas investigações dos peritos de informação do IPES
revelaram mais do que subversão. A corrupção generalizada – bem acima do
comumente aceito como parte da vida política da América Latina – estendia-se do
palácio presidencial para baixo. No momento em que Goulart e seus extremistas
de esquerda atribuíam todas as dificuldades do Brasil aos “exploradores e
sanguessugas norte-americanos”, havia gente do governo metendo as mãos no
dinheiro público com a maior sem-cerimônia. Estava claro que qualquer auxílio a
regiões empobrecidas, inclusive contribuições da Aliança para o Progresso,
tinham de transpor uma pesada pista de obstáculos de mãos ávidas e dedos ágeis.
Com uma renda declarada de menos de 50 milhões de cruzeiros em
1963, Goulart, por exemplo, conforme documentos apreendidos pelo Conselho de
Segurança Nacional depois que ele fugiu para o exílio – gastou 236 milhões de
cruzeiros somente em suas fazendas do Mato Grosso. Enquanto Goulart insistia no
confisco das propriedades dos latifundiários e na distribuição da terra aos
camponeses, os registros de imóveis demonstram que ele rapidamente somava
imensas propriedades às que já tinha. Só depois que Jango fugiu pôde o Brasil
medir a sinceridade dele em matéria de partilha de terras. Proprietário de
terras apenas em São Borja, quando iniciou sua vida pública, ao abandonar o
País em abril de 64 Goulart era o maior latifundiário do Brasil, possuindo em
seu nome mais de 7.700 quilômetros quadrados de terras, uma área quatro vezes e
meia superior à do município do Rio de Janeiro.
E havia os que compartilhavam as oportunidades de ficarem ricos
depressa. Indiscrições sobre uma possível mudança na política oficial, como
sobre taxas de câmbio, davam milhões a favoritos palacianos. Empreendimentos de
qualquer gênero eram vinculados a comissões e retribuições em dinheiro.
Verificou-se que um membro do estafe de Jango tinha um bico como
“ministro-conselheiro” de assuntos econômicos numa embaixada no exterior”-
emprego a que nunca dedicou um dia de trabalho, mas adicionava mais de 15
milhões de cruzeiros ao seu salário anual de oito milhões e meio. O tráfico de
influência era um fato. Um dos deputados do Partido Trabalhista, de Goulart, estava
fazendo uma fortuna acrescentando 1 295 funcionários à sua folha de pagamento
em troca de uma fatia dos vencimentos deles.
Outro negociozinho confortável, explorado por um do peito do
Governo, era conseguir bons empregos públicos para quem pudesse pagar-lhe uma
taxa de um milhão e meio de cruzeiros. Um governador de Estado estava fazendo
fortuna com contrabando; outro recebeu uma verba de 6 bilhões e meio de
cruzeiros para a construção de rodovias e calmamente embolsou o total.
Além de todas essas velhacarias de alto calibre, que podiam ser
documentadas, inúmeros milhões de cruzeiros desapareciam sem deixar rastro no
poço sem fundo da corrupção que campeava.
Propaganda por Panfleto
Os líderes da classe média brasileira, armados com as montanhas
de provas reunidas por seus investigadores, puseram-se então a agir. Sua
missão: despertar seus tolerantes e cordiais patrícios, cujas condescendentes
atitudes políticas eram resumidas muito freqüentemente na frase: “Está certo,
ele é comunista, mas é uma boa praça!”
Os anticomunistas organizavam dossiês sobre os chefes comunistas
e seus colaboradores, dentro e fora do Governo, e distribuíram-nos largamente
entre os líderes da resistência e os jornais. Eles visavam principalmente à
crescentes classe assalariada do País, a grande sofredora com a galopante
inflação.
Diretores de organizações comerciais e de fábricas convocavam
reuniões regulares dos empregados, discutiam o significado oculto dos acontecimentos
correntes, davam-lhes panfletos. Um livrinho barato, escrito por André Gama,
dono de uma pequena fábrica de Petrópolis, e intitulado “Nossos Males e Seus
Remédios”, teve uma circulação superior a um milhão de exemplares. Outro
documento, escrito em linguagem simples, explicava como o sistema democrático
funciona melhor do que outro qualquer, detalhava as tragédias da Hungria e de
Cuba, e avisava: “Está acontecendo aqui.”
A distribuição desse e de outros materiais anti –comunistas a
princípio foi clandestina, depois tornou-se ostensiva. Os lojistas punham os
folhetos denunciadores dentro de embrulhos e sacos de compras. Os ascensoristas
davam-nos a passageiros que se queixavam da situação. Os barbeiros punham-nos
dentro de revistas que eram lidas pelos fregueses que esperavam a vez. Um
tipógrafo do Rio imprimiu secretamente 50 000 cartazes com caricaturas de Fidel
Castro fustigando seu povo e a legenda: “Você quer viver sob a chibata dos
comunistas?” À noite mandou vários ajudantes colocá-los em lugares públicos.
Os contra-revolucionários da classe média do Brasil pagavam pelo
tempo no rádio e na televisão para divulgarem suas revelações. Quando a pressão
do Governo fechou muitas estações de radio e TV a todos menos aos mais radicais
propagandistas, eles formaram sua própria “Rede da Democracia” de mais de 100
estações em todo o Brasil. De outubro de 1963 até a Revolução, as estações
dessa rede, organizada por João Calmon, diretor dos Diários Associados, iam
para o ar na mesma hora em que o esquerdista Leonel Brizola arengava ao
público. (Detido após a Revolução e perguntado por que falhara o golpe
vermelho, o General Assis Brasil, o esquerdista chefe do Gabinete Militar do
Presidente Goulart, deixou escapar: “Aquela desgraçada rede de radio e TV, assustando
a opinião pública e provocando todas aquela marchas de mulheres.”)
Os investigadores não descobriram apenas o que tinha acontecido,
mas também o que estava para acontecer. Adotando as táticas dos próprios
vermelhos, trabalhadores infiltravam-se nos altos conselhos dos sindicatos
trabalhistas, fingindo-se comunistas, mas denunciando regularmente as
maquinações vermelhas. Repetidas vezes os planos dos vermelhos foram
desmantelados, quando oradores e escritores da oposição iam para a imprensa e
para o radio revelar o que se preparava. Certa feita, os vermelhos estavam
discretamente reunindo 5 000 pessoas para uma viagem a Brasília, numa
“peregrinação espontânea” para influenciar a ação do Congresso. Quando os
anticomunistas denunciaram a manobra dias antes, a “peregrinação” foi
cancelada.
Uma Imprensa Destemida
Os principais jornais brasileiros cedo entraram na luta.
Comunicando regularmente as descobertas dos grupos de resistência e mantendo
por conta própria cerrada fuzilaria editorial, destacavam-se os dois mais
influentes jornais do Rio, O Globo e o Jornal do brasil, bem como o Estado de
São Paulo, da capital paulista, e o Correio do Povo, o mais antigo e mais
respeitado jornal independente do Rio Grande do Sul.
Por seu destemor, os jornais brasileiros pagaram pesado preço em
matéria de perseguição pelo Governo. Quando João Calmon publicou uma revelação
comprometedora de quanta inverdade havia no pretenso interesse de Leonel
Brizola pela reforma agrária – sendo o próprio Brizola interessado em terras –
este tentou silenciá-lo mandando executar a hipoteca de empréstimos feitos aos
Diários Associados pelo Banco do Brasil. Para manter a cadeia funcionando,
anunciantes brasileiros prontamente pagaram adiantadamente seus contratos de 12
meses, adiando assim o fechamento.
Por publicar uma narração corajosa e reveladora do que viu
durante uma visita que fez a Rússia em 1963, o dono do Jornal do brasil, M F do
Nascimento Brito, viu seu jornal incorrer na ira do Governo, que mais tarde, no
dia 31 de março, ordenou sua invasão por elementos do Corpo de Fuzileiros
Navais.
Feminina e Formidável
Mas é às mulheres do Brasil que cabe uma enorme parcela de
crédito pela aniquilação da planejada conquista vermelha. Em escala sem
paralelo, na história da América Latina, donas-de-casa lançaram-se à luta aos
milhares, fazendo mais para alertar o País para o perigo do que outra força
qualquer. “Sem as mulheres”, diz um líder da classe media da contra-revolução,
“nunca teríamos podido sustar a tempo o mergulho do Brasil em direção a
ditadura. Muitos dos nossos grupos de homens tinham de trabalhar
disfarçadamente, mas, as mulheres trabalharam às claras... e como trabalharam!”
A vela de ignição e a força propulsora do levante das mulheres
foi uma minúscula amostra de 45 quilos de energia feminina: Dona Amélia Molina
Bastos, do Rio, ex-professora primária, de 59 anos de idade, esposa de um
general reformado do Corpo Médico do Exército.
Ela ouviu, uma noite, em meados de 1962, seu marido e alguns
líderes anticomunistas discutirem desanimados a ameaça que se agigantava.
“Subitamente concluí que a política se havia tornado demasiado importante para
ser deixada inteiramente nas mãos dos homens.”
No dia seguinte – 12 de junho – dona Amélia convidou à sua casa
várias amigas e vizinhas. Com fogo nos olhos, ela perguntou:
Quem tem mais a perder com o que está acontecendo no nosso País
do que nós mulheres? E de quem será o futuro que desaparecerá senão o de nossos
filhos e netos, se a política radical do Governo levar a nossa Pátria ao domínio
comunista?
Naquela mesma noite foi formado o primeiro centro da CAMDE
(Campanha da Mulher pela Democracia). E no dia seguinte, com 30 donas-de-casa
mobilizadas, dona Amélia foi aos jornais do Rio pedir atenção para seu protesto
contra a nomeação por Goulart de seu avermelhado primeiro-ministro. Em O Globo
disseram-lhe: “O protesto de 30 mulheres não quer dizer muita coisa. Mas se a
senhora puder marchar até aqui com 500 mulheres...”
Pegando o telefone, dona Amélia e seu nascente grupo reuniram as
500 mulheres, e dois dias depois se apresentaram a Roberto Marinho, diretor do
jornal – e o fato mereceu manchetes na primeira página. O protesto não sustou a
nomeação, mas estabeleceu o poder das mulheres para influenciar a opinião
pública.
A “Corrente de Simpatia”
Quando a sala de estar de dona Amélia não mais pôde acomodar
todas as donas-de-casa ansiosas por tomar parte na CAMDE, ela mudou suas
reuniões para salões paroquiais de igrejas, formou dezenas de outras pequenas
células em casas de família. Cada mulher que comparecia era encarregada de
organizar outra reunião com 10 de suas amigas; por sua vez estas tinham de
recrutar outras. Para financiar suas atividades, elas economizavam nos orçamentos
domésticos e pediam ajuda às amigas com posses. As mulheres da CAMDE insistiam
em ação. Formavam comícios de protesto público; ficavam horas diariamente ao
telefone; escreviam cartas (certa vez, mais de 30 000) a congressistas para
“assumirem posição firme em prol da democracia”. Pressionavam firmas comerciais
para que tirassem sua publicidade do jornal Última Hora, punham anúncios em
jornais avisando sobre suas reuniões, apareciam em comícios públicos para
discutir com esquerdistas e desafiar os agitadores, distribuíam milhões de
circulares e livretos preparados pelas organizações democráticas denunciando o
namoro do Governo com os vermelhos.
Além disso, produziam literatura própria, especialmente
orientada no sentido das preocupações femininas; mais de 200 000 exemplares só
de um trabalho, descrevendo o que as mulheres podiam fazer, foram distribuídos
pela CAMDE às suas sócias, cada uma devendo tirar cinco cópias e mandá-las a
possíveis candidatas a sócias.
Quando o diretor esquerdista dos Correios e Telégrafos vedou a
distribuição de mensagens e publicações da CAMDE, dona Amelinha organizou uma
força de senhoras estafetas para entregar o material de automóvel, convencendo
pilotos de companhias de aviação brasileiras a transportá-lo para lugares distantes.
As donas-de-casa da classe média não se limitaram a seu próprio
ambiente. Elas se concentraram, por exemplo, nas mulheres do sindicato dos
estivadores, fortemente influenciado pelos vermelhos. “Vocês devem convencer
seus maridos”, diziam àquelas mulheres. Muitas o conseguiram, e não poucos
foram os estivadores assim convertidos à democracia, comunicando depois às suas
esposas: “Não somos mais comunistas!”
O Murmúrio das Orações
Mesmo nas favelas, ponto especial do ataque da propaganda
vermelha, formavam-se unidades da CAMDE. Uma delas, numa favela da Zona Sul do
Rio, denominada Rocinha, nasceu do pedido de socorro de uma lavadeira a dona
Amelinha.
Este lugar aqui - disse a mulher – está cheio de comunistas.
Eles dizem que querem ensinar a gente a ler e escrever, e trazem divertimentos
para nós. Mas os únicos livros que usam são cartilhas cubanas, as únicas fitas
que passam são de guerrilheiros cubanos.
Imediatamente formou-se uma célula na Rocinha, centralizada na
casa dessa lavadeira; organizaram-se classes de alfabetização, forneceram-se
livros. E dali a pouco as mulheres da Rocinha estavam em condições discutir com
os vermelhos em seu próprio nível, dizendo aos candidatos comunistas ao
Congresso e a propagandistas da UNE: “Vão embora. Sabemos o que é que vocês
estão querendo.”
Os vermelhos partiram em busca de presas mais fáceis.
A difusão das organizações femininas foi espetacular. Algumas
tornaram-se filiais da CAMDE; outras, como a LIMDE (Liga das Mulheres
Democráticas) em Belo Horizonte, possuíam identidade própria.
As mulheres de Belo Horizonte, no estado brasileiro talvez mais
ferrenhamente anticomunista, eram a coragem personificada. Quando o Congresso
das Uniões dos Trabalhadores da América Latina (CUTAL), dirigido pelos vermelhos,
anunciou um comício a ser efetuado em Belo Horizonte, tendo como oradores
principais dois organizadores comunistas vindos da Rússia, as líderes da LIMDE
mandaram um recado curto ao CUTAL: "Favor ficar cientes que, quando chegar
o avião trazendo esses homens, centenas de mulheres estarão deitadas na pista.”
Elas cumpriram a palavra, e o avião nunca pousou na capital mineira; em vez
disso, prosseguiu para Brasília.
As mesmas mulheres realizaram demonstração igualmente eficaz em
fevereiro de 1964. Um Congresso de Reforma Agrária devia reunir-se em Belo
Horizonte, tendo como orador principal o cunhado de Goulart. Quando o deputado
Brizola chegou ao saguão, encontrou-o tão apinhado com 3 000 mulheres que não
conseguiu fazer se ouvir acima do ruído dos rosários e do murmúrio das preces
pela libertação da Pátria. Saindo, Brizola viu as ruas igualmente cheias de
mulheres rezando até aonde a vista podia alcançar. O deputado Brizola foi
impelido para fora de Belo Horizonte, levando no bolso, sem o pronunciar, um dos
mais violentos discursos de sua carreira.
Em 12 meses, grupos assim atuaram em todas as cidades grandes,
de Belém a Porto Alegre.
A Sorte está Lançada
No começo de março de 1964 o País inteiro era um rastilho pronto
a irromper em chamas de revolta. Em 13 de março, o próprio Goulart, com os
vermelhos a incitá-lo, temerariamente riscou o fósforo. Perante uma audiência
de uns 1 000 trabalhadores – arrebanhados por líderes vermelhos e trazidos para
o Rio de Janeiro em ônibus e trens ao custo de mais de 400 milhões de cruzeiros
para o Governo - Goulart e Brizola irrevogavelmente comprometeram o Governo a
fazer mudanças radicais.
Realizado na praça em frente à estação da Central do brasil, no
Rio, na hora da volta para casa das grandes massas residentes nos subúrbios, o
comício apresentou uma floresta de cartazes enfeitados com a foice e o martelo
e exigências como “Legalidade para o Partido Comunista” e “Armas para o Povo”.
Agentes democratas, procurando misturar-se com a multidão, constataram estar
esta dividida em blocos, cada um com sua própria senha para deixar de fora
quaisquer intrusos inamistosos.
A estupefata classe média brasileira, assistindo pela TV, ouviu
Goulart denunciar como superadas a estrutura de Governo e a ordem social
existentes, exigindo mudanças básicas na Constituição. Entre as mudanças
sugeridas: legalização do Partido Comunista. A seguir, Goulart anunciou dois
decretos. Um confiscava e entregava à Petrobrás as seis refinarias ainda em
mãos de particulares. O outro, mais assustador, autorizava o governo a
confiscar, sem indenização em dinheiro, quaisquer áreas agrárias por ele
julgadas inadequadamente utilizadas e entregá-las a camponeses sem terras – uma
clara repetição do programa inicial de Fidel Castro de “reforma agrária”.
Os decretos constituíram um movimento audacioso para contornar o
Congresso. Combinado com os ataques à Constituição, isso era um audaz lanço
para estabelecer o governo por decreto, essência da ditadura.
O cunhado do presidente, assomando à tribuna, foi mais longe
ainda. Em voz estridente, Brizola exigiu a extinção do Congresso e a
instituição, em seu lugar de “assembléias” de operários, camponeses e sargentos
do Exército – um evidente eco dos sovietes de operários, camponeses e soldados
de Lenine, em 1917. As implicações eram bastante claras.
O comício de 13 de março bem pode ser considerado como o
detonador da revolução preventiva. A classe média brasileira percebeu então que
a sorte estava lançada: Goulart tinha ido além do ponto em que poderia
arrepender-se. O Governo tinha entrado num caminho que só podia levar a uma
sangrenta guerra civil, seguida da tomada do poder pelos comunistas.
A Marcha das Mulheres
Os primeiros a agir foram as mulheres de São Paulo. Ouvindo pelo
rádio e TV o comício de 13 de março, centenas de donas-de-casa correram para os
telefones para convocar um comício capaz de fazer a demonstração engendrada por
Goulart parecer insignificante. Seis dias depois, a 19 de março, as largas
avenidas do centro de São Paulo ficaram entupidas pelo que as mulheres
denominaram “A Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Apertando livros de
oração e rosários contra o peito, mais de 600 000 pessoas marcharam solene e
ritmicamente sob pendões anticomunistas. E enquanto elas marchavam, os
jornaleiros nas calçadas venderam centenas de milhares de exemplares de jornais
contendo na íntegra uma proclamação de mais de 1 000 palavras, previamente
preparada pelas mulheres. É dessa proclamação o seguinte trecho:
“Esta nação que Deus nos deu, imensa e maravilhosa como é,
está em extremo perigo. Permitimos que homens de ambição ilimitada, sem fé
cristã nem escrúpulos, trouxessem para nosso povo a miséria, destruindo nossa
economia, perturbando a nossa paz social, criando ódio e desespero. Eles
infiltraram o nosso País, o nosso Governo, as nossas Forças Armadas e até
nossas Igrejas com servidores do totalitarismo exótico para nós e que tudo
destrói... Mãe de Deus, defendei-nos contra a sorte e o sofrimento das mulheres
martirizadas de Cuba, da Polônia, da Hungria e de outras nações escravizadas”!
Um espectador classificou a marcha das mulheres em São Paulo
como a demonstração mais comovente da história brasileira. Dias depois, foram
organizadas marchas semelhantes para várias das principais cidades do País. Nem
todos os esforços do governo para desencorajá-las, nem as ameaças da polícia de
dissolvê-las conseguiram deter as entusiásticas cruzadas.
Guardiães da Legalidade
Mas, para impedir o golpe vermelho, tinha de ser empregada ação
mais forte de que demonstrações públicas. Líderes da classe média começaram a
conferenciar secretamente com generais anticomunistas do Exército Brasileiro,
de longa data desconfiados de Goulart e silenciosamente empenhados em sua
própria resistência aos métodos dele.
Para compreender o papel desenvolvido pelos militares na
Revolução é mister entender o caráter e as tradições do Exército Brasileiro –
uma estirpe ímpar na América Latina.
Tradicionalmente, o Exército tem-se considerado o defensor da
Constituição, o guardião da legalidade. Seus generais, ainda ao contrário dos
de alguns países latino-americanos, não são oriundos da aristocracia rica, mas
das classes média e média inferior. Vários começaram sua carreira como
soldados. Assim, não formam uma casta militar, representando antes, talvez
melhor do que qualquer outro segmento da população, uma seção transversal da
opinião e dos ideais democráticos brasileiros.
Historicamente submetido à autoridade civil, o Exército só
interferiu em situações políticas cinco vezes desde a queda da Monarquia, em
1889 – e tão-somente em crises em que o poder civil se desmoronou ou decaiu.
Nessas ocasiões o Exército só assumiu a direção o e tempo suficiente para restabelecer
os processos constitucionais, afastando-se em seguida. Nunca revelou nenhuma
tendência a pegar o poder para si próprio – mesmo quando teria sido mais fácil,
e quiçá aconselhável, fazê-lo. Da implantação da República até hoje, só oito
dos vinte e cinco presidentes do Brasil foram militares, e esses devidamente
eleitos ou nomeados.
Em sua maioria anticomunistas, a desconfiança que os generais
tinham de Goulart e seus enredamentos com os extremistas era igualada pela
desconfiança que Goulart tinha deles. Confiando em que o respeito à
Constituição os impediria de agir, não obstante, Goulart, por medida de
cautela, transferiu os comandantes militares e manobrava as promoções de modo a
reduzir o poder dos oficiais mais conservadores.
Um desses oficiais, o General Humberto de Alencar Castello
Branco, comandava o Exército sediado em Pernambuco, há muito um perigoso foco
de agitação social. Quando alguns fazendeiros foram assassinados e muitas
famílias fugiram do terrorismo vermelho para as cidades, Castello Branco entrou
em ação. Aí, o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, notoriamente radical,
queixou-se de que o general Castello Branco estava neutralizando as influências
esquerdistas em seu estado. Goulart imediatamente tirou de lá o criador de casos
– “promovendo-o” a Chefe do Estado-Maior do Exército. Outros oficiais que se
manifestaram contra o comunismo foram analogamente transferidos para cargos
burocráticos, enquanto esquerdistas eram levados a posições de comando
estratégicas.
Motim nas Fileiras
Para anular ainda mais qualquer possibilidade de uma revolta de
generais anticomunistas, os vermelhos – aparentemente com a conivência de
Goulart, trataram de destruir a disciplina das Forças Armadas, quando não
estimular o motim declarado. Foi desencadeado entre sargentos e praças um
programa de vigorosa agitação, incitando-os a formarem seus sindicatos para
reclamar uma alteração na Lei que permitisse candidatarem-se a cargos eletivos
– direito franqueado a oficiais, mas não a praças. Para minar mais ainda a ação
dos chefes e enfraquecer a disciplina, formou-se uma Associação de Marinheiros
e Fuzileiros Navais – levando a “guerra de classes” marxista às classes
armadas.
Em 23 de março, com os acontecimentos se avolumando
vertiginosamente, Goulart demonstrou abertamente sua simpatia pelo movimento
destinado a pôr a pique a disciplina das Forças Armadas. Nesse dia, uns 1 400
sócios da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil amotinaram-se
no Rio de Janeiro, abrigando-se na sede do Sindicato dos Metalúrgicos,
controlado por comunistas. Desafiando as ordens de regressarem aos quartéis, os
amotinados gritavam alegremente das janelas “Viva Goulart” e apregoavam sua
fidelidade a seu comandante, Cândido da Costa Aragão, nomeado por Goulart e conhecidos
esquerdistas como “Almirante do Povo”.
Tropas do Exército cercaram e prenderam os rebeldes – que no
entanto foram postos em liberdade algumas horas depois por ordem do próprio
Presidente. Para grande desapontamento dos militares, Goulart pediu aos
amotinados que fossem para seus quartéis, com a garantia de que não seriam
punidos e receberiam dispensa no fim de semana.
O Ministro da Marinha, Almirante Silvio Borges de Souza Mota,
abruptamente exonerou o almirante do povo, depois demitiu-se em protesto contra
o encorajamento do motim pelo Governo. Goulart imediatamente reconduziu o
almirante do povo ao seu posto e a seguir anunciou que o novo Ministro da
Marinha seria Paulo Mário da Cunha Rodrigues, um esquerdista conhecido como
“Almirante Vermelho”, convocado da reserva nessa emergência. Os amotinados
comemoraram ruidosamente a vitória nessa tarde no centro da cidade do Rio,
conduzindo aos ombros seu bem-amado “Almirante do Povo”.
Começo de uma Avalanche
Entrementes, observando sombriamente os acontecimentos de seu
gabinete de trabalho no Rio, Castello Branco, o general que fora “promovido”,
havia sondado sua consciência legalista e resolvido agir.
Após o comício de 13 de março, Castello branco redigiu uma
veemente nota. Quando um presidente se propunha a anular o Congresso e a
derrubar a Constituição, argumentava ele, a ação militar em defesa da
legalidade não só se justificava, mas era obrigatória. Esse memorando sigiloso
foi distribuído a generais de confiança. Como toda correspondência dos oficiais
sabidamente anticomunistas era controlada e seus telefones censurados, a
circulação do manifesto de Castello Branco foi um problema. Foi resolvido por
homens de negócios anticomunistas: estes transportaram exemplares no bolso do
paletó, entregando-os pessoalmente aos oficiais certos, e também forneceram
homens de confiança para transmitir mensagens entre generais na sua acelerada
troca de opiniões.
Ao manifesto de Castello Branco, que circulava secretamente,
mais de 1 500 oficiais de Marinha acrescentaram então um deles. Endereçado a
todo o povo brasileiro, ele declarava que chegara a hora de o Brasil “se
defender”. O Exército prontamente proclamou “solidariedade à Marinha”, o grosso
da imprensa aderiu, e na distante Brasília alguns membros do Congresso
abraçaram a causa.
Estaria a nação inteira se sublevando? O próprio Goulart pareceu
atônito pela extensão da reação pública. Conferenciando às pressas com seu novo
Ministro da Marinha, o “Almirante Vermelho”, Jango procurou recuar. Haveria um
inquérito sobre aquele motim, anunciou, e, entrementes, o “Almirante do Povo”,
Aragão, foi dispensado de seu Comando.
O recuo veio tarde demais – a avalanche havia começado.
Fazendo um último e desesperado esforço par obter algum apoio
nas Forças Armadas, Goulart, na noite de 30 de março, foi à sede do Automóvel
Clube do Brasil, no Rio, onde uma grande multidão de sargentos do Exército se
reunira para homenageá-lo. Mas era demasiado tarde. No momento mesmo em que
Goulart sorvia os aplausos dos sargentos e reverberava os “gorilas”, a
revolução preventiva já estava em marcha.
Marcham as Colunas Rebeldes
A primeira conclamação para depor Goulart viera do Governador
dos mineiros, Magalhães Pinto. Demonstrações em apoio desse apelo prontamente
ocorreram nas ruas, e em 31 de março uma divisão do Exército sediada em Minas e
comandada pelo General Olympio Mourão Filho pôs-se a caminho do Rio. Poucas
horas depois chegou a notícia de que o general Amaury Kruel, comandante do
Segundo Exército, sediado em São Paulo, estava lançando suas forças na luta
pela liberdade e enviando um forte contingente para o norte, rumo ao Rio. Nessa
altura, soube-se que o Quarto Exército, sediado em Pernambuco e comandado pelo
General Justino Alves Bastos, também aderira à rebelião.
À beira do pânico, o Presidente Goulart tomou um avião para
Brasília, onde disse aos repórteres: “Vim para aqui a fim de governar o País, e
confio em que o povo esteja comigo”. Rapidamente descobriu que o Congresso não
estava, e que tropas da guarnição de Brasília se estavam movimentando para
atacar o palácio presidencial. Após três horas apenas em Brasília, estava outra
vez de volta em seu avião, rumo ao seu Estado natal, o Rio Grande do Sul. O
Terceiro Exército, sediado em Porto Alegre, ainda não se definira; seu
general-comandante, Ladario Pereira Telles, embora não esquerdista, era leal a
Jango. A sua chegada, entretanto, Goulart soube que o Governador Ildo
Meneghetti aderira ao levante.
Uma incógnita era o Primeiro Exército, sediado no Rio de
Janeiro. Virtualmente preso em seu palácio no Rio, do qual fez sua última barricada,
o Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, de longa data acirrado inimigo de
Goulart, queria proclamar sua fidelidade à revolução e não podia fazê-lo. O
Governo Federal ainda controlava as estações de rádio do Rio e uma greve geral
em apoio a Goulart fechara tudo na cidade. As únicas forças de Lacerda eram a
Polícia Militar, suas únicas armas blindadas os caminhões de limpeza pública
estacionados de modo a obstruírem as ruas que conduziam ao palácio. Ao que se
sabia, o Primeiro Exército ainda estava recebendo ordens de Goulart.
Desanimado, o Governador soube que Goulart mandara uma coluna em direção a São
Paulo, a fim de interceptar a coluna rebelde que avançava. (O que ele e a
população carioca só puderam saber mais tarde foi que, quando as duas forças se
encontraram, a coluna presumivelmente pró-Goulart logo aderiu aos rebeldes.)
Afinal, em sua única linha telefônica ainda funcionando, o
Governador Lacerda conseguiu falar com uma emissora rebelde na distante Belo
Horizonte, cujo som podia ser ouvido no Rio. Foi então que sua própria cidade
finalmente o ouviu proclamar sua solidariedade à Revolução. Mas quando ainda
falava, chegou-lhe um comunicado de que carros de combate do Primeiro Exército
rodavam pelas belas e sombreadas avenidas do Rio, a caminho do palácio do
Governo. Só quando os carros chegaram ao palácio, foi que Lacerda soube que
eles tinham vindo para salvá-lo e não para massacrá-lo.
Vitória
Pelo meio da tarde de Quarta-feira, 1o de abril, tudo estava
terminado, e os lideras da classe média do Brasil estavam nos microfones
saudando o colapso do comunismo. Em todas as janelas do Rio esvoaçavam lençóis
e toalhas saudando a vitória, e as ruas de todas as grandes cidades do Brasil
se encheram de gente alegre e dançando num espírito carnavalesco.
Do Rio Grande do Sul chegou a notícia de que Jango Goulart
fugira para o Uruguai. Também escaparam às pressas Brizola, o embaixador de
Cuba e chefes graduados dos vermelhos, que dispararam para as fronteiras dos
países vizinhos, pularam depressa dentro de aviões rumo a Cuba ou se esconderam
em embaixadas amigas de países da Cortina de Ferro.
Navios procedentes da Tcheco-Eslováquia, cheios de mais armas
para os revolucionários vermelhos, foram assinalados virando rumo a Havana. E,
no Rio, densas nuvens de fumaça subiam dos incineradores da Embaixada Russa,
onde grandes quantidades de documentos e papéis foram queimados às pressas.
Como pôde uma nação dividida, de 80 milhões de pessoas, mudar
politicamente tão depressa e sem perdas de vidas, em contraste com as
carnificinas de circo romano de Cuba, ou da Espanha, onde ambos os lados
lutaram tão encarniçadamente durante anos?
O mérito cabe em grande parte ao quadro dos Oficiais do Exército
Brasileiro, altamente civilizado, que agiu com tanta lealdade e precisão para
pôr cobro à ameaça vermelha de apoderar-se do Governo, pouco antes de chegar ao
ponto de derramamento de sangue. Mas como os generais se apressam em admitir,
maior mérito ainda cabe aos civis, que, tendo diante dos olhos a lição de Cuba,
por mais de dois anos haviam alertado o povo – e no momento culminante deram o
sinal aos militares para agirem.
Dois dias depois da Revolução, o Brasil teve um lembrete do que
realmente a tornara possível. Dois de abril tinha sido marcado pelas mulheres
do CAMDE como a data da “Marcha da Família com deus pela Liberdade”, no Rio de
Janeiro. Mas então, com a liberdade conquistada, para que incomodar-se? As
mulheres do Rio, todavia, correram aos seus telefon es, como suas irmãs de
outras cidades haviam feito antes. A marcha teria lugar segundo os planos, mas
agora como “marcha de ação de graças a Deus”. Quando até o General Castello
Branco, por meio do telefonema de um amigo, aconselhou o cancelamento, temendo
violências, dona Amélia Bastos insistiu afirmando: “A marcha demonstrará ao
mundo que esta é uma Revolução do povo – um plebiscito em marcha pela
verdadeira democracia”.
E assim foi: um oceano de humanidade, totalizando mais de um
milhão de pessoas, deslocando-se sob uma tempestade de papéis picados caindo
dos arranha-céus ao longo das avenidas do Rio; um exército de paz com
bandeiras, dizendo com firmeza e reverência a toda a América do Sul que os
brasileiros estavam decididos a permanecer livres.
Qual era o Grau de Perigo
Dias depois da Revolução, os brasileiros começaram a tomar
conhecimento de quanto tinham estado perto de perder essa liberdade. Varejando
antros de subversão, apressadamente abandonados, unidades do serviço militar de
informação descobriram toneladas de publicações comunistas, manuais de
guerrilhas, arsenais de armas, planos meticulosos para a dominação vermelha,
projetos estranhos para o massacre dos principais elementos anticomunistas.
No Palácio das Laranjeiras, no Rio, havia arquivos
comprometedores de correspondência de gente do Governo com chefes vermelhos,
cheques compensados no valor de milhões de cruzeiros doados a organizações
comunistas camufladas.
Na residência do cunhado de Goulart vieram à tona inúmeras
provas dos atos da “Frente de Libertação Nacional” de Brizola – composta por
seus “Grupos dos Onze” (conhecido como G11) – que ele presidia como comandante
supremo. Os grupos G11, cuja força não era para desprezar, organizados por
Brizola para “salvar o Brasil das garras dos capitalistas internacionais e de
seus aliados internos”, apurou-se Ter um efetivo superior a 30 000 homens.
Um manual secreto apreendido, distribuído aos comandantes dos G11,
determinava que estes fossem organizados segundo modelo da “gloriosa Guarda
Vermelha da Revolução Socialista de 1917”. Os seus membros, chamados
companheiros, juravam lutar até a morte, aprendiam a organizar greves, a
promover agitações e armar confusão; a “destruir, saquear e queimar edifícios
públicos assim como empresas privadas”; a capturar estações telefônicas, de
radio e TV e depósitos de armamento; a raptar e conservar como reféns
autoridades que, em caso de insucesso, “deveriam ser imediata e sumariamente
mortas”.
Outro manual tratava das técnicas de “violência planejada, pondo
de lado qualquer espécie de sentimentalismo”, para eliminar qualquer pessoa que
se opusesse. Dava-se atenção especial à execução de oficiais de postos
elevados: “Cada oficial suspeito terá um homem responsável por sua eliminação
no momento certo”; se o encarregado falhasse em seu dever, ele próprio deveria
“sofrer imediatamente a pena de morte”.
Dinheiro Disponível e Dinheiro falso
Na luxuosa residência de Brizola em Porto Alegre, com 20 cômodos
– ele que nos seus discursos gostava de considerar-se um “homem pobre” e
“defensor dos oprimidos”- foram encontradas várias centenas de milhões de
cruzeiros e também documentos cuidadosamente preparados pondo outros bens dele
em nome de terceiros, mas especificando que deveriam ser “devolvidos quando
pedidos por LB”.
Em Pernambuco, quartel-general dos preparativos comunistas no
Nordeste, foram descobertos mais de 60 000 uniformes e o mesmo número de pares
de sapatos, além de encomendas para mais de 50 000, destinados ao Exército
Camponês, que estava sendo recrutado e adestrado por Miguel Arraes, o
Governador vermelho de Pernambuco. Havia vários uniformes para os chefes
revolucionários, um com desenho especial destinado ao próprio Miguel Arraes.
Em São Paulo foi encontrado um vasto depósito de imitações de
dinheiro em papel-moeda e moeda metálica, tendo gravadas as imagens de Lenin,
Stalin e Prestes, bem como selos postais com a foice e o martelo. Isso era
utilizado principalmente para propaganda. Mas também apareceram enormes
quantidades de dinheiro falso, tão bem feito que quase não podia ser
descoberto; os arquivos de sua utilização indicavam que outros bilhões tinham
sido remetidos para organizações vermelhas, não só para financiar a subversão,
mas também para acelerar a inflação, um objetivo prioritário dos engenheiros do
caos.
Nas sedes das organizações trabalhistas e na UNE havia montes de
filmes e impressos da Rússia, China Vermelha e Cuba; ampliações de fotografias
de Castro, Khrushchev e Mao Tse-Tung para colocar nas paredes e pilhas de
fotografias menores para distribuição; além disso, havia grandes estoques de
bombas Molotov e material para confeccioná-las.
Foram apanhados em flagrante nove agentes vermelhos chineses,
sete deles apresentando-se como membros de uma “missão comercial” e dois como
correspondentes da Agência de Notícias Nova China. Em poder deles havia planos
pormenorizados para o assassinato de preeminentes anticomunistas, bem como
maçarocas de dinheiro e registros de gratificações pagas a congressistas e a
membros do séquito de Goulart. O dinheiro encontrado com os nove, aparentemente
destinado a subornar, elevava-se a mais de um bilhão de cruzeiros, 53 000
dólares americanos, 5000 libras esterlinas e diversas quantias menores de
outras providências.
Nova Fechadura na Porta
Contra todos esses elementos subversivos e corruptores os
militares agiram depressa, prendendo todos os suspeitos – por um “Ato
Institucional” rapidamente promulgado para orientar o Brasil durante o governo
provisório – excluindo do cenário político pessoas reputadas como ameaças
imediatas para o sucesso da Revolução. Muitos foram soltos após investigações;
só continuaram detidos aqueles cujos atos provocados, e não meras palavras,
contribuíram para o quase soçobro do Brasil.
Naquela época, tiveram seus direitos políticos cassados por 10
anos, 68 membros expulsos do Congresso e 349 outros brasileiros destacados –
entre eles os ex-presidentes João Goulart, Jânio Quadros, e Kubitschek. Somente
depois que o presidente Castello Branco examinou pessoalmente as provas que
haviam contra Kubitschek, teve o ex-presidente também cassados os seus direitos
políticos. Aos críticos estrangeiros, para quem tais medidas foram
excessivamente severas, o novo Governo limitou-se a dizer: “Quando a casa da
gente foi saqueada, não se convidam os ladrões a voltarem para jantar. No
mínimo coloca-se uma nova fechadura na porta.”
Visitando Paris após a Revolução, e submetido a perguntas
mordazes de repórteres franceses acerca do expurgo pós-revolucionário, o
Governador Lacerda aludiu à Revolução Francesa de 1789. “O Brasil”, observou
com vivacidade, “ainda não mandou uma única pessoa para a guilhotina”.
Um Honesto Meio-Termo
Perfeitamente dentro do período de 30 dias previsto na
Constituição, o Congresso do Brasil elegeu Presidente o General Castello Branco
até o término dos dois anos que restavam ao governo Goulart. Em vivido
contraste com os demagogos baratos que o precederam, Castello branco sempre foi
universalmente reconhecido como honesto, isento da temeridade tão marcante de
muitos governantes latino-americanos, e profundamente dedicado aos processos
democráticos. Era um homem sereno, mas obstinadamente corajoso.
Sendo ele próprio a antítese do caudilho, Castello Branco
chefiou um governo que estava longe de ser uma ditadura militar. Os partidos
políticos, como o Congresso, existiam sem restrições. A Imprensa livre, sem
limitações aos desacordos ou à crítica; até o jornal Última Hora, então
principal defensor de Jango, continuou sendo publicado.
Rigoroso homem de centro, Castello Branco repelia a qualificação
de “revolução direitista”. Ele asseverava positivamente: “A extrema direita é
reacionária, a extrema esquerda é subversiva. O Brasil precisa seguir um
honesto meio-termo.” Quando, pouco depois da Revolução, alguns ricos
industriais e latifundiários procuraram impor o que ele considerou
reivindicações em benefício próprio, Castello branco falou ásperamente: “A
solução para os males da extrema esquerda não reside no nascimento de uma
direita reacionária.” Os latifundiários deviam estar mais bem informados. Enquanto
servira no Nordeste, ele não escondera o fato de que o “aspecto mais
desagradável da vida militar para mim é ter de defender proprietários ricos que
tratam trabalhadores rurais como escravos”. No início de abril de 1964, um
porta-voz do Governo deixou claro: “A Revolução não foi feita para manter a
injustiça social e privilégios especiais.”
O presidente não alimentava ilusões quanto à enormidade da sua
missão, nem sobre o pouco tempo de que dispunha para cumpri-la. Os problemas do
Brasil profundamente enraizados; regiões de tremenda pobreza e exploração das
massas – não por gente de fora, como acusavam os vermelhos, mas por sua própria
gente. Eram necessárias reformas extremas – políticas, econômicas e sociais. A
tarefa, desconcertante. Mas, não estando vinculado a nenhum partido ou grupo de
pressão – e com poderes dados pelo Ato Institucional, que o tornavam
responsável apenas perante o Congresso e o povo – o denodado Marechal estava
empenhado numa tentativa decisiva.
Essa tentativa frutificou, possibilitando a que os Governos
revolucionários, sem apelos demagógicos e sem excessivos sacrifícios do povo,
fizessem com que o País ingressasse numa fase de recuperação e progresso
reclamados pela grandeza do Brasil e pelos anseios da própria Nação.
(Este texto foi condensado a partir de
uma publicação da revista Seleções do Reader’s, elaborado por Clarence W Hall.
A impressão foi feita pela Biblioteca do Exército, sob orientação do CIEx)

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