Gen Clovis Purper Bandeira
Como tudo que é improvisado, a intervenção federal na área de
segurança pública do Estado do Rio de Janeiro tem tudo para não funcionar.
A começar
pelo seu anúncio, feito sem estudos preliminares ou discussão com os
interessados, sem estimativa de custos e alocação de recursos, com metas vagas
e indefinidas, mal disfarçando sua verdadeira finalidade: esconder o fiasco da
iminente derrota do governo na votação pelo Congresso das mudanças na
Previdência Social. Assim, criando uma cortina de fumaça, com o beneplácito da
imprensa, ninguém mais fala na reforma previdenciária. Parece que, em duas
semanas, mudamos de país.
Quanto à
intervenção em si, trata-se de um cobertor curto. Curto e estreito.
É curto
no tempo, determinando, de saída, que sua duração só vai até final de dezembro.
Agora, o Presidente da República já fala em encerrá-la em fins de setembro.
O que
pode acontecer até lá, conforme nos ensinam as dezenas de empregos de tropas
federais em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)? Os chefões do crime
organizado entrarão em recesso, viajando para fora do estado ou do país em
prolongadas férias permitidas por suas fortunas ilícitas, voltando no início do
próximo ano para retomar seus territórios e seus negócios, começando com uma
limpeza que inclui o assassinato de todos os que colaboraram com as forças de
intervenção.
Se você
morasse numa das extensas áreas dominadas pelas gangues criminosas, nas partes
do Rio de Janeiro que vivem em situação de guerra civil, teria coragem de
colaborar com as forças legais?
Além
disso, o cobertor é estreito. É estreito na amplitude de seu alcance, pois não
é possível, em muitos casos concretos, delimitar se determinadas ações são da
área de segurança, ou do transporte, ou da educação, ou de mais de um dos
campos de atuação do governo estadual.
Para ter
alguma probabilidade de sucesso, a intervenção teria que ter como alvo todo o
governo do estado, não apenas uma fatia dele.
Para
Temer, o negócio foi ótimo. Jogou na arena, para enfrentar as feras, as Forças
Armadas, numa missão indefinida e cheia de obstáculos, muitos criados pelo
próprio governo federal. Apagou das manchetes a quase derrota da reforma previdenciária.
Apossou-se de algumas das bandeiras de campanha de oposicionista pré-candidato
nas eleições de outubro.
Há, nas
Forças Armadas, máxima realista: quem dá a missão, dá os meios. É claro
que tal não aconteceu nem acontecerá, pois os governos federal e estadual estão
falidos.
Por sua
vez, Legislativo, Ministério Público, imprensa, sindicatos, OQG (Organizações
Quase Governamentais), OAB, AMB, OEA e até a ONU pretendem enviar observadores
para denunciarem os excessos que, já decidiram preconceituosamente, serão
cometidos pelos militares.
Enquanto
os sofridos cidadãos – escravos involuntários do crime organizado e de
políticos mafiosos – enfrentavam, durante mais de duas décadas, o domínio
crescente dos criminosos, algum desses organismos se manifestou ou preocupou-se
com a defesa de seus direitos?
Algum
criminoso precisou de mandado de busca para entrar na casa que quisesse e fazer
o que bem entendesse com seus moradores, inclusive expulsá-los e tomar conta de
seu imóvel?
Os
bandidos não gozaram de toda a liberdade para obrigar o fechamento do comércio
e das escolas em sinal de luto pela morte ou prisão de um de seus chefetes?
Não é
comum e fartamente registrado pelo mundo afora o desfile de criminosos armados
com armas de guerra pelo centro das favelas, ostentando seu poder bélico e
amedrontando os cidadãos de bem que lá vivem?
Quantos
bailes acabaram com tiroteios, balas perdidas e mortes?
Quantas
instalações policiais foram atacadas e metralhadas impunemente?
Onde
estavam as prestimosas organizações? Defendendo os bandidos e apresentando-os
como pobres coitados, vítimas de uma sociedade injusta e opressora, que tinham
todo o direito de tomar pela força o que não lograram obter pelo estudo e pelo
trabalho honesto.
Por que
agora a preocupação e a acusação por pretensos abusos que, julgam
antecipadamente, serão cometidos pelos arbitrários, violentos e prepotentes
militares?
Hipócritas!
Querem garantir o fracasso da intervenção, para que tudo continue da maneira
que sempre foi, sob seu olhar indiferente e complacente de “defensores dos
direitos humanos”, como lhes convém.
Encerrando:
por que acabar a intervenção em fins de setembro?
Porque as
eleições são no primeiro domingo de outubro. Depois delas, nossos produtivos
políticos, eleitos ou não, poderão votar medidas impopulares, como as mudanças
nas aposentadorias, sem prejuízos imediatos. Já foram pagos pelo serviço.
Assim,
não será mais necessário o cobertor curto e estreito da intervenção para
justificar a suspensão de votações que impliquem alterações constitucionais ou
causem grande desgaste político aos candidatos.
E a
segurança pública no Rio de Janeiro? Ora, na verdade isso não interessa a
ninguém.
Se a
intervenção federal não funcionar, a culpa é dos militares.
Gen Clovis Purper Bandeira

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