Com o passar dos anos, os acontecimentos de ontem nos parecem cada vez menos importantes, esmaecidos na memória e substituídos por outros mais recentes ou mais impactantes para o bem ou para o mal.
Alguns,
porém, por mais distantes que estejam no tempo, não perdem seu fulgor e sua
nitidez, por serem marcos no desenvolvimento das pessoas ou da sociedade.
É disso
que tratamos hoje, ao relembrar na reunião com associados e amigos do Clube
Militar, neste já tradicional encontro, os idos de março de 1964, ponto de
inflexão definitivo na história pátria, que evitou, pela ação desassombrada dos
brasileiros militares e civis que participaram ativamente dos acontecimentos de
então, que nosso país se transformasse, como era e ainda é o desejo de alguns,
numa grande Cuba.
Passados
54 anos, só os mais velhos dos presentes participaram pessoalmente dos fatos;
mesmo assim, em postos e funções próprios de sua, então, pouca idade e
experiência.
Mas os
livros, a palavra dos mais antigos, a imprensa da época, ainda não corrompida
pelo viés esquerdizante do politicamente correto que relativiza e criminaliza
todos os êxitos do bom combate e glorifica todas as agressões dos terroristas e
guerrilheiros que tentavam a tomada do poder pela força, ainda existem em
arquivos públicos e particulares, à disposição dos interessados em conhecer a
verdade de 1964.
Os
desafios enfrentados pelo Brasil no período 1961 – 1964 são solenemente
ignorados nas discussões sobre o assunto. Lembremos rapidamente alguns deles:
- a
renúncia de Jânio Quadros;
- a
tumultuada posse de João Goulart, eleito com o apoio do PCB ilegal;
- a
rápida experiência parlamentarista;
- os
movimentos nacionalista-populistas de João Goulart, Leonel Brizola e Miguel Arraes;
- as
Ligas Camponesas de Francisco Julião e o apoio cubano ao terrorismo rural das
mesmas, que incendiaram engenhos de açúcar no Nordeste e em São Paulo;
- a
viagem de Prestes à União Soviética, buscando apoio de Kruchev para a revolução
comunista no Brasil;
- os
Grupos dos Onze de Brizola, concebidos como base das massas e futuro braço
armado do partido revolucionário;
- as
indefinidas reformas de base, em eterna mutação e grande bandeira do movimento
nacionalista-populista;
- a luta
interna pelo poder entre o nacional-populismo de Jango e a manobra
revolucionária comunista de Prestes;
- o
grevismo descontrolado, fomentado pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT),
organização sindical ligada ao governo e ao PCB, que paralisava o país numa
onda infindável de greves políticas e de solidariedade a outras greves, sob a
omissão interesseira do governo;
- em
1963, a anarquia começa a atingir as Forças Armadas, como comprova a Rebelião
dos Sargentos em Brasília, em 12 de setembro;
-
finalmente, em 1964, os passos finais da tentativa de golpe de estado do
presidente João Goulart, visando à sublevação dos militares e à derrocada final
das instituições democráticas, já tão enfraquecidas – os três acontecimentos
que puseram em cheque a hierarquia e a disciplina, pilares das instituições
militares: o Comício da Central do Brasil, em 13 de março; o Motim dos
Marinheiros, em 25 de março; e a Reunião no Automóvel Clube, em 30 de março.
Poucas
horas depois, a reação dos militares: as tropas começam a descer de Minas Gerais.
A
esquerda golpista, engasgada em sua própria propaganda, acreditou numa força
que não tinha. Vivendo na mentira, intoxicou-se com a mesma e não soube separar
desejos da realidade.
Anos
depois, beneficiados pela anistia, os banidos de 64 voltaram ao país e
organizaram novamente a tomada do poder, conquistando-o pelas urnas e aplicando
no governo a teoria gramscista, para transformar a sociedade e eternizar-se no
poder.
Para tal,
aparelharam a máquina estatal, inchando-a e ocupando-a com seus sequazes.
E
roubaram, roubaram muito, como nunca se vira antes em qualquer lugar.
Como
resultado do saque aos cofres públicos, a Petrobras despencou de oitava maior
empresa do mundo para algum ponto além do 120º lugar.
Outras
empresas estatais e autarquias, loteadas entre a profusão de partidos em busca
da “governabilidade”, também foram levadas à falência, enquanto os partidos e
políticos envolvidos no assalto e protegidos pela impunidade do foro
privilegiado enriqueciam com as propinas pagas por grandes empresas em troca de
favorecimento em licitações, aditivos sem fim aos contratos de obras públicas,
isenções fiscais e legislação convenientemente acertada.
O
escândalo resultou nos processos do Mensalão e da Operação Lava-Jato, que
começaram a passar a limpo o Brasil, sempre enfrentando a resistência da corja
de beneficiados pela corrupção que, bem instalada na máquina pública, tudo faz
para alterar a legislação e safar-se do braço da lei.
Ao
relembrarmos os acontecimentos de 1964, é preciso permanecer atentos às tentativas
de demonizar os patriotas que salvaram a nação do domínio comunista e dos
desonestos que continuam a buscar as benesses do poder a qualquer custo.
Aos que
lutaram em defesa do país em 1964, nossa admiração e respeito; aos que hoje se
empenham em nos livrar dos assaltantes do erário, nosso aplauso e
reconhecimento.
Mas não
nos iludamos. Os ataques aos militares que participaram do duro combate ao
comunismo não cessaram nem cessarão.
Recentemente,
a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, enviou pedido ao STF
solicitando a reabertura do caso Rubem Paiva, com o intuito de retomar a
discussão sobre o alcance da Lei da Anistia e, com certeza, canonizar os
terroristas e criminalizar os agentes da lei e da ordem que os combateram, com
a violência recíproca e necessária.
Na mesma
linha de revisão do passado, uma juíza de Minas Gerais determinou que as praças
e ruas internas das vilas militares da área sob sua jurisdição tenham seus nomes
trocados, no caso de homenagearem autoridades ou combatentes que lutaram o bom
combate e evitaram que nos tornássemos uma grande e miserável Cuba.
Até mesmo
o decreto de intervenção federal meia-sola na segurança pública do Estado do
Rio de Janeiro, onde há “áreas liberadas” sob controle das milícias e dos
traficantes, nas quais a polícia só entra combatendo, não deixa de ser uma
tentativa de jogar as tropas federais numa missão que pode ser impossível,
dependendo do apoio que o interventor tenha de vários órgãos dos três poderes,
não apenas da área da segurança, que estão naturalmente envolvidos no problema
e não estão sob sua autoridade.
Nas
velhas fortificações portuguesas dos tempos coloniais, quando o graduado ou
oficial de ronda se aproximava dos postos das sentinelas, gritava: “Sentinela,
alerta!” – ao que a sentinela respondia: “Alerta estou! ”
Como
então, nós, as sentinelas da Pátria, permaneçamos alertas.
Gen Clovis Purper Bandeira, Editor de Opinião do Clube Militar

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