sábado, 10 de março de 2018

Por que o discurso 'metralhadora' de Bolsonaro ecoa no eleitorado



O deputado Jair Bolsonaro oficializou sua filiação ao PSL (Partido Social Liberal) na noite de quarta-feira (7), em Brasília. O evento ajudou a mostrar um pouco mais do discurso do pré-candidato à Presidência e dos políticos de seu entorno. Bolsonaro, hoje, é o segundo colocado das pesquisas de intenção de voto. O capitão do Exército realizou o evento em uma sala da Câmara. Estava acompanhado de parlamentares de outros partidos, como o senador Magno Malta (PR), cotado para ser seu vice. Todos políticos conservadores, e boa parte integrante da chamada bancada "BBB" - bala, bíblia e boi. Os presentes carregavam bandeiras do Brasil, interrompiam Bolsonaro aos gritos de "mito!" e louvavam a Deus. Quando o direito da população transgênero virou assunto, gritaram "nunca serão [mulheres]". 


A bancada do PSL.
O PSL é um partido pequeno e terá poucos segundos na propaganda eleitoral gratuita de TV e rádio durante a campanha. Além de Bolsonaro, mais sete parlamentares migraram para a sigla na quarta-feira (7), primeiro dia de janela partidária. Agora são 11 os deputados num partido que elegeu apenas um em 2014. A janela partidária é um período em que parlamentares podem trocar de legenda sem o risco de perderem o mandato. O número de adesões ao PSL pode crescer até 7 de abril, quando essa janela se fecha. Esse é o sexto partido da carreira política do capitão, deputado federal desde 1991. O mais recente deles, do qual Bolsonaro acaba de se desfiliar, é o PSC (Partido Social Cristão). 

Abaixo, uma sequência de frases ditas recentemente por Bolsonaro e seus apoiadores. Declarações que poderão se tornar constantes no debate político durante a campanha eleitoral de 2018. 

A ideia 'fundamentalista' 
Ao longo de seu discurso no evento de filiação ao PSL, Bolsonaro reafirmou seu compromisso com demandas que têm lhe garantido excelente colocado na corrida presidencial. Os principais alvos de suas propostas são a segurança pública e a preservação dos "bons costumes". Seu objetivo declarado é fazer o brasileiro voltar a ter "orgulho de sua bandeira". "Só tem uma maneira de essa bandeira ficar vermelha: com meu sangue", disse Bolsonaro. Armamento da população, combate à "ideologia de gênero" e "varrer os esquerdopatas do Congresso" estão na agenda política do pré-candidato. Magno Malta disse que Bolsonaro não é mais de direita, agora ele é fundamentalista. "Um dia, Bolsonaro foi de direita. Hoje é de extrema-direita. Somos fundamentalistas. Se ser extrema-direita e fundamentalista é não roubar dinheiro público, é elogio" 
Magno Malta Senador pelo PR, em evento de filiação de Bolsonaro ao PSL em 7 de março de 2018.

O conceito de 'liberdade' 
O capitão rejeitou, no evento de sua filiação, as alegações de que é autoritário ou antidemocrático. Afirmou que as Forças Armadas, que governaram o Brasil na ditadura militar entre 1964 e 1985, sempre foram "amantes da liberdade e da democracia". O deputado disse que, na sua visão, uma ditadura se concretiza quando o governo "desarma o cidadão", numa referência o Estatuto do Desarmamento em vigor no Brasil. "Temos aqui deputados que são chamados da 'bancada da bala'. Essa bancada vai crescer no ano que vem. 


Queremos os policiais civis, militares. 
Quem sabe será a 'bancada da metralhadora', que mais do que defender a vida, vai defender a liberdade" - Jair Bolsonaro Pré-candidato à Presidência, em evento de filiação ao PSL em 7 de março de 2018 

Ataques à diversidade 
A busca de direitos da comunidade LGBT, da qual Bolsonaro é opositor, também foi mencionada em seu discurso no evento de quarta-feira (7). O deputado disse que não é contra o "homossexualismo" - forma pejorativa de se referir à homossexualidade por equipará-la a uma doença - e até "conhece alguns". Mas casamento entre pessoa do mesmo sexo, para Bolsonaro, é "mania de ativista que quer mudar o que para nós não é normal". "Um pai ou uma mãe preferiria chegar em casa e encontrar o filho com o braço quebrado por ter jogado futebol do que brincando de boneca por influência da escola" - Jair Bolsonaro Pré-candidato à Presidência, em evento de filiação ao PSL em 7 de março de 2018 

Na quinta-feira (8), o capitão foi a Pouso Alegre (MG). Questionado sobre o espaço que as mulheres teriam em seu governo, Bolsonaro sinalizou que igualdade de representação política (por gênero e cor) não é prioridade em seu projeto político. "Não é questão de gênero. Tem que botar quem dê conta do recado. Se botar as mulheres [no governo] vou ter que indicar quantos afrodescendentes?" - Jair Bolsonaro Pré-candidato à Presidência, durante discurso na cidade de Pouso Alegre (MG) em 8 de março de 2018 

A abordagem econômica 
Para tratar de economia, Bolsonaro repetiu que não entende do assunto. Disse que se inspira na experiência econômica dos Estados Unidos e de Israel, países para os quais já viajou desde que decidiu concorrer ao Planalto. "Reconheço que não entendo de economia e é um mérito dizer que eu não sei. Melhor reconhecer do que fazer errado" - Jair Bolsonaro Pré-candidato à Presidência, em evento de filiação ao PSL em 7 de março de 2018 

Apesar de se declarar a favor da privatização de empresas estatais, o pré-candidato declarou que há casos em que o país não pode abrir mão do controle do que é estratégico. Por ora, o principal economista que conversa com Bolsonaro é Paulo Guedes, cotado para o Ministério da Fazenda em um eventual governo do capitão. Em entrevista publicada pelo jornal Folha de S.Paulo em 25 de fevereiro, Guedes defendeu um amplo programa de privatizações - cogitando a venda da Petrobras, por exemplo - e atribuiu a ocorrência de corrupção à existência das estatais. 

A presença de Deus 
Uma das palavras mais repetidas no evento de Bolsonaro foi "Deus". Antes de iniciar seu discurso, o pré-candidato à Presidência pediu para que Magno Malta, que também é cantor gospel, fizesse uma oração. Todos se levantaram, fecharam os olhos, abaixaram a cabeça e rezaram um Pai Nosso. O senador do PR foi o responsável pela maioria das falas religiosas da quarta-feira (7). 


Mas Bolsonaro também abordou o tema. 
O capitão afirmou que seu projeto presidencial é uma "missão de Deus". A projeção eleitoral do deputado Filiado a uma sigla pequena, com poucos recursos e dono de um discurso que pode afastar grandes grupos da população (como mulheres e negros), Bolsonaro segue com destaque nas pesquisas.  

Dois cientistas políticos foram ouvidos a respeito do pré-candidato do PSL. São eles: Vera Chaia, professora de ciência política da PUC-SP José Álvaro Moisés, professor de ciência política da USP. 

Por que o discurso de Bolsonaro encontra tanto espaço no eleitorado? 
VERA CHAIA O primeiro tema do deputado Bolsonaro, segurança pública e violência, é o ponto de debate do momento. Ele vem tratando dessa questão há bastante tempo e acabou ganhando espaço [no eleitorado] por conta da falência de alguns partidos e da dificuldade de algumas lideranças. O caso do Lula é um exemplo [o ex-presidente petista deve ter sua candidatura impugnada por estar enquadrado na Lei da Ficha Limpa], Bolsonaro se projetou em parte por conta da urgência do Lula nesse processo [ao se colocar como um antagonista do petismo]. Tanto é que não importa muito a qual partido ele vai estar filiado para concorrer à Presidência, ele se inscreveu em um partido sem expressão [PSL], mas que com o Bolsonaro consegue ganhar mais projeção. 

JOSÉ ÁLVARO MOISÉS A primeira razão é o fato de que o espaço das outras lideranças está relativamente vazio, não surgiram novos líderes capazes de ocupar esse espaço. A crise não é apenas econômica e política, ela também é uma crise de lideranças. Em um certo sentido, o sistema político brasileiro não tem sido adequado para identificar, estimular e qualificar novas lideranças. Nesse cenário, surge alguém supostamente diferente e ocupa parte do espaço. A segunda razão é a questão da segurança pública, que se tornou extremamente importante nas últimas décadas. Nós estamos em uma crise muito grave, que coloca em risco a vida das pessoas. Como no caso do Rio de Janeiro, a manutenção dos serviços públicos é prejudicada porque uma série de áreas é ocupada pelo crime organizado e milícias. Quando aparece alguém que se dirige a essa questão, para alguns setores da população, que não recebe informação suficiente sobre a implicação das propostas de um candidato como Bolsonaro, o discurso parece atrativo. 


E por que esse apoio é ainda maior entre os ricos? 
VERA CHAIA Na minha leitura, o Bolsonaro muda um pouco o discurso a depender da plateia. Por exemplo, no início dos trabalhos da campanha dele à Presidência e em seus discursos na Câmara, ele defendia o intervencionismo, o Estado forte. Agora, nos últimos eventos que participou com empresários e banqueiros, ele tem falado exatamente o contrário, pregando uma política liberal, de Estado mínimo. E sempre acompanhado por um economista [Paulo Guedes] que propõe um programa de governo para o Bolsonaro nesse modelo mais liberal, de um Estado que não seja interventor e uma economia que se fortaleça pelos setores privados. 

JOSÉ ÁLVARO MOISÉS Há uma questão que foi ignorada no Brasil por muitos anos. Aqui existe população de direita, sempre teve. E essa é uma área [ideológica] na qual os políticos [brasileiros] têm vergonha de assumir com clareza sua identidade. Então, uma parte do eleitorado de direita que é rico, conservador nos costumes, na política, tinha ficado relativamente oculto. As pessoas tinham medo de dizer que eram ou votar na direita. Com a polarização e a intolerância que aumentaram nos últimos anos, houve, em um certo sentido, estímulos para que esse segmento da comunidade política viesse à tona e explicitasse a sua posição. Acredito que isso foi possível, em parte, por conta do fracasso da alternativa de esquerda. Não fracasso no sentido estrito, social, mas na medida em que a esquerda [PT] virou as costas para seus próprios objetivos e adotou métodos das elites mais retrógradas do Brasil, que é usar a corrupção para se fortalecer no poder. Diante disso, os setores de direita que eram tímidos para se manifestar, se sentiram autorizados para vir a públicos e defenderem suas posições. 

A força eleitoral de Bolsonaro deve se manter ao longo de 2018? VERA CHAIA Isso ainda é uma incógnita, porque, além de Ciro Gomes (PDT), que também já assumiu sua pré-candidatura à Presidência, o Bolsonaro é um dos políticos que está percorrendo o Brasil inteiro e chegou até a fazer viagens ao exterior, visitando o Japão. Ele está aproveitando espaço para se fazer conhecer. Então, não sei se nesse momento de mudança de partido eles vão conseguir uma maior representatividade no Congresso e as alianças partidárias ainda não estão sendo feitas. Ainda é incipiente falar do futuro eleitoral do Bolsonaro, mas que ele está criando espaço no processo eleitoral, está. Se o vice-presidente dele for o senador Magno Malta (PR), por exemplo, o Bolsonaro vai ganhar muita projeção entre os evangélicos [Malta é cantor gospel]. E conseguir inserção no eleitorado evangélico provoca um avanço muito grande na quantidade de votos. 

JOSÉ ÁLVARO MOISÉS É provável que as iniciativas do governo Temer na área de segurança pública desidratem, ao menos em parte, as preferências eleitorais em torno de Bolsonaro. Em segundo lugar, é preciso ter em mente que uma candidatura à Presidência da República depende da capacidade de organização, capilaridade e uma estrutura de contatos que os partidos aos quais o Bolsonaro busca apoio não tem. Isso pode dificultar a campanha dele. Agora, tudo depende, na minha opinião, de como os demais candidatos vão se colocar. Um político como Bolsonaro cresce no vazio deixados pelos outros candidatos. Caso algum outro candidato, principalmente de centro, ocupe esse vazio e demonstre para a população que é possível enfrentar os mesmos problemas levantados pelo Bolsonaro com alternativas mais democráticas, que não rejeitam os direitos das minorias e da comunidade LGBT, com mecanismos de consulta ao eleitorado, é possível que o Bolsonaro que perca o apoio que ele aparentemente está tendo. Aparentemente porque nós não sabemos se isso é um apoio efetivo ou uma resposta momentânea que às vezes os entrevistados dão em face de insatisfações conjunturais. Um cidadão pode manifestar apoio ao Bolsonaro em uma conjuntura de grande insatisfação com a política e, depois, durante a campanha eleitoral, aparecer um candidato capaz de recuperar a dignidade da política, apresentando outros caminhos. A campanha e o debate de ideias propriamente ditos ainda não começaram. Existe um espaço de iniciativas e liberdades que podem vir a ser ocupados por outros candidatos se eles forem capazes de mostrar, por exemplo, que a segurança pública é uma prioridade no Brasil e que ela pode ser enfrentada com meios democráticos, eficazes e eficiência. Candidatos, eventualmente de centro, centro esquerda, que conseguirem mostrar isso para a população tem grandes chances de provocar um esvaziamento da candidatura do Bolsonaro.


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