O
deputado Jair Bolsonaro oficializou sua filiação ao PSL (Partido Social Liberal)
na noite de quarta-feira (7), em Brasília. O evento ajudou a mostrar um pouco
mais do discurso do pré-candidato à Presidência e dos políticos de seu entorno.
Bolsonaro, hoje, é o segundo colocado das pesquisas de intenção de voto. O capitão do Exército realizou o evento em uma sala da Câmara. Estava
acompanhado de parlamentares de outros partidos, como o senador Magno Malta
(PR), cotado para ser seu vice. Todos políticos conservadores, e boa parte
integrante da chamada bancada "BBB" - bala, bíblia e boi. Os
presentes carregavam bandeiras do Brasil, interrompiam Bolsonaro aos gritos de
"mito!" e louvavam a Deus. Quando o direito da população transgênero
virou assunto, gritaram "nunca serão [mulheres]".
A bancada do PSL.
O
PSL é um partido pequeno e terá poucos segundos na propaganda eleitoral
gratuita de TV e rádio durante a campanha. Além de Bolsonaro, mais sete parlamentares migraram para a sigla
na quarta-feira (7), primeiro dia de janela partidária. Agora são 11 os
deputados num partido que elegeu apenas um em 2014. A janela partidária é um
período em que parlamentares podem trocar de legenda sem o risco de perderem o
mandato. O número de adesões ao PSL pode crescer até 7 de abril, quando essa
janela se fecha. Esse é o sexto partido da carreira política do capitão,
deputado federal desde 1991. O mais recente deles, do qual Bolsonaro acaba de
se desfiliar, é o PSC (Partido Social Cristão).
Abaixo, uma
sequência de frases ditas recentemente por Bolsonaro e seus apoiadores.
Declarações que poderão se tornar constantes no debate político durante a
campanha eleitoral de 2018.
A ideia 'fundamentalista'
Ao longo de seu discurso
no evento de filiação ao PSL, Bolsonaro reafirmou seu compromisso com demandas
que têm lhe garantido excelente colocado na corrida presidencial. Os
principais alvos de suas propostas são a segurança pública e a preservação dos
"bons costumes". Seu objetivo declarado é fazer o brasileiro voltar a
ter "orgulho de sua bandeira". "Só tem uma maneira de essa
bandeira ficar vermelha: com meu sangue", disse Bolsonaro. Armamento da
população, combate à "ideologia de gênero" e "varrer os
esquerdopatas do Congresso" estão na agenda política do pré-candidato.
Magno Malta disse que Bolsonaro não é mais de direita, agora ele é
fundamentalista. "Um dia, Bolsonaro foi de direita. Hoje é de
extrema-direita. Somos fundamentalistas. Se ser extrema-direita e fundamentalista
é não roubar dinheiro público, é elogio"
Magno Malta Senador pelo PR, em
evento de filiação de Bolsonaro ao PSL em 7 de março de 2018.
O conceito de
'liberdade'
O capitão rejeitou, no evento de sua filiação, as alegações de
que é autoritário ou antidemocrático. Afirmou que as Forças Armadas, que
governaram o Brasil na ditadura militar entre 1964 e 1985, sempre foram
"amantes da liberdade e da democracia". O deputado disse que, na sua
visão, uma ditadura se concretiza quando o governo "desarma o
cidadão", numa referência o Estatuto do Desarmamento em vigor no Brasil.
"Temos aqui deputados que são chamados da 'bancada da bala'. Essa bancada vai crescer no ano que vem.
Queremos os
policiais civis, militares.
Quem sabe será a 'bancada da metralhadora', que
mais do que defender a vida, vai defender a liberdade" - Jair Bolsonaro
Pré-candidato à Presidência, em evento de filiação ao PSL em 7 de março de 2018
Ataques à diversidade
A busca de direitos da comunidade LGBT, da qual Bolsonaro
é opositor, também foi mencionada em seu discurso no evento de quarta-feira
(7). O deputado disse que não é contra o "homossexualismo" - forma
pejorativa de se referir à homossexualidade por equipará-la a uma doença - e
até "conhece alguns". Mas casamento entre pessoa do mesmo sexo, para
Bolsonaro, é "mania de ativista que quer mudar o que para nós não é
normal". "Um pai ou uma mãe preferiria chegar em casa e encontrar o
filho com o braço quebrado por ter jogado futebol do que brincando de boneca
por influência da escola" - Jair Bolsonaro Pré-candidato à Presidência, em
evento de filiação ao PSL em 7 de março de 2018
Na quinta-feira (8), o capitão
foi a Pouso Alegre (MG). Questionado sobre o espaço que as mulheres teriam em
seu governo, Bolsonaro sinalizou que igualdade de representação política (por
gênero e cor) não é prioridade em seu projeto político. "Não é questão de
gênero. Tem que botar quem dê conta do recado. Se botar as mulheres [no
governo] vou ter que indicar quantos afrodescendentes?" - Jair Bolsonaro
Pré-candidato à Presidência, durante discurso na cidade de Pouso Alegre (MG) em
8 de março de 2018
A abordagem econômica
Para tratar de economia, Bolsonaro
repetiu que não entende do assunto. Disse que se inspira na experiência
econômica dos Estados Unidos e de Israel, países para os quais já viajou desde
que decidiu concorrer ao Planalto. "Reconheço que não entendo de economia
e é um mérito dizer que eu não sei. Melhor reconhecer do que fazer errado" - Jair Bolsonaro Pré-candidato à Presidência, em evento de filiação ao PSL em 7
de março de 2018
Apesar de se declarar a favor da privatização de empresas
estatais, o pré-candidato declarou que há casos em que o país não pode abrir
mão do controle do que é estratégico. Por ora, o principal economista que
conversa com Bolsonaro é Paulo Guedes, cotado para o Ministério da Fazenda em
um eventual governo do capitão. Em entrevista publicada pelo jornal Folha de
S.Paulo em 25 de fevereiro, Guedes defendeu um amplo programa de privatizações
- cogitando a venda da Petrobras, por exemplo - e atribuiu a ocorrência de
corrupção à existência das estatais.
A presença de Deus
Uma das palavras mais repetidas
no evento de Bolsonaro foi "Deus". Antes de iniciar seu discurso, o
pré-candidato à Presidência pediu para que Magno Malta, que também é cantor
gospel, fizesse uma oração. Todos se levantaram, fecharam os olhos, abaixaram a
cabeça e rezaram um Pai Nosso. O senador do PR foi o responsável pela maioria
das falas religiosas da quarta-feira (7).
Mas Bolsonaro também abordou o tema.
O capitão afirmou que seu projeto presidencial é uma "missão de
Deus". A projeção eleitoral do deputado Filiado a uma sigla pequena, com
poucos recursos e dono de um discurso que pode afastar grandes grupos da
população (como mulheres e negros), Bolsonaro segue com destaque nas
pesquisas.
Dois cientistas políticos foram ouvidos a respeito do pré-candidato do PSL. São eles:
Vera Chaia, professora de ciência política da PUC-SP José Álvaro Moisés,
professor de ciência política da USP.
Por que o discurso de Bolsonaro encontra
tanto espaço no eleitorado?
VERA CHAIA O primeiro tema do deputado Bolsonaro,
segurança pública e violência, é o ponto de debate do momento. Ele vem tratando
dessa questão há bastante tempo e acabou ganhando espaço [no eleitorado] por
conta da falência de alguns partidos e da dificuldade de algumas lideranças. O
caso do Lula é um exemplo [o ex-presidente petista deve ter sua candidatura
impugnada por estar enquadrado na Lei da Ficha Limpa], Bolsonaro se projetou em
parte por conta da urgência do Lula nesse processo [ao se colocar como um
antagonista do petismo]. Tanto é que não importa muito a qual partido ele vai
estar filiado para concorrer à Presidência, ele se inscreveu em um partido sem
expressão [PSL], mas que com o Bolsonaro consegue ganhar mais projeção.
JOSÉ
ÁLVARO MOISÉS A primeira razão é o fato de que o espaço das outras lideranças
está relativamente vazio, não surgiram novos líderes capazes de ocupar esse
espaço. A crise não é apenas econômica e política, ela também é uma crise de
lideranças. Em um certo sentido, o sistema político brasileiro não tem sido
adequado para identificar, estimular e qualificar novas lideranças. Nesse
cenário, surge alguém supostamente diferente e ocupa parte do espaço. A segunda
razão é a questão da segurança pública, que se tornou extremamente importante
nas últimas décadas. Nós estamos em uma crise muito grave, que coloca em risco
a vida das pessoas. Como no caso do Rio de Janeiro, a manutenção dos serviços
públicos é prejudicada porque uma série de áreas é ocupada pelo crime
organizado e milícias. Quando aparece alguém que se dirige a essa questão, para
alguns setores da população, que não recebe informação suficiente sobre a
implicação das propostas de um candidato como Bolsonaro, o discurso parece
atrativo.
E por que esse apoio é ainda maior entre os ricos?
VERA CHAIA Na
minha leitura, o Bolsonaro muda um pouco o discurso a depender da plateia. Por
exemplo, no início dos trabalhos da campanha dele à Presidência e em seus
discursos na Câmara, ele defendia o intervencionismo, o Estado forte. Agora,
nos últimos eventos que participou com empresários e banqueiros, ele tem falado
exatamente o contrário, pregando uma política liberal, de Estado mínimo. E
sempre acompanhado por um economista [Paulo Guedes] que propõe um programa de
governo para o Bolsonaro nesse modelo mais liberal, de um Estado que não seja
interventor e uma economia que se fortaleça pelos setores privados.
JOSÉ ÁLVARO
MOISÉS Há uma questão que foi ignorada no Brasil por muitos anos. Aqui existe
população de direita, sempre teve. E essa é uma área [ideológica] na qual os
políticos [brasileiros] têm vergonha de assumir com clareza sua identidade.
Então, uma parte do eleitorado de direita que é rico, conservador nos costumes,
na política, tinha ficado relativamente oculto. As pessoas tinham medo de dizer
que eram ou votar na direita. Com a polarização e a intolerância que aumentaram
nos últimos anos, houve, em um certo sentido, estímulos para que esse segmento
da comunidade política viesse à tona e explicitasse a sua posição. Acredito que
isso foi possível, em parte, por conta do fracasso da alternativa de esquerda.
Não fracasso no sentido estrito, social, mas na medida em que a esquerda [PT]
virou as costas para seus próprios objetivos e adotou métodos das elites mais
retrógradas do Brasil, que é usar a corrupção para se fortalecer no poder.
Diante disso, os setores de direita que eram tímidos para se manifestar, se
sentiram autorizados para vir a públicos e defenderem suas posições.
A força
eleitoral de Bolsonaro deve se manter ao longo de 2018? VERA CHAIA Isso ainda é
uma incógnita, porque, além de Ciro Gomes (PDT), que também já assumiu sua
pré-candidatura à Presidência, o Bolsonaro é um dos políticos que está
percorrendo o Brasil inteiro e chegou até a fazer viagens ao exterior,
visitando o Japão. Ele está aproveitando espaço para se fazer conhecer. Então,
não sei se nesse momento de mudança de partido eles vão conseguir uma maior
representatividade no Congresso e as alianças partidárias ainda não estão sendo
feitas. Ainda é incipiente falar do futuro eleitoral do Bolsonaro, mas que ele
está criando espaço no processo eleitoral, está. Se o vice-presidente dele for
o senador Magno Malta (PR), por exemplo, o Bolsonaro vai ganhar muita projeção
entre os evangélicos [Malta é cantor gospel]. E conseguir inserção no
eleitorado evangélico provoca um avanço muito grande na quantidade de votos.
JOSÉ ÁLVARO MOISÉS É provável que as iniciativas do governo Temer na área de
segurança pública desidratem, ao menos em parte, as preferências eleitorais em
torno de Bolsonaro. Em segundo lugar, é preciso ter em mente que uma
candidatura à Presidência da República depende da capacidade de organização,
capilaridade e uma estrutura de contatos que os partidos aos quais o Bolsonaro
busca apoio não tem. Isso pode dificultar a campanha dele. Agora, tudo depende,
na minha opinião, de como os demais candidatos vão se colocar. Um político como
Bolsonaro cresce no vazio deixados pelos outros candidatos. Caso algum outro
candidato, principalmente de centro, ocupe esse vazio e demonstre para a
população que é possível enfrentar os mesmos problemas levantados pelo
Bolsonaro com alternativas mais democráticas, que não rejeitam os direitos das
minorias e da comunidade LGBT, com mecanismos de consulta ao eleitorado, é
possível que o Bolsonaro que perca o apoio que ele aparentemente está tendo.
Aparentemente porque nós não sabemos se isso é um apoio efetivo ou uma resposta
momentânea que às vezes os entrevistados dão em face de insatisfações
conjunturais. Um cidadão pode manifestar apoio ao Bolsonaro em uma conjuntura
de grande insatisfação com a política e, depois, durante a campanha eleitoral,
aparecer um candidato capaz de recuperar a dignidade da política, apresentando
outros caminhos. A campanha e o debate de ideias propriamente ditos ainda não
começaram. Existe um espaço de iniciativas e liberdades que podem vir a ser
ocupados por outros candidatos se eles forem capazes de mostrar, por exemplo,
que a segurança pública é uma prioridade no Brasil e que ela pode ser
enfrentada com meios democráticos, eficazes e eficiência. Candidatos,
eventualmente de centro, centro esquerda, que conseguirem mostrar isso para a
população tem grandes chances de provocar um esvaziamento da candidatura do
Bolsonaro.

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