quarta-feira, 28 de março de 2018

Me chamo Soldado Felipe Mesquita.



São 20:25 e me encontro aqui escondido atrás de uma geladeira velha. O tiro que atingiu meu abdômen está me matando.............Estou perdendo os sentidos............Por que está tudo tão escuro?

Enquanto sinto que estou morrendo penso o porquê estou aqui me escondendo feito um criminoso? Sei que dificilmente meus parceiros irão chegar rápido. Assim como eu, eles correm o risco de ter o corpo perfurado por um tiro de fuzil.


Fuzil? Nossa, os traficantes não estão mesmo para brincadeira! Ainda espero resgate........Também espero a qualquer momento que os bandidos me encontrem aqui e terminem de arrancar o meu ultimo respiro.

Será que alguém vem me buscar?

Os tiros não param, estou imaginando que em poucos segundos posso ser o trigésimo terceiro policial a ser morto no Estado do Rio de Janeiro este ano. Tenho pouco tempo, não sei como será para minha família receber a noticia que eu morri. Alguém vai lá falar com eles? Algum apoio? Algum.... Direito?! Hh, minha mãe foi sempre tão preocupada com esta minha vida policial....Mas eu jurei a Bandeira....Jurei amar a Pátria, cuidar do próximo....Cuidar até mesmo desse criminoso que disparou em minha direção.

É, essa farda tá custando caro....Estou deixando meu sangue na batalha. Mas quantos já deixaram e nada aconteceu? Calma....Estou ouvindo alguns passos, mas não tenho forças para reagir....Agora um vulto se aproxima e meu parceiro de batalhão chega para me salvar. Nossa! Estava tão frio ali....Estou entrando na viatura de resgate, mas ainda sinto frio.


Porque aparam as luzes? Já não ouço mais ninguém! Me ajudem....Eu não posso morrer agora! Há poucos minutos estava protegendo a sociedade....Cadê a minha proteção? Agora sei que tudo acabou....Estou me juntando a um batalhão de anjos fardados que se foram numa luta sem fim. Sei que não vão lembrar meu nome.


Terá algum protesto contra minha morte? Os direitos não são iguais? Cadê o meu? Dos meus amigos? De todos que estão aqui em cima e perderam essa batalha covarde?


Por aqui está tudo em paz! Encontrei o Marechal, um morador da comunidade que morreu também por um tiro de fuzil que veio do alto do morro, estávamos a poucos metros de distancia um do outro quando fomos atingidos. Daqui rezamos por vocês que ficaram.

É amigos....A farda anda pesada demais!


Para quem não me conhece, me chamo soldado Felipe Mesquita e fui morto por traficantes da Rocinha no dia 21 de março de 2018.

Texto da Jornalista Lilliany Nascimento


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