O Wall Street Journal destaca que no
Brasil está ressurgindo o conservadorismo e consolidando um novo capítulo na
América Latina diante dos escândalos de corrupção envolvendo os partidos
socialistas.
(Por Samantha Pearson para o Wall Street Journal. Tradução:
Expresso Nacional) NIOAQUE, Brasil – Parece uma cena do Marlboro Country.
Criadores de gado conduzem suas picapes Chevy ao rodeio local. Vaqueiros de
jeans desbotados entretêm as multidões.
Na verdade, é o coração conservador do Brasil, a 14 horas de
carro da praia mais próxima e a um mundo de distância da reputação do país de
hedonismo liberal.
Durante grande parte dos últimos 15 anos, os conservadores
brasileiros assistiram à ascensão do socialismo nesta nação de dimensões
continentais com inquietação. Eles viram fazendeiros serem presos aqui por
defenderem suas terras contra tribos indígenas; eles recuaram como casais do
mesmo sexo estrelavam suas novelas favoritas; e eles resmungaram no clube de
tiro local sobre altos impostos, alta criminalidade e escândalos de corrupção
em duas presidências sucessivas de esquerda.
“Já é hora de trazer de volta alguns costumes para este país”,
disse Francisco Lima, 71 anos, dono de uma farmácia, enquanto sua esposa,
Maria, se levantava da cadeira de vime para buscar limonada caseira aqui na
pacata cidade de Nioaque. “O Brasil é invadido por criminosos e políticos
corruptos”.
O conservadorismo está voltando aqui. Isso já está se
desenrolando na batalha pela saúde das mulheres e pela política, religião e
artes.
A mudança para a direita no Brasil – lar de cerca de metade da
população e da riqueza da América do Sul – acelera uma tendência continental
que leva os países a se afastarem do socialismo desde o fim do boom de
commodities liderado pela China. Enquanto os cofres do governo secavam, a
chamada “maré rosa” dos governos esquerdistas começou a diminuir, começando com
a eleição de 2015 na Argentina de Mauricio Macri, um empresário de
centro-direita.
A prisão no sábado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
um ícone esquerdista que foi condenado no ano passado por corrupção, marcou uma
nova baixa para o socialismo latino-americano e efetivamente o afastou da
disputa nas eleições presidenciais de outubro.
Enquanto isso, o Brasil está testemunhando a ascensão política
de um capitão do Exército que virou congressista chamado Jair Messias
Bolsonaro, que fala com carinho da "ditadura" de 1964-1985 do país, na qual ele
serviu uma vez. O nacionalista de olhos azuis, cujo nome do meio significa
“Messias”, é um cristão devoto que foi recentemente batizado no rio Jordão. Aos
63 anos, ele está concorrendo à presidência em uma plataforma pró-arma,
antiaborto e antidireitos dos homossexuais
O clima político nacional é volátil demais para considerá-lo o
favorito, embora as pesquisas mais recentes mostrem que ele tem cerca de 20%
dos votos, perdendo apenas para Lula. Mas dentro e nos arredores de Nioaque,
onde Bolsonaro esteve brevemente nas forças armadas na década de 1980, ele é
visto como o único político capaz de enfrentar os bandidos na rua e nos
corredores do poder.
“O Brasil precisa de uma figura paterna furiosa para ensinar uma
lição a todos”, disse Joyce Vilagre Vieira, uma advogada de 26 anos em Dois
Irmãos do Buriti, duas horas de carro ao norte de Nioaque.
Dois fenômenos principais estão impulsionando a mudança
conservadora. O primeiro é o surgimento do cristianismo evangélico. Agora
compreendendo um terço dos brasileiros, os evangélicos estão em vias de superar
os católicos em 2035, segundo o instituto de pesquisas Datafolha. A segunda é a
crescente exasperação com a ilegalidade, da corrupção a uma taxa de homicídios
tão alta que mais de 61.000 pessoas são mortas aqui a cada ano, um número que
acabaria com Cincinnati em cinco anos.
“Quando há medo, os aspectos conservadores da sociedade
brasileira são expressos com mais força e, mais uma vez, essa sensação de medo
voltou”, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um centrista
político, em uma entrevista.
A ditadura militar do Brasil, liderada por generais de
mentalidade conservadora, nasceu em grande parte do medo do comunismo. Desta vez,
muitos brasileiros temem o crime e a instabilidade política como resultado da
corrupção, enquanto outros temem a invasão de valores culturais liberais.
Desde o fim do regime militar em 1985, “conservador” foi uma
palavra suja aqui, disse Bruno Garschagen, um cientista político e autor.
Nenhum dos 35 partidos políticos do Brasil tem a palavra em seu nome. Nenhum
presidente jamais se atreveu a falar sobre o combate ao crime por medo de ser
rotulado como opressor.
“Até recentemente, a esquerda basicamente dominava o debate
político e cultural”, disse Garschagen, um dos geradores conservadores que
enchem estantes e blogs.
Mas os tempos estão mudando. O presidente Michel Temer
recentemente ordenou que os militares assumissem o controle da segurança
pública em um estado carcerário do Rio de Janeiro, a primeira intervenção desse
tipo em 33 anos de democracia. O Brasil, cujo lema “Ordem e Progresso” está
estampado em sua bandeira, agora está lutando contra o caos, disse ele.
A esquerda do Brasil, uma vez vista como moralmente superior,
tem sido manchada por seus laços com o governo autoritário da Venezuela, bem
como pelo vasto escândalo de corrupção desmantelado pela Operação Lava-Jato que
enredou Lula e seus rivais. “As pessoas que sempre defenderam valores conservadores
agora se sentem fortalecidas”, disse Matias Spektor, da Fundação Getulio
Vargas, em São Paulo. Aqui, o fenômeno é chamado de “conservadores saindo do
armário”.
E cada vez mais, os conservadores estão flexionando seus
músculos políticos.
O bloco evangélico do Brasil no Congresso, representando um
sexto dos deputados da câmara baixa, desempenhou um papel central no
impeachment de 2016 da presidente de esquerda Dilma Rousseff, sucessora
escolhida pelo Sr. da Silva. Juntamente com outros conservadores, eles formam o
lobby estilo “Bíblia, Boi e Bala” que ajudou a sua substituição, Sr. Temer, a
permanecer no poder, em parte em troca de afrouxar os controles sobre
exploração madeireira e pecuária na floresta amazônica.
Projetos conservadores para relaxar as rigorosas leis de armas
do Brasil, reduzir a idade de responsabilidade criminal de 18 para 16 anos e
proibir o aborto, mesmo em casos de estupro, estão ganhando força no Congresso.
Em setembro, um juiz federal em Brasília revogou uma decisão de 1999 que
proibia os psicólogos de oferecerem “terapia de conversão” gay, aumentando o
temor entre os ativistas de que outros tribunais apoiarão a prática
controversa.
Grupos evangélicos vêm promovendo uma guerra cultural em todo o
país, forçando o Santander Bank, em setembro, a encerrar uma exposição sobre
diversidade sexual. Uma multidão enfurecida encenou um protesto violento
durante uma recente visita da filósofa americana Judith Butler, teórica de
gênero, queimando-a em efígie e chamando-a de “bruxa”. O Brasil agora ostenta
lojas de moda evangélicas, sites de namoro, cruzeiros e videogames sem pecado.
Como a divisão nos EUA, a ascensão do Brasil conservador tem
cidadãos liberais no limite. Eles se preocupam com o movimento para a direita
em um país que está entre os mais desiguais do mundo, tem racismo profundamente
arraigado e só recentemente começou a pressionar pelos direitos das mulheres e
das minorias.
“Todo mundo que conheço está em pânico”, disse Daniel Ribeiro,
diretor de cinema brasileiro cujo último filme conta a história de um casal
transexual. “Mesmo que Bolsonaro não vença, o Brasil parece estar voltando
nessa direção.”
O Brasil está mais preocupado do que nunca com a lei e a ordem.
Mais da metade de todos os brasileiros querem introduzir a pena de morte e
quase 40% apoiariam um golpe militar para combater o crime endêmico e a
corrupção, de acordo com os respectivos estudos do instituto de pesquisas de
dados Datafolha e da Universidade de Vanderbilt.
No geral, o instituto brasileiro Ibope descobriu que 54% dos
brasileiros exibiram um alto nível de conservadorismo em 2016, comparado com
49% em 2010. Calcula seu “Índice de Conservadorismo” através de uma mistura de
perguntas perguntando aos entrevistados como se sentem sobre a introdução da
pena de morte, reduzindo a idade de responsabilidade criminal, prisão perpétua
sem liberdade condicional por crimes hediondos, bem como legalização do aborto
e casamento entre pessoas do mesmo sexo, que atualmente é legal.
A virada para o lado direito do Brasil é particularmente
impressionante porque o país há muito tempo engana o resto do mundo ao pensar
que é um paraíso permissivo, disse Rubens Ricupero, ex-ministro das Finanças e
ex-embaixador dos EUA.
“Mas muitas pesquisas de opinião pública mostram que a atitude
básica predominante no Brasil é muito conservadora”, disse Ricupero.
Alguns no Brasil comparam o Sr. Bolsonaro ao presidente dos EUA,
Donald Trump. Como o líder americano, Bolsonaro tem cinco filhos e agora é
casado com sua terceira esposa, mas faz campanha como defensor da família
tradicional.
Suas explosões – incluindo uma vez dizendo a uma legisladora do
sexo feminino que ela não era bonita o suficiente para estuprar – são muitas
vezes elogiadas como um sinal de honestidade. E muitos brasileiros vêem essa
característica como uma qualidade muito necessária em Brasília, onde mais de um
terço dos membros do Congresso estão sob investigação por crimes que vão desde
tentativa de homicídio até corrupção.
“Para ser uma grande nação, o Brasil precisa de um presidente
honesto, cristão e patriota”, disse Bolsonaro no Congresso no ano passado, ao
votar para colocar o presidente Temer em julgamento por corrupção – uma moção
que fracassou. Mesmo agora, em seu sétimo mandato como deputado federal,
Bolsonaro continua impecável devido aos grandes escândalos do país.
Em toda a savana empoeirada do Brasil, esse tipo de conversa
ressoa entre os eleitores.
Igrejas já estão reformando a sociedade aqui, preenchendo o
sistema de saúde pública sem dinheiro, financiando centros de reabilitação para
viciados em drogas viciados em cocaína boliviana. No The Life Squad, uma
fazenda perto da cidade de Batayporã, dezenas de homens trabalham para se
limpar e aprender o evangelho.
Kalil Nimer, pastor evangélico do centro, descreveu um cliente
como um “ex-homossexual”.
“Agora ele me diz: ‘Pastor, eu sou um homem, eu não sou mais um
deles’ e ele ora por uma esposa”, disse Nimer. “Essas coisas nos gratificam”.
Nas estradas empoeiradas do estado de Mato Grosso do Sul, os
ventos violentos levantam a terra vermelha, tão rica que ajudou a transformar
este e um estado vizinho em um celeiro responsável por mais de 10% da soja do
mundo. Não há sinal de celular. Shows apresentados por televangelistas dominam
as ondas do rádio, dedicando baladas gospel a caminhoneiros solitários.
No próximo campo de tiro da cidade, os moradores locais são
igualmente nostálgicos pelo passado. A democracia e o “absurdo dos direitos
humanos” trouxeram a ilegalidade, disse Breno Muniz de Oliveira, um policial e
entusiasta das armadilhas. Os paraguaios freqüentemente cruzam a fronteira e
roubam equipamentos agrícolas, disse ele, e uma lei de 2003 restringindo a
posse de armas tornou quase impossível para os civis possuírem armas de fogo.
“Cidadãos honestos não podem se defender, mas os criminosos
agora têm acesso a armas de guerra”, disse ele. “Precisamos mudar o paradigma.”
Até mesmo as pessoas que votaram no passado para o Partido dos
Trabalhadores, de esquerda de Lula, disseram que sua maior prioridade é ser
dura com o crime.
Antonio Serra, taxista de Dois Irmãos do Buriti, ainda fala com
carinho do governo de Lula, que se beneficiou do boom de commodities liderado
pela China. Mas ele se preocupa com o crime. Assim com o Sr. da Silva fora da
corrida, o Sr. Serra vai escolher o Sr. Bolsonaro. Pesquisas sugerem que cerca
de um em dez partidários da Silva faria o mesmo, e até 40% no Rio.
“Eu quero possuir uma arma?” Ele pergunta incrédulo. “Inferno,
eu quero uma metralhadora debaixo da minha cama!”


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