sexta-feira, 11 de maio de 2018

Sob o domínio do inimigo.



Três meses antes de tomar o tiro que mudou o rumo da minha vida, eu recebia a notícia da morte do Amâncio, irmão de turma de formação. Nós nos denominamos os 51 voluntários, por sermos os únicos do nosso concurso que ousaram passar pelo curso no Batalhão de Choque. Enfim, não é nisto que estou pensando.
Naquele dia eu estava saindo de serviço, e soube do que acontecera pelo grupo de whatsapp da turma, que por acaso verifiquei quando parei num semáforo. Cheguei em casa, deixei equipamentos, peguei minha mulher e fomos para o Hospital do Andaraí, para onde Amâncio fora levado.
Estávamos quase todos os 51 lá. Reunimo-nos numa área aberta, próxima a uma cantina, e tentávamos encontrar o que dizer uns aos outros. Sabíamos que ele dera entrada no hospital já sem vida, mas parecia que ninguém estava muito disposto a acreditar naquilo. Ora, fazíamos brincadeiras com as histórias que vivemos juntos durante o curso, ora falávamos em vingança, ora chorávamos. Até o momento em que fomos autorizados a vê-lo. Estava lá, imóvel, sem a vitalidade típica de um homem da sua idade. Dali em diante, nada! Só um silêncio sepulcral e a atmosfera de uma dor insuportável que desabava sobre todos nós.
Foi uma maneira estúpida de deixar a vida. Não por sua culpa, mas pelas circunstâncias em que lhe encontrou a morte: Um tiro na testa, disparado a esmo por um desgraçado, como quem taca uma pedra em alguém pra assustar e foge, numa missão fracassada de levar pacificação a um lugar cujo domínio, sabidamente por todos e com a conivência de todos, pertence ao inimigo.
Eu acho mesmo é que o fato do Amâncio ter sido o primeiro de nós a sucumbir nessa batalha inglória nos trouxe à tona a realidade horrível em que se tornou nossas vidas, desde o momento em que a juramos diante do pavilhão nacional. É uma realidade horrível sim, não por conta da morte em si, mas pelo solene desprezo pela nossa própria natureza humana. “Foi mais um verme”; é assim que dizem os francos com a língua e os hipócritas em seus corações.
Jamais passou pela minha cabeça a ideia de que, passados três meses, eu poderia ter sido a segunda vítima fatal dentre nós. Aliás, nós fizemos esta pergunta retoricamente lá no Jardim da Saudade, mas, verdadeiramente, ninguém se imagina numa situação como esta. Do contrário, não haveria quem tivesse coragem suficiente para envergar esta farda.
É, eu acho que é nisso que estou pensando: Ninguém imagina o fardo que é ter a vocação para entregar a vida e tudo o mais em nome da paz e do bem comum. Dentro ou fora da corporação, ninguém imagina.
Só aqueles que nasceram pra isto.
Que Deus nos proteja, porque os covardes só se multiplicam.
Força e Honra.

Texto do Sgt Roberto Santa Rosa, que teve a perna amputada por um tiro de fuzil quando sua viatura foi atacada por um bonde de marginais! Estamos juntos amigo! 
#Emocionante
#Verdadeiro



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