sexta-feira, 6 de julho de 2018

PCC ajuda Alckmin, mas também pode derrubá-lo.


“É muita mídia”, foi o que disse Walter Braga Netto ao ser questionado se a situação do Rio de Janeiro estava de fato tão caótica, tão ruim quanto parece.
O general do Exército, nomeado interventor para a Segurança Pública do Estado, que ninguém queria deixar abrir a boca (no dia da apresentação as perguntas dirigidas a ele eram respondidas pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann, e pelo ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Sergio Etchegoyen), quando falou, disse o que certamente a facção de Michel Temer não queria que dissesse.
Braga Netto escancarou que a medida é evidentemente política e fraca de embasamento técnico. E que ‘a mídia’ ajudou a fomentar o clima de guerra, endossada pela opinião pública moldável.
Guerra que todos sabemos contra quem, uma vez que apenas moradores das favelas estão passando pelo constrangimento de ser fotografados e fichados. Pergunta: nos outros bairros não moram criminosos? Filhos de desembargadores que atuam no tráfico, vivem onde?
A finalidade da ação é eleitoreira e o presidente está colhendo seus 15 minutos de popularidade.
Da mesma forma, o governador paulista Geraldo Alckmin irá utilizar (aliás, já está fazendo uso) desse tema para se vender como presidente. Demonstrando, porém, um cenário às avessas do carioca. Divulgando resultados favoráveis de queda no número de homicídios.
‘Muita mídia’, diria Graham Willis, professor da Universidade de Cambridge (Inglaterra), autor de um estudo chamado ‘hipótese PCC’, que revelava a queda do índice muito mais em decorrência de um controle maior do PCC sobre certas regiões do que uma ‘vitória’ da inteligência e policiamento tucanos.
Willis confrontou Alckmin no auge do melhor índice apresentado pelo governador. Corria o ano de 2016 e Alckmin informava ter alcançado a menor taxa de homicídios em 20 anos. O índice do ano anterior (2015) tinha ficado em 8,73 por 100 mil habitantes.
“Isso não é obra do acaso. É fruto de muita dedicação. Policiais morreram, perderam suas vidas, heróis anônimos, para que São Paulo pudesse conseguir essa conquista”, declarou o governador naquele 2016 que teve um considerável aumento (foi de 11,7 por 100 mil habitantes).
Willis havia realizado um estudo aprofundado, acompanhara a rotina de policiais do DHPP durante 4 anos, teve acesso a documentos do PCC apreendidos e visitou diversas comunidades em periferias. O estudo concluiu que a forte queda naquele ano havia se dado em razão de um maior controle, uma ‘ordem na casa’ dada pela facção criminosa. Atuando em áreas onde o Estado não chega, o ‘clima de guerra’ apaziguou.
A regulação do PCC é o principal fator sobre a vida e a morte em São Paulo. O PCC é produto, produtor e regulador da violência (…) A queda foi tão rápida que não indica um fator socioeconômico ou de policiamento, que seria algo de longo prazo. Deu-se em vários espaços da cidade mais ou menos na mesma época. E não há dados sobre políticas públicas específicas nesses locais para explicar essas tendências”, disse o canadense.
Rio de Janeiro e São Paulo não estão em patamares tão distantes quanto quer nos fazer crer Alckmin. Se o Rio é o campeão em número de mortes violentas, São Paulo não fica muito atrás, é o terceiro colocado (Salvador detém a medalha de prata). E no quesito mortes por 100 mil habitantes também são vizinhos: o Rio está na vigésima primeira colocação, São Paulo em vigésimo sétimo.
Esses números bem representam o que significa a intervenção militar no Rio. Há outras 20 cidades com índices muito piores que os de Rio e São Paulo.
Quando da divulgação do plano, Raul Jungmann afirmou que a intervenção federal na segurança do Estado não representava uma intervenção militar e que o general Braga Netto não tinha ‘carta branca’. Ok, por que então não nomearam um civil?
Alckmin fará campanha alertando que não precisou recorrer às forças armadas para ter sucesso no combate ao crime. Não precisou. Segundo Graham Willis, quem deu uma forcinha foi o PCC mesmo.

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