terça-feira, 7 de agosto de 2018

Senhora Jornalista Míriam Leitão


A senhora, creio eu, tem mais ou menos a minha idade (já vou com 65). Então há de se lembrar que, na nossa infância, eram muito populares as revistas de piadas. Eram, na realidade, revistas de "charges", que os editores buscavam de publicações do mundo inteiro. Uma das "charges" de que me lembro – e olhe que lá se vão mais de 50 anos – mostrava uma festa em que aparecia sentado um homem nu, com uma cartola em que estavam estampadas as bandeiras americana e soviética e tendo ao lado um totem, aquele símbolo religioso dos aborígenes americanos. Havia um diálogo entre duas mulheres, uma dizendo à outra: "A conversa dele é bem agradável, desde que não se fale de sexo, religião ou política".

Acredite, Sra. Míriam Leitão, a senhora me faz lembrar o cidadão da história acima num aspecto: sua conversa é extremamente agradável, desde que não tratemos do regime militar. Aí a senhora – perdoe-me pela franqueza – "perde as estribeiras" e não tem a menor cerimônia em dizer todo tipo de inverdades. E a senhora teve a oportunidade de destilar esse ódio na recente entrevista ao candidato Jair Bolsonaro. Numa das suas intervenções, a senhora declarou que o governo militar legou ao Brasil a hiperinflação, que só seria debelada pelo governo civil depois de 10 anos.

A senhora, que se intitula jornalista de economia, sabe que a inflação no Brasil foi baixa até 1957, quando passou a subir em função dos gastos do governo Kubitschek, mormente para a construção de Brasília. Os desmandos do governo Jango levaram o índice a mais de 90% anuais em 1964. Cinco anos mais tarde, eles caíam para 20%, o que ainda é alto, mas representou um esforço notável. É inegável que em 1984, o último ano completo do regime militar, a inflação superou os 200%. Vamos lembrar que os anos 1980 foram anos de inflação alta no mundo, em função dos choques do petróleo de 1973 e 1979. Mas 200% é um número pavoroso, sem sombra de dúvida. Que tal comparar a "performance" da Nova República com a de 20 anos antes? Pois é, cinco anos depois de 1984, a inflação se aproximava de 1800%. Mais quatro anos, e se chegava a perto de 2500%. Quem legou hiperinflação a quem?


D. Míriam, eu li a respeito da pavorosa experiência da senhora quando foi presa pelos militares. Eu juro pela felicidade das minhas filhas e netas que, se fosse eu o seu carcereiro, a senhora jamais teria passado por um calvário daqueles. Mas, por favor, nunca queira dar a entender que a senhora, com apenas 19 anos, era meramente uma estudante que ia de casa para a escola e da escola para casa, cuja única preocupação era o bem-estar do bebê que carregava no ventre e que foi escolhida por acaso para ser torturada. Senhora jornalista, por essa época eu era um dentre 220 estudantes de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco. Nenhum desses 220 foi preso, torturado, aliás, nem mesmo detido para averiguações. Formados, a maioria deles conseguiu cargos públicos, na administração direta ou em estatais. E a senhora vai tentar convencer-me de que todos eles aplaudiam de pé o Gen. Médici ou o Gen. Geisel? É também sabido que, naqueles tempos, havia muitos conhecidos "comunistas de carteirinha", que tinham livre trânsito e eram até prestigiados. Preciso lembrar-lhe de João Saldanha? Jorge Amado? Mário Lago? E de tantos outros, anônimos ou quase-anônimos?

Respeito, D. Míriam, o direito da senhora de se sentir magoada com o regime militar. Mas, como jornalista que se empenha em divulgar a verdade, não lhe dou o direito de falsear a História. A senhora há de se lembrar que, no início de 1964, a senhora escreveu em sua coluna d'O Globo que "o período militar foi todo ruim". Todo ruim, para mim e para qualquer pessoa, significa que tudo o que ele deixou tinha de ser mudado urgentemente. Mas por que deixaram o Banco Central, o FIES (que é o antigo Crédito Educativo), o Funrural, o FGTS e até o horário eleitoral gratuito? Não, D. Míriam, o período militar não foi, nem de perto, "todo ruim". Mas a senhora, ao ler atabalhoadamente um editorial de 2013 em que a Globo dizia ter errado em apoiar a Revolução de 1964, que contradizia a opinião que o Sr. Roberto Marinho manteve pelo menos até 1984, prestou a si mesma um desserviço. No meu modesto entendimento, quem a via como uma comentarista isenta e imparcial, terá agora o direito de enquadrá-la entre aqueles que tacham Pinochet de assassino, mas Fidel Castro e Che Guevara "eliminavam os inimigos da ideologia certa". A senhora, até onde eu saiba, era comunista. E deveria saber do "paredón" de Cuba, dos "gulag" de Stalin e dos outros ditadores soviéticos, das barbaridades da Revolução Cultural de Mao, dos assassinatos em massa de Pol Pot. Hoje, eu tenho certeza, a senhora condena essas atrocidades. 


Todo mundo é assim, D. Míriam. Muitas coisas pelas quais eu mataria (eufemisticamente, por favor) há 40 anos, não me interessam mais; eventualmente, sou até contra elas. Mas a senhora ainda guarda um rancor contra os militares, talvez até os de hoje. Permita-me contar-lhe uma história. Quando estudamos na Inglaterra, minha mulher tinha uma colega dita "de esquerda". Conversando conosco, ela perguntou se conhecíamos algum coronel pois, quando voltasse ao Brasil, seu filho mais velho estaria na idade de se alistar e ela queria evitar que ele servisse "porque ela tinha horror a fardas". E minha mulher, calmamente, retrucou: "Engraçado, e você endeusa Fidel Castro, que só anda fardado. Você só tem raiva das fardas brasileiras?" Pano rápido!


Eu, como milhões, assisti até o fim a entrevista com o Cap. Bolsonaro. Confesso que fiquei desapontado com a atitude da maioria dos entrevistadores, que estavam mais interessados em desqualificar o candidato do que em permitir que ele expusesse seu ponto de vista. E a leitura do editorial de 2013 foi, além de uma descortesia sem tamanho, um desastre. 


Fique certa de que sua carreira será marcada pelo episódio. Como diziam antigamente, a senhora poderia dormir sem essa. Agora, como hoje tudo no Brasil é obscuro e nunca se sabe o que está por detrás das coisas, se a intenção era "levantar a bola" do candidato, devo dar à senhora e aos seus colegas os mais sinceros parabéns.

Atenciosamente,
Heldio Villar"

5 comentários:

  1. Miriam Leitão poderia ter dormido sem essa também

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  2. Parabéns Sr Heldio. Ja lu muitas coisas s/O desastre cometido p/ela porém, as verdades ditas p/Sr foram excelentes. E preciso mostrar a eles, jornalistas, que não E essa a maneira correta de se fazer entrevistas. O Sr colocou a todos em seus devidos lugares. Vou compartilhar o q o Sr escreveu.

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  3. Perfeito, parabéns Sr. Heldio, sera que ela vai entender ou vai querer que desenhe?

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  4. Perfeito Sr.Heldio, sera que ela vai entender ou quer que desenhe?

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