sexta-feira, 5 de julho de 2019

A ÁGUIA



A águia alçou voo e pairou sobre os prados verdes do campo, os olhos fixos em um único ponto.
O homem tirou os olhos do rio ao ouvir os gritos da águia, e voltou-se em sua direção, um olhar distraído, quase displicente.
Os olhos dos dois se cruzaram, criaram um laço invisível que não mais se quebrou até que ela pousasse em seu ombro nu.
Ela era tão grande, que o pescador vergou sob o peso, sorridente, o que a fez passar para o chão, ao seu lado.
Naquele momento começou o diálogo mudo.
A águia perguntou ao homem a razão de sua aflição, eis que a pesca nada mais era do que a busca de paz em sua cabeça, já cansada pelo peso das aflições.
Ele olhou firme para ela, os olhos marejados e tristes, e gritou para dentro de si mesmo, sabendo que a águia o ouviria:
- Eu lutei, lutei todos os dias dos últimos anos, para mudar o mundo à minha volta. Consegui espanar a poeira que embotava a visão de todos, consegui até mesmo que uma fresta de luz penetrasse na escuridão das nuvens, permitindo aos homens ver o que até então era invisível, mas... Não consegui que os mesmos homens, libertos das trevas, se virassem agora para a luz. Acho que a luz, por ter estado ausente por tanto tempo, incomoda os olhos dos homens, acostumados à escuridão. É por isso que estou triste, e – pior – desanimado.
A águia empinou o peito, abriu as asas enormes para acolher o homem em seu abraço, e pensou, no diálogo mudo:
- A luz machuca os olhos de quem viveu a escuridão, meu amigo, mas ela sabe que o homem não pode senti-la de uma só vez. Mas – acredite – ela está lá, estará sempre lá. Cabe ao homem proteger os olhos do seu impacto, mas insistir na acomodação luminosa, que cedo virá. 
Não alimente a sua tristeza, o seu esforço não foi em vão.
Os olhos dos homens serão, finalmente, abertos, e eles verão o milagre da luz.
Com o barulho das asas, a águia se elevou aos céus.
Na margem do rio, o homem sorriu pela primeira vez, repetindo para si mesmo:
- Os olhos dos homens serão abertos e eles verão o milagre da luz.

Cel. EB Ênio Fontenelle

Pois bem, nós conseguimos abrir os olhos de milhões. Mas a claridade ainda os impede de ver com clareza, já que por várias décadas a escuridão imperou. Com o tempo a visão estará nítida, aí será impossível sermos novamente enganados.

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