Rafael Soares
A investigação que pôs atrás das grades a quadrilha
de oficiais que desviou mais de R$ 16 milhões do Fundo de Saúde (Fuspom) da
Polícia Militar do Rio também desvendou uma série de crimes e irregularidades
cometidos nos hospitais da corporação. O coronel Décio Almeida da Silva, que
fez acordo de delação premiada e responde ao processo em liberdade, revelou, em
um dos depoimentos que prestou ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime
Organizado (Gaeco), do Ministério Público, que médicos “fantasmas” atuam nos
hospitais da PM no Estácio, na Região Central do Rio, e em Niterói, na Região
Metropolitana do estado.
De acordo com o depoimento do coronel, um major, um
capitão e um tenente — todos médicos da corporação — atuam em São Paulo, em
hospitais particulares da rede São Luiz D'Or, inclusive durante a semana,
quando deveriam estar nas unidades de saúde da PM. No relato, Décio chama os
médicos de servidores “fantasmas”. De posse da informação, os promotores do
Gaeco enviaram cópias do depoimento para a Corregedoria da PM, para que o crime
de peculato seja investigado. Também será investigada a prática de improbidade
administrativa.
Os investigadores também descobriram que um
tenente, quando trabalhava na tesouraria do HCPM, no Estácio, em 2013, desviou
“valores destinados à manutenção e pequenos reparos” na unidade. O oficial será
investigado por peculato e improbidade administrativa.
Outro desdobramento da operação Carcinoma, que
prendeu, no dia 18, nove oficiais acusados de fraudes em compras de material
hospitalar, é a abertura de um inquérito para investigar o ex-comandante da PM,
coronel Luís Castro. Na última terça-feira, o EXTRA revelou que Castro foi
citado em depoimento como envolvido no esquema de recebimento de propinas.
Capitã Luciana em filmagem feita pelo coronel Décio Almeida
Detalhes da divisão da propina
Além de auxiliar as investigações com depoimentos,
o coronel Décio Almeida da Silva, que fez acordo com a Justiça, também filmou,
escondido, diálogos com a capitã Luciana Rosas Franklin, outra integrante da
quadrilha. Os dois trabalhavam juntos na administração do Fuspom. Num dos
vídeos, entregues ao MP-RJ e obtido pelo EXTRA, Décio e Luciana revelam, em
detalhes, como foi a divisão da propina de R$ 400 mil recebida pela compra de
75 mil litros de ácido peracético, usado para esterilizar material cirúrgico.
Na filmagem, feita num restaurante no Centro de
Niterói, Décio e Luciana reclamam que os coronéis Ricardo Pacheco e Kleber
Martins, apontados como chefes da quadrilha, ficavam com a maior parte do
dinheiro. No caso do ácido peracético, a PM gastou R$ 4 milhões para comprar
uma quantidade de material que só usaria em 310 anos, segundo o MP. O material,
entretanto, nunca foi entregue pela empresa Medical West, que recebeu todo o
dinheiro.
“Você viu que eu subi com os R$ 400 mil que o Delvo
me mandou? Eu subi e entreguei a eles. Mandaram R$ 5 mil para o Helson. Lembra
que o Helson ficou puto?”, pergunta Décio. Os majores Helson dos Prazeres e
Delvo Nicodemos também foram denunciados por participação na quadrilha. Luciana
responde afirmativamente.
“Eu tirei do meu. Me deram R$ 50 mil. Eu tirei R$ 5
mil do do meu, ainda completei pro Helson”, diz Décio. Em seguida, Luciana
minimiza os crimes cometidos pela quadrilha: “A gente queria tudo de primeira.
Fazia um favorecimento de amigo e ponto. Só! A gente queria tudo do melhor, a
gente queria tudo entregue”.
Pacheco, Kleber, Luciana e Delvo foram presos. Já
Décio e Helson — este, por colaborar com as investigações, apesar de ter se
recusado a fazer delação premiada — vão responder ao processo em liberdade.
Fungos na UTI do HCPM
Ao longo das investigações, promotores do Gaeco
solicitaram que duas inspeções fossem feitas no HCPM para checar as condições
das instalações da unidade. Nos dias 10 de junho e 7 de outubro,
respectivamente, médicos do Grupo de Apoio Técnico Especializado (Gate) do
MP-RJ e do Conselho Regional de Medicina (Cremerj) foram ao hospital. Nas duas
visitas, os profissionais constataram uma série de irregularidades e a
estrutura precária do local.
No relatório do Gate, os médicos afirmam que o CTI
“apresentava paredes descascadas e infiltrações”. Segundo eles, “as instalações
elétricas estavam comprometidas, e as tomadas de ar-condicionado, com
curto-circuito”. Na emergência, foram constatados mais problemas: “O estado de
conservação e limpeza do setor era precário com paredes descascadas, forte odor
de urina e refrigeração inadequada — local quente”.
Na UTI Neonatal e pediátrica, que ocupam a mesma
sala, os médicos encontraram fungos. “A mangueira de saída de água do
ar-condicionado estava voltada para a pia, e na extremidade havia grande
quantidade de fungos”, relatam.
Já a visita do Cremerj constatou que “o problema
emergencial de maior impacto é a ausência de exames de imagem — tomografia e
ressonância — que aguardam manutenção há um e quatro meses, respectivamente”.
Segundo o relatório, sem os exames, o diagnóstico e tratamento de muitos
pacientes é inviável.
Se querem acabar com a PMERJ não se preocupem, os
gestores ladrões já se encarregam disso, inclusive na base do “latrocínio” de
seus comandados.
E um conselho ao GRAECO, não contem com lisura dos
procedimentos das Corregedorias PMERJ e CGU, não valem o que recebem.


























